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Homo Digitalis: quando os algoritmos passam a definir quem somos

Homo Digitalis: quando os algoritmos passam a definir quem somos

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 Por William Rocha – Advogado e professor, especialista em Direito Digital, Proteção de Dados e Inteligência Artificial. – Colunista convidado.
Somos realmente aquilo que o ambiente digital diz que somos?
Na sociedade contemporânea, nossa identidade já não depende apenas daquilo que fazemos ou pensamos, mas também das informações que circulam sobre nós. Fotografias, publicações, pesquisas, comentários e registros comportamentais compõem uma espécie de biografia digital, frequentemente interpretada por algoritmos que classificam pessoas, identificam padrões e produzem inferências.
Surge, assim, o *Homo Digitalis*: o indivíduo cuja existência passa a ser representada por dados que nem sempre correspondem à realidade.
O problema está na crescente confusão entre informação e verdade. Um dado pode estar incorreto, uma publicação pode ser descontextualizada e uma conclusão algorítmica pode reproduzir preconceitos. Ainda assim, aquilo que circula repetidamente nas redes sociais frequentemente adquire aparência de credibilidade.
Em *Infocracia*, o filósofo Byung-Chul Han alerta para os efeitos da digitalização sobre a formação do conhecimento e o debate democrático. A abundância de informações não significa necessariamente maior compreensão da realidade. Muitas vezes, a velocidade da circulação substitui a reflexão, enquanto a visibilidade passa a ser confundida com legitimidade.
Hannah Arendt, ao examinar as relações entre verdade e política, já demonstrava a vulnerabilidade dos fatos diante da manipulação das narrativas. No ambiente digital, essa fragilidade assume novas proporções, potencializada pela inteligência artificial, pelos mecanismos de recomendação e pela disseminação de conteúdos artificialmente produzidos.
A questão torna-se ainda mais preocupante quando informações equivocadas são incorporadas a bancos de dados e reproduzidas por sistemas automatizados. O erro inicial pode circular por diferentes plataformas, criando uma falsa aparência de confirmação.
**A repetição de uma informação não a transforma em verdade. E a precisão matemática de um algoritmo não garante a justiça de suas conclusões.**
Luciano Floridi, ao desenvolver sua filosofia da informação, demonstra como as tecnologias digitais modificam nossa compreensão da identidade e das relações humanas. Já Shoshana Zuboff, em seus estudos sobre o capitalismo de vigilância, evidencia como experiências individuais são transformadas em dados destinados à previsão e à influência de comportamentos.
Essa realidade possui consequências econômicas e jurídicas concretas.
Empresas utilizam sistemas automatizados para avaliar candidatos, conceder crédito, identificar consumidores e estabelecer perfis de risco. Quando alimentados por informações inadequadas ou modelos enviesados, esses mecanismos podem produzir decisões discriminatórias, comprometer reputações e restringir oportunidades.
A discriminação algorítmica revela precisamente esse perigo: pessoas podem ser avaliadas não por aquilo que efetivamente são, mas por aquilo que sistemas tecnológicos presumem sobre elas.
A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais enfrenta parte desse problema ao estabelecer os princípios da qualidade dos dados e da não discriminação. Entretanto, a conformidade legal, isoladamente, não assegura a confiabilidade de todas as inferências produzidas por inteligência artificial.
A governança dos dados e dos algoritmos deixa, portanto, de ser apenas uma exigência regulatória para se tornar uma questão de responsabilidade empresarial, segurança jurídica e confiança nas relações econômicas.
O desafio não consiste em rejeitar a tecnologia, mas em impedir que informações incompletas, falsas ou contaminadas sejam transformadas em decisões aparentemente objetivas e incontestáveis.
O *Homo Digitalis* enfrenta um paradoxo: quanto mais informações produz sobre si, menor pode ser seu controle sobre as interpretações construídas a partir delas.
Talvez estejamos caminhando para uma sociedade na qual a pergunta “quem é você?” seja substituída por outra: “o que os sistemas sabem ou presumem sobre você?”.
**O maior risco da sociedade digital não é apenas a perda da privacidade, mas a possibilidade de que uma representação informacional equivocada se torne mais importante do que a própria realidade.**
Afinal, dados podem descrever comportamentos, mas não esgotam a personalidade. Algoritmos podem identificar padrões, mas não possuem autoridade para estabelecer a verdade definitiva sobre um ser humano.
Porque existir digitalmente não significa, necessariamente, ser conhecido verdadeiramente.