
Ver Tarsila do Amaral no MoMA foi uma experiência que ficou comigo. Não apenas pela força das obras, mas pela sensação de estar diante de uma artista que ajudou a inventar a imagem de um Brasil moderno.
Também assisti à palestra de Caetano Veloso sobre a artista. E uma de suas frases ficou comigo: “Em um grande relacionamento, um parceiro acaba por influenciar o outro — não importa o gênero — e isso é o que acontece com Tarsila e Oswald”.
Tarsila tinha as cores, a imaginação, a paisagem brasileira e uma maneira absolutamente particular de olhar o país. Oswald tinha a palavra, a provocação, a antropofagia e seu veio político.
Um alimentava o outro. E dessa convivência nasceu uma das maiores explosões criativas da cultura brasileira.
Abaporu, de 1928, dado por Tarsila a Oswald, inspirou o Manifesto Antropófago. Era uma ideia revolucionária: não copiar a Europa, mas devorá-la, misturá-la ao que era nosso e devolver ao mundo alguma coisa nova.
Essa visão também chegaria, décadas depois, à Tropicália. Não por acaso, Verdade Tropical, de Caetano, foi utilizado como roteiro básico da exposição do MoMA.
Tarsila, porém, é muito maior que sua relação com Oswald. Ela foi uma artista que transformou em linguagem própria aquilo que via e sentia. Suas cores, suas paisagens, seus personagens e sua sensualidade ajudaram a construir uma imagem moderna e profundamente brasileira.
E sua trajetória não ficou parada no modernismo. Vieram as perdas, a crise de 1929, a separação de Oswald, a aproximação com a política e a fase social, quando passou a retratar trabalhadores e as desigualdades brasileiras.
Sua vida foi tão movimentada quanto sua pintura.
É justamente essa mulher múltipla que Claudia Raia leva agora ao palco em Tarsila, a Brasileira, musical que retorna ao Rio para sua última temporada na cidade, de 10 a 13 de setembro, no Vivo Rio.
Claudia é Tarsila e também produtora do espetáculo. Ao seu lado está Jarbas Homem de Mello como Oswald de Andrade. E, se Tarsila e Oswald nem sempre acertaram na combinação entre amor e arte, Claudia e Jarbas fazem um par com força e sintonia.
O musical percorre a chegada de Tarsila a São Paulo, em 1922, o encontro com Anita Malfatti, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia e a formação do Grupo dos Cinco.
Passa por Paris, pelos artistas que frequentavam seu ateliê, pelo romance com Oswald, pela criação do Abaporu e pelo movimento antropofágico.
Depois vêm a crise, a traição de Oswald com Pagu, a viagem a Moscou, a prisão durante o governo Vargas e o relacionamento com o jornalista Luís Martins, 24 anos mais jovem.
É uma vida que parece feita para o palco.
Tarsilinha, sobrinha-neta da artista, foi quem provocou o nascimento do musical. Durante a pandemia, procurou Claudia Raia e fez um pedido: queria que ela desse vida à tia-avó porque enxergava na atriz a mesma força de Tarsila.
E há uma descoberta interessante nessa aproximação: por trás da mulher que entrou para a história pela força de suas cores e de sua personalidade artística, havia também uma Tarsila tímida, introspectiva, dividida entre aquilo que a família esperava dela e a mulher que estava muito à frente de seu tempo.
E quem transforma essa vida em cena é José Possi Neto. Diretor, encenador e diretor de arte, ele divide o texto e as letras com Anna Toledo.
Possi tem, ele próprio, uma alma tropicalista. Viveu anos na Bahia e conhece profundamente essa mistura brasileira de culturas, ritmos e invenção. Sua direção parece entender que Tarsila não pode ser tratada como peça de museu. Ela precisa estar viva, em movimento, cercada pelo mundo vertiginoso dos anos 1920, os chamados anos loucos, quando Paris reunia artistas, escritores, músicos e criadores que estavam reinventando a arte e a própria ideia de modernidade.
Picasso, Stravinsky, Satie, Cocteau e tantos outros faziam parte daquele mundo de ruptura. Tarsila não estava isolada: estava no centro de uma explosão internacional de criação e soube transformar aquilo em Brasil.
O elenco reúne 21 atores-cantores. Keila Bueno é Anita Malfatti; Renato Caetano, Mário de Andrade; Ivan Parente, Menotti Del Picchia.
Guilherme Terra assina músicas, arranjos e direção musical; Alonso Barros, a coreografia e direção de movimento; Renato Theobaldo, o cenário.
E há luxo no figurino de Fábio Namatame, além da luz de Wagner Freire e das músicas de Tony Lucchesi.
E talvez por isso a própria montagem seja tão cheia de vida.
Tarsila, a Brasileira é a própria exuberância.
Não poderia ser diferente diante de uma mulher que viveu intensamente, amou intensamente, criou intensamente e transformou tudo o que recebeu em outra coisa. Há luxo, cor, música, dança, movimento e excesso. Mas não é excesso gratuito. É fidelidade ao legado de Tarsila.
José Possi Neto entende isso. Sua direção não tenta colocar Tarsila num pedestal. Ao contrário: coloca-a em movimento, no meio da vida, das paixões, das amizades, das rupturas e das descobertas. Uma mulher que não cabe numa moldura.
No fundo, o musical faz aquilo que Tarsila fez com a arte europeia: recebe, mistura, devora e devolve outra coisa. Brasileira. Tropical.
No final, depois de tantas perdas, Tarsila encontra na espiritualidade uma possibilidade de reencontro e de transcendência. E volta àquilo que sempre a moveu: a arte.
Mais do que contar a história de uma pintora, o musical recupera um instante em que o Brasil começava a se inventar.
Tarsila não pintou apenas um país. Ajudou a imaginá-lo.
E talvez Caetano tenha razão: por trás de todo grande homem existe uma mulher maior.
SERVIÇO
Tarsila, a Brasileira
Vivo Rio
De 10 a 13 de setembro de 2026
Fotos Paschoal Rodriguez




