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Contagem regressiva. Cabo Anselmo: O infiltrado da CIA de quem meu pai desconfiava.

Contagem regressiva. Cabo Anselmo: O infiltrado da CIA de quem meu pai desconfiava.

Por Henrique Pinheiro –  Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de Crônicas de um “Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado. 
 
Rio de Janeiro, noite de 25 de março de 1964.
Faltavam seis dias para o golpe. Meu pai, João Pinheiro Neto, presidente da SUPRA, Superintendência de Política Agrária, órgão responsável pela execução da política de reforma agrária do governo João Goulart, conversava com Tancredo Neves, ex-primeiro-ministro e então deputado federal, na cobertura de Tancredo, na Rua Rodolfo Dantas.
Eram cerca de onze e meia da noite quando o telefone tocou. Era o presidente João Goulart.
Jango precisava falar com Tancredo com urgência e decidiu ir pessoalmente até o apartamento. Meu pai levantou-se para sair, mas Tancredo pediu que ficasse.
Pouco depois, Jango chegou. Cansado, acendeu um cigarro, pediu um uísque e confessou: ” Meus amigos, estou vivendo a hora mais grave do meu Governo.”
A crise dos marinheiros o colocara diante de um impasse.
Tancredo advertiu que Jango precisava punir os insubordinados e não comparecer à reunião dos sargentos no Automóvel Clube.
Jango então se virou para meu pai:
“E tu, Pinheiro, que estás aí quieto, sem dizer nada, logo tu que gostas tanto de falar?”
Meu pai respondeu: “Desconfio muito desse tal de Cabo Anselmo, que surgiu ninguém sabe de onde…”
Meu pai sustentaria mais tarde que Cabo Anselmo, então líder dos marinheiros, era um infiltrado da CIA.
Já passava da meia-noite quando Tancredo fez uma advertência ainda mais grave: “Se você for ao Automóvel Clube e anistiar a todos, garanto que seu governo talvez não chegue ao final do mês.”
Depois que Jango partiu, meu pai perguntou: “Dr. Tancredo, o que o senhor acha que o Jango vai fazer?”
“Sinceramente, não sei.”
Jango decidiu. Anistiou os marinheiros. E, compareceu ao Automóvel Clube.
A previsão de Tancredo se cumpriria.
Cinco dias depois daquela madrugada, começava o golpe.
Esse relato faz parte do livro Jango: um depoimento pessoal, escrito por meu pai, João Pinheiro Neto, e publicado pela Editora Record em 1993.
Foto: João Pinheiro Neto, ao centro, entre o ex-presidente Juscelino Kubitschek, à esquerda, e o general Nélson de Melo, à direita, ex-ministro da Guerra de João Goulart. Meses depois, já marechal da reserva, Nélson de Melo participaria da Marcha da Família com Deus pela Liberdade e, em 31 de março de 1964, atuaria ao lado dos militares que se levantaram contra o governo Jango. Arquivo pessoal da família.