O alcoolismo e o uso nocivo de álcool no Brasil causam cerca de 21 mortes por dia e quatro hospitalizações por hora. Os homens concentram cerca de 90,9% dos óbitos e 86,4% das internações. Mais da metade das mortes (51,3%) ocorre em pessoas com mais de 55 anos, mas os efeitos graves e acidentes também afetam jovens. Embora, pesquisas indicam que uma parcela significativa de brasileiros relata não consumir bebidas alcoólicas, com destaque para o público jovem, embora o consumo abusivo ainda seja um problema grave de saúde pública.
Para falar sobre o tema, fui conversar essa semana com Gabriela Henrique, psicóloga especialista em compulsões, foi vice-presidente nacional de Alcoólicos Anônimos entre 2022 e 2024 (custódia nacional não-alcoólica) e diretora executiva da Psicuide Clínica e Consultoria.
JP – Olá Gabriela! Qual é o balanço que você faz da sua vice-presidência no Alcoólicos Anônimos e como amiga de A.A.?
O balanço é muito positivo e sou muito grata por tudo o que pude vivenciar nesse período. Não apenas como profissional e amiga de A.A., mas também como pessoa, mulher, familiar e amiga. Foi uma experiência que me permitiu aprender muito com a programação de Alcoólicos Anônimos e com a estrutura dessa organização internacional que há décadas contribui para salvar e transformar vidas em diferentes partes do mundo.
Ao mesmo tempo em que a experiência na vice-presidência me permitiu conhecer melhor as interculturalidades do nosso próprio país, também me mostrou algo muito interessante: em qualquer região ou realidade cultural, o programa de recuperação oferecido por A.A. mantém a mesma essência.
Para mim, isso teve um enorme valor profissional. Aprendi muito com os próprios membros de A.A., especialmente observando como cada pessoa trabalha sua sobriedade diariamente, enfrentando as novidades e os desafios que a vida apresenta.
Vejo com clareza que o programa pode funcionar quando a pessoa realmente se envolve com aquilo que é proposto, especialmente com os Doze Passos, com o apadrinhamento, a frequência às reuniões, o acesso à literatura e a troca de experiências. Levo muitos desses aprendizados para minha prática clínica, minhas consultorias e minhas palestras.
JP – O alcoolismo é uma doença?
Sim, mas eu faria uma atualização importante na terminologia. Hoje, na linguagem científica, é mais adequado falar em transtorno por uso de álcool (TUA) ou quando se trata especificamente da dependência, dependência de álcool.
A CID-11, da Organização Mundial da Saúde, classifica os transtornos decorrentes do uso de álcool dentro dos transtornos mentais, comportamentais ou do neurodesenvolvimento, incluindo uso nocivo e dependência de álcool. O DSM-5 também utiliza o diagnóstico Transtorno por Uso de Álcool (Alcohol Use Disorder), podendo ser classificado como leve, moderado ou grave, conforme o número de critérios presentes. Portanto, não estamos falando simplesmente de uma questão de falta de vontade, caráter ou disciplina. É uma condição de saúde multifatorial, tratável e que pode apresentar caráter crônico e recorrente.
JP – No seu ponto de vista, como os alcoólicos devem ser tratados?
Com acolhimento, respeito, ausência de julgamento e tratamento individualizado. O primeiro passo é compreender que não existe uma única trajetória para o transtorno por uso de álcool e não existe uma única estratégia terapêutica que funcione para todas as pessoas. O tratamento deve considerar aspectos biológicos, psicológicos, familiares e sociais, além da presença de outros transtornos ou condições de saúde. Pode envolver psicoterapia, acompanhamento médico, medicamentos quando indicados e grupos de mútua ajuda. A evidência atual favorece abordagens integradas e individualizadas, evitando estratégias baseadas em confronto, culpa ou estigmatização.
JP – Aliás, por que atualmente não devemos usar o termo “alcoólatra” e sim alcoólico ou alcoolista?
“Alcoólatra” é um termo historicamente associado a uma visão estigmatizante da pessoa. Hoje, a terminologia mais adequada é “pessoa com transtorno por uso de álcool” ou “pessoa com dependência de álcool”, dependendo do contexto. O diagnóstico descreve uma condição de saúde. Ele não define quem aquela pessoa é. Isso é particularmente importante porque a estigmatização pode dificultar a busca por tratamento. A linguagem moralizante e punitiva é incompatível com a compreensão científica atual dos transtornos relacionados ao álcool.
JP – Como Alcoólicos Anônimos atua para ajudar pessoas que ainda sofrem com problemas relacionados ao uso de álcool?
Aqui eu destacaria uma distinção importante, A.A. não substitui tratamento médico ou psicológico. Alcoólicos Anônimos é uma irmandade de mútua ajuda, na qual pessoas que têm ou acreditam ter problemas com álcool compartilham experiências, força e esperança, dentro de um programa de recuperação. Um dos seus diferenciais é a possibilidade de encontrar outras pessoas que passaram por experiências semelhantes, criando pertencimento, apoio social e continuidade no processo de recuperação.
A.A. também oferece reuniões presenciais e virtuais. No Brasil, o único requisito para participar é o desejo de parar de beber e não há cobrança de taxas ou mensalidades. O A.A. integra uma rede de recuperação, inclusive junto ao tratamento profissional, quando necessário. A própria literatura científica reconhece grupos de apoio mútuo como uma das possibilidades dentro de um cuidado mais amplo.
JP – No seu ponto de vista, deveria haver uma política pública de saúde para o alcoolismo?
Sim. E, na verdade, a questão deveria ser tratada dentro de uma política pública mais ampla para os transtornos relacionados ao uso de álcool, outras substâncias e dependências comportamentais.
O álcool é uma substância psicoativa que produz dependência e está associado a numerosas consequências físicas, psicológicas e sociais. A Organização Mundial da Saúde destaca que o consumo de álcool está relacionado a mais de 200 doenças, lesões e outras condições de saúde. Também é fundamental combater o estigma. Quanto mais a sociedade entende a dependência como uma questão de saúde, maior a possibilidade de a pessoa procurar ajuda precocemente.
JP – A presença da família é importante no tratamento?
Sim, frequentemente é muito importante, mas é preciso compreender qual é o papel da família. A família pode oferecer suporte emocional, ajudar na adesão ao tratamento e participar de intervenções familiares quando isso for indicado. Ao mesmo tempo, familiares também precisam de orientação para compreender a dependência e estabelecer limites saudáveis e podem encontrá-las nos grupos Al-Anon que também, são gratuitos e de mútua ajuda. É importante evitar duas posições extremas: culpabilizar a família pelo transtorno ou responsabilizá-la pela recuperação da pessoa.
JP – O que leva um indivíduo ao alcoolismo?
O transtorno por uso de álcool é multifatorial e resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. Entre os fatores associados estão predisposição genética, histórico familiar, exposição precoce ao álcool, padrões de consumo, condições de saúde mental, experiências traumáticas, estresse, contexto social e disponibilidade e normalização do álcool. Mas é importante fazer uma distinção, beber álcool não significa necessariamente desenvolver dependência e fatores de risco não determinam que uma pessoa necessariamente desenvolverá o transtorno.
JP – Quais são os seus projetos futuros?
Meus projetos futuros incluem estar mais próxima dos meus familiares e amigos e, profissionalmente, ampliar minha atuação. Estou concluindo uma pós-graduação em Cibersegurança e Inteligência que também me permitirá atuar na prevenção e no tratamento de comportamentos compulsivos relacionados ao ambiente digital. Entre eles estão os jogos de azar, como as apostas esportivas e outros jogos acessíveis pelo celular que têm causado prejuízos importantes a muitas famílias e instituições, no Brasil. Também estou preparando o lançamento de um curso na área com foco em Psicologia Positiva, previsto para o próximo ano e que já está em fase de desenvolvimento. E cuidar da minha saúde virou prioridade.
JP – E os projetos de Alcoólicos Anônimos? No próximo ano, vão comemorar 80 anos no Brasil, correto?
2027 será um ano muito significativo para Alcoólicos Anônimos, no Brasil. É uma trajetória marcada pela recuperação, pela unidade e pelo serviço de muitas pessoas anônimas envolvidas, fazendo a roda da abstinência do álcool girar. Mais do que celebrar uma data, acredito que momentos como esse são importantes para ampliar o conhecimento da sociedade sobre a dependência de álcool, reduzir o estigma e lembrar que existem caminhos de recuperação. Haverá muitos eventos para esclarecer a população e comunicar como A.A. funciona. Fiquem atentos às divulgações nas mídias!