O Príncipe, o Mendigo e o Rei da Dança
Há um livro de Mark Twain que nunca saiu da minha cabeça: O Príncipe e o Mendigo. Dois meninos absolutamente iguais trocam de lugar. Um nasce cercado de luxo; o outro conhece a dureza da rua. Quando cada um experimenta a vida do outro, descobre que o destino pode mudar quando alguém atravessa uma porta que parecia proibida.
Confesso que pensei nesse livro ao assistir à trajetória de Thiago Soares.
Menino de São Gonçalo, criado no Rio de Janeiro, ele começou pela dança de rua e pelo hip-hop. O balé clássico entrou quase por acaso, aos 15 anos. Dois anos depois estava no Theatro Municipal. Pouco tempo mais tarde conquistava a medalha de ouro no Concurso Internacional de Ballet de Moscou e desembarcava em Londres para integrar o Royal Ballet, onde chegaria ao posto máximo de Principal Dancer, um dos maiores títulos da dança mundial.
É uma história brasileira de transformação. Ou, para falar a nossa língua, é quase um enredo de escola de samba: o dia em que o menino vira rei.
Depois de anos sendo dirigido pelos maiores coreógrafos do mundo, Thiago resolveu fazer o caminho inverso. Voltou ao Brasil para criar sua própria companhia. É quase um “meu corpo, minhas regras” da dança: cansou de apenas interpretar o sonho dos outros e decidiu construir o seu.
Esse novo capítulo ganha forma em Carmem, releitura latino-americana do clássico de Georges Bizet que chega ao Teatro Multiplan, no VillageMall, dias 17 e 19 de setembro.
Aqui não existe a Espanha folclórica das castanholas. Existe uma Carmem brasileira, latina, contemporânea, sensual e, sobretudo, livre. Thiago desloca o centro da história: mais do que uma mulher fatal, Carmem é uma mulher que se recusa a pertencer a alguém. O conflito deixa de ser apenas paixão e passa a discutir posse, ciúme e liberdade.
A montagem mistura balé clássico, dança contemporânea, linguagens urbanas e uma teatralidade muito física. É exatamente o percurso do próprio Thiago traduzido em movimento: o menino do street dance conversa com o bailarino formado nos palcos mais tradicionais do mundo.
Há ainda um presente para o público carioca. A primeira bailarina do San Francisco Ballet, Sasha De Sola, estreia no Brasil como convidada especial do espetáculo. É o encontro de dois artistas que construíram carreiras em algumas das companhias mais prestigiadas do planeta.
Thiago poderia ter permanecido em Londres colecionando aplausos. Preferiu voltar. Criou uma companhia na Barra da Tijuca, abriu espaço para jovens bailarinos e decidiu formar artistas, não apenas protagonizar espetáculos.
E talvez seja justamente aí que a história do príncipe e do mendigo deixe de ser apenas uma metáfora. Thiago não trocou de identidade. Levou as duas para o mesmo palco.
Você começou no street dance e no hip-hop e depois chegou ao balé clássico e ao Royal Ballet. Como foi construir essa ponte entre dois universos tão diferentes? Em algum momento você sentiu que precisava escolher entre a sua origem e o destino que estava construindo?
“Eu nunca vi a rua e o balé como mundos separados. A rua me deu identidade e coragem; o balé me deu disciplina e técnica. Quando percebi que podia levar quem eu era para os maiores palcos do mundo, entendi que não precisava escolher entre a minha origem e o meu destino.”
E Londres? Um brasileiro que vai morar fora acaba descobrindo também que saudade tem gosto.
Você conseguiu se adaptar à vida londrina — inclusive à comida? Chegou a comer kidney pie, fish and chips e tentar entrar naquele universo, ou arroz e feijão continuaram sendo uma espécie de endereço afetivo?
“Eu me adaptei, mas nunca abandonei minhas raízes. Comi kidney pie, fish and chips, experimentei tudo o que Londres tinha para oferecer, mas arroz, feijão continuavam sendo parte da minha casa. Acho que essa mistura acabou sendo uma das grandes forças da minha trajetória.”
Agora, em Carmem, existe uma mudança fundamental: Thiago não está apenas dançando. É uma criação da sua companhia, portanto, é também uma escolha sua.
Você já dançou Carmem em outras companhias. O que muda quando você volta à personagem dentro de um projeto que também é seu? É outra Carmem, porque é outro Thiago?
“Muda tudo. Quando a obra é sua, você não está apenas interpretando uma personagem, você assume a responsabilidade por uma visão. Carmen continua sendo uma mulher livre e perigosa — necessária! E hoje eu danço com a experiência de quem construiu seu próprio caminho.”
Há uma curiosidade que eu não resisti a perguntar. Porque por trás do grande bailarino, do homem celebrado nos palcos internacionais, existe também alguém procurando uma coisa muito mais simples: uma pessoa para conversar, paquerar, talvez amar.
Você chegou a usar um aplicativo para conhecer pessoas. O que estava procurando ali? E o que essa experiência revelou sobre o homem que existe por trás da imagem pública de Thiago Soares?
“Eu estava procurando conhecer, paquerar… O aplicativo me mostrou que, por trás da imagem pública, existe um homem que também quer ser visto simplesmente como homem. Foi uma experiência importante porque me lembrou que sucesso, fama e reconhecimento não substituem intimidade e presença. E que o destino sempre pode trazer algo lindo e especial.”
E então vem a parte mais difícil para quem decidiu criar a própria companhia: escolher quem vai dividir o palco e, talvez, o futuro.
Quando você escolhe um bailarino para a sua companhia, o que procura primeiro? Técnica, personalidade, presença, inteligência? Existe alguma coisa que você percebe antes mesmo de ele começar a dançar?
“Técnica é fundamental, mas não é suficiente. Eu procuro personalidade, inteligência, presença e vontade de crescer. E muitas vezes percebo um bailarino antes do primeiro passo: pela maneira como ele entra na sala, observa, escuta e se posiciona. Para mim, uma companhia é formada por artistas, não apenas por corpos que executam movimentos.”
Talvez seja essa a verdadeira história de Thiago Soares.
Não a do menino que virou príncipe.
Mas a do menino que entrou no palácio, aprendeu todas as regras e, quando chegou a hora, voltou para casa levando consigo tudo o que havia aprendido.
Para abrir as portas para outros.
E continuar dançando.
Serviço
Temporada: 17 e 19 de setembro, às 20h
*Sessões com participação especial de Sasha De Sola
Local: Teatro Multiplan – VillageMall
Endereço: Avenida das Américas, 3.900 – Barra da Tijuca – Rio de Janeiro/RJ













