Cultura Ruminante
Por Aurélio Wander Bastos – Professor Emérito da Unirio, mestre em Ciências Jurídicas, advogado e Doutor em Ciências Políticas – Colunista convidado.
Recentemente, assisti, na Estação Claro Rio, em Botafogo, à sessão especial do documentário “Os Ruminantes”, dirigido por Tarsila Araújo e Marcelo Mello.
O filme resgata a história de “A Hora dos Ruminantes”, adaptação do romance homônimo de José J. Veiga, que teve roteiro escrito por Luiz Sérgio Person e Jean- Claude Bernadet, em 1967, mas que não foi concluído.
” A Hora dos Ruminantes” é a história,e não estória , de um filme que foi engolido pelos seus próprios narradores. Eles, sucessiva e insistentemente aparecem no cenário do documentário de Tarsila Araújo e Marcelo Mello, atropelados por situações icônicas e irônicas e de cenas de efetivas horas ruminantes, no cenário insistente de vacas e boiadas.
O documentário apresenta entrevistas com Jean-Claude Bernadet, crítico, diretor e roteirista falecido em 2025, Marina Person ( filha de Person) e de Sebastião de Souza (que trabalhou durante anos com o cineasta).
Na verdade, os narradores na sua dissertação, reproduzem a tese de Doutorado de Marcelo Mello (citada no início da indicação de fontes), mas não o citam nas exposições do documentário .
A tese citada , numa leitura independente, evolui a partir de uma séria pesquisa, no Arquivo Nacional, que descobre, em tantos paradeiros, a etapa final do copião que havia desaparecido. Os narradores ,aliás, sem identificar os tantos destinos do projeto de um filme, procuram uma efetiva identificação da obra ” Os Irmãos Nader”.
Na verdade, o filme “A Hora dos Ruminantes” poderia ser a continuação concorrente de “Os Irmãos Nader” .
De qualquer forma, não há evidências que a programação de “A Hora dos Ruminantes” foi pensada e programada na Universidade de Brasília, e essa foi a minha motivação para assistir.
“A Hora dos Ruminantes” me traz de volta as lembranças da Universidade de Brasília (UNB), em 1965, em momento crítico da história brasileira, no início da ditadura militar, com a demissão de duzentos professores e o seu fechamento (a reabertura só aconteceu em 1966, pelo vice-reitor Roberto Lira Filho).
Eu também me lembrei que, na mesma época, das lutas e da política estudantil. E, de eu ter escrito, em um daqueles panfletos, em nossas manifestações, a expressão “Cultura Ruminante”, que atribuí à falação repetitiva da direita brasileira.
O documentário, agora em cartaz, não explica porque tem esse nome de ruminantes, mas a continuada movimentação de vacas durante o filme, me permite dizer que a palavra “ruminante” tem origem animal pois se refere a uma categoria de mamíferos que ,durante a alimentação, ruminam, ou seja o alimento volta e “re-volta” no organismo de vacas, cabras e outros animais do mesmo gênero . A apresentação geral do documentário Marina por Nusdem, manteve a fidelidade expositiva. O filme é uma homenagem à ” Hora dos Ruminantes ” e ao cinema brasileiro, tão censurado na época da ditadura militar.













