Cadê os homens públicos?
Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Acompanho o mercado financeiro brasileiro há mais de quatro décadas. Nesse período, pensei que já tivesse visto de tudo. Assisti aos casos Banco Nacional, Coroa-Brastel, Banco Santos, Banco Cruzeiro do Sul e a tantas outras crises que marcaram o sistema financeiro brasileiro. Vi bancos quebrarem, banqueiros serem presos, instituições liquidadas, fortunas desaparecerem e investidores perderem dinheiro.
Mas, o caso Master me causa uma perplexidade diferente. Não apenas pelo tamanho e pelas ramificações que vêm sendo investigadas, mas pela quantidade e pela natureza dos personagens que aparecem em torno dessa história, alcançando diferentes espaços da República. E, há algo que talvez me impressione ainda mais: o baixíssimo nível das relações descritas publicamente. Dinheiro, favores, festas, mulheres, bebidas, influência.
Evidentemente, investigações devem seguir seu curso, responsabilidades precisam ser individualizadas e ninguém deve ser condenado antecipadamente. Mas, se comprovados os fatos atribuídos a cada personagem, estaremos diante de algo que ultrapassa em muito um problema bancário.
Em mais de quarenta anos de mercado, não me lembro de ter assistido a algo com tamanha capilaridade e tão baixo nível. O ser humano sempre teve suas fraquezas. Ganância, vaidade, sexo e poder são tão antigos quanto a humanidade. O que me espanta é a naturalidade com que tudo isso parece circular em ambientes próximos aos centros de poder. Pensei que já tivesse visto de tudo. Não tinha. E, então, me ocorre uma pergunta quase elementar.
Cadê os homens públicos?
Não estou falando de santos. A política nunca foi feita por santos. Falo de homens e mulheres que compreendiam existir uma fronteira entre o interesse público e o particular.
O que leva alguém ao serviço público? Servir ao país ou servir-se dele? Enquanto nos indignamos com milhões envolvidos no escândalo da semana, há números infinitamente maiores que parecem ter perdido a capacidade de nos escandalizar. A dívida bruta brasileira já está na casa dos R$ 10,9 trilhões. A conta de juros do setor público supera R$ 1 trilhão em doze meses. Um trilhão de reais. É tanto dinheiro que o número se tornou uma abstração.
Não escrevo isso para demonizar o mercado financeiro. Seria uma contradição depois de mais de quatro décadas trabalhando nele. Conheço a importância do crédito, da poupança, do investimento, da estabilidade da moeda e, sobretudo, da responsabilidade fiscal. Não existe almoço grátis.
Governos que gastam mal, acumulam déficits e aumentam a percepção de risco acabam pagando mais para tomar dinheiro emprestado. Mas há uma contradição brutal nesse Brasil dos juros. Enquanto o Estado convive com uma conta superior a R$ 1 trilhão em juros, 82% das famílias brasileiras estão endividadas.Isso não significa que 82% estejam inadimplentes. Significa que oito em cada dez famílias possuem compromissos financeiros a pagar.
O cartão de crédito ocupa lugar central nesse endividamento. De um lado, o Estado pagando juros para financiar sua dívida. Do outro, milhões de brasileiros comprometendo parte do que ganham para pagar cartão, financiamento, crediário e empréstimos, frequentemente a taxas muito superiores à própria Selic.
O Brasil tornou-se um país em que quem tem dinheiro recebe juros e quem não tem paga juros. Não é uma crítica a quem poupa ou investe. É uma pergunta sobre que economia estamos construindo. Uma economia não pode considerar normal que durante tanto tempo o dinheiro seja mais atraente do que o investimento produtivo. Quem abrirá uma fábrica, contratará funcionários ou assumirá o risco de empreender se puder encontrar remunerações extraordinárias simplesmente carregando títulos?
E, enquanto essas questões permanecem quase escondidas, o país é entretido pelo escândalo do dia.
Um personagem substitui o outro. Uma denúncia ocupa o lugar da anterior. Todos se indignam por alguns dias. Depois, aparece o próximo escândalo.
E, o Brasil continua.
Agora as eleições de 2026 se aproximam. Olho para o cenário e lembro inevitavelmente de Cazuza.
Um “museu de grandes novidades”.
Os nomes são conhecidos. Os discursos se repetem. As promessas parecem recicladas. Onde estão as novas lideranças? Não quero salvadores da pátria. O Brasil já pagou caro demais por essa ilusão. Procuro homens e mulheres preparados, com espírito público e dimensão de Estado. Pessoas capazes de pensar além da próxima eleição, do próximo cargo, da próxima pesquisa e do próximo interesse pessoal. E não vejo essa renovação. Talvez porque estejamos procurando no lugar errado. Lideranças não surgem por geração espontânea. Elas são formadas por uma sociedade que valoriza conhecimento, pensamento crítico, responsabilidade e cidadania. E por isso volto sempre à mesma palavra. Educação. Um país que abandona a educação não compromete apenas sua produtividade. Compromete sua capacidade de formar cidadãos. E se o exemplo que vem de cima é o dinheiro fácil, a vantagem pessoal e a confusão entre o público e o privado, o que estamos ensinando aos nossos jovens? Podemos trocar presidentes, ministros, parlamentares, juízes e banqueiros. Podemos trocar governos inteiros. Sem educação, continuaremos trocando apenas os personagens de uma velha história. Ou, para voltar a Cazuza, continuaremos passeando pelo mesmo museu. A educação não resolve tudo. Mas sem ela não resolveremos nada.













