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Hoje em “Chico Vartulli Convida” entrevista exclusiva com a diretora de Teatro Camila Bauer

Hoje em “Chico Vartulli Convida” entrevista exclusiva com a diretora de Teatro Camila Bauer

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Camila Bauer é diretora teatral e professora de dramaturgia do Departamento de Arte Dramática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutora pela Universidade de Sevilha e pela Universidade Livre de Bruxelas com estâncias na Espanha, França e Bélgica. Desenvolveu diferentes projetos de direção cênica, os mais recentes sendo “A Menina os Olhos d´Água” (2025), que retrata as enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul e já foi exibido na Alemanha, e Meretrizes (2023), espetáculo de teatro documental que pesquisou a prostituição em Porto Alegre — ambos produzidos pelo Coletivo Gompa.

Camila já recebeu uma série de indicações e troféus em premiações de teatro, como o Prêmio Shell de melhor direção por Instinto e os troféus Tibicuera de direção e espetáculo por “Chapeuzinho Vermelho”, prêmio Braskem em Cena de direção por Estremeço e de espetáculo pela ópera “Dido e Enéias”. Também já ministrou oficinas de dramaturgia na Espanha, México e diversas cidades do Brasil.

Em nosso bate-papo, Camila faz um balanço de sua trajetória, fala da montagem de  ” Frankenstein”, sua formação e muito mais. Confira!

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JP –  Qual é o balanço que você faz da sua trajetória como diretora teatral e professora de dramaturgia?

Acho que a sensação é de estar sempre aprendendo. Cada trabalho traz novos desafios, novas perguntas, e de algum modo é também um prolongamento de reflexões que já vinham sendo provocadas pelos trabalhos anteriores. Vejo minha trajetória muito mais como um percurso de investigação contínua do que como uma sucessão de realizações. Há algo que permanece, uma inquietação, uma vontade de experimentar, mas que vai se transformando a cada encontro, a cada processo. E existe uma relação muito próxima entre o que faço como professora e como encenadora. O ensino alimenta a prática artística, assim como a experiência da criação me faz repensar continuamente aquilo que compartilho em sala de aula.

JP – Como se deu a sua formação no campo das artes cênicas?

Sou formada em Artes Cênicas, com habilitação em Direção Teatral, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Depois da graduação, segui minha formação acadêmica, com especializações e um percurso de pós-graduação que me levou à Universidade de Sevilha, na Espanha, e à Universidade de Bruxelas, na Bélgica. Mas considero que minha formação acontece também, e talvez principalmente, na prática, no encontro com outros artistas, nos processos de criação e na experiência de assistir teatro. Nunca compreendi a formação acadêmica e a prática artística como caminhos separados. Para mim, são experiências que se atravessam e se alimentam continuamente.

JP – Quais são as suas referências teóricas e práticas no campo das artes cênicas?

Minhas referências são muitas e estão em constante transformação. Assisto a muito teatro, e acho que uma parte fundamental da minha formação acontece justamente como espectadora. Tenho interesse tanto pelo trabalho de artistas com trajetórias consolidadas quanto pelas pesquisas de artistas emergentes, por propostas que colocam em questão aquilo que entendemos como teatro. Como viajamos bastante com o Gompa, tenho a oportunidade de acompanhar festivais, conhecer diferentes cenas e estar em contato com o que está sendo produzido contemporaneamente em diversos lugares. Acho importante não cristalizar referências. Interessa-me continuar sendo surpreendida, encontrar trabalhos que desestabilizem minhas certezas e me façam pensar em outras possibilidades para a cena.

JP – Você tem uma formação internacional em nível de pós-graduação. Qual é a importância dessa experiência para a sua trajetória?

A experiência de estudar fora do Brasil foi muito importante, especialmente pela possibilidade de entrar em contato com outras formas de pensar a criação, a pesquisa e o próprio ensino das artes cênicas. Estar em outros contextos culturais e acadêmicos nos obriga também a olhar de outra maneira para aquilo que fazemos. Acho que essa circulação internacional ampliou minhas referências, mas, sobretudo, reforçou meu interesse pelo cruzamento entre teoria e prática. A pesquisa acadêmica não está separada daquilo que faço nos ensaios, assim como as questões que surgem nos processos de criação frequentemente se transformam em perguntas de pesquisa. É uma via de mão dupla.

JP – Como se dá a sua atuação no Departamento de Arte Dramática da UFRGS? Quais são as disciplinas que você ministra?

Sou professora da graduação e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRGS. Na graduação, ministro disciplinas de escrita dramatúrgica e de história do espetáculo. Em 2019, criamos uma habilitação específica em Escrita Dramatúrgica no Departamento de Arte Dramática, o que representou um movimento importante de valorização da escrita para a cena dentro da formação universitária. Também desenvolvo uma pesquisa voltada à dramaturgia contemporânea e oriento trabalhos de mestrado e doutorado, especialmente nas áreas da dramaturgia e da encenação contemporâneas. O que mais me interessa é justamente esse trânsito entre a sala de aula, a pesquisa e os processos artísticos. Ao mesmo tempo que procuro estimular os estudantes a descobrirem suas próprias formas de escrita, sigo investigando, nos espetáculos que dirijo, outras possibilidades de construção dramatúrgica.

JP – Como surgiu o projeto de encenar Frankenstein?

O interesse surgiu da potência das questões que a obra de Mary Shelley continua provocando. Frankenstein fala de criação, de perdas, de ausências, da nossa tentativa permanente de preencher vazios e de lidar com aquilo que não conseguimos controlar. Há questões éticas, políticas e afetivas muito profundas nessa história. E me interessa especialmente pensar a criação também como uma metáfora da própria arte. Criamos porque algo nos inquieta, porque desejamos dar forma a alguma coisa, mas aquilo que criamos nem sempre corresponde ao que imaginávamos. Existe uma insatisfação que nos move continuamente. Acho que Frankenstein toca nesse lugar muito humano, nessa relação entre o desejo de criar e a impossibilidade de controlar inteiramente aquilo que ganha vida. Por outro lado, fala sobre a busca pela alma e pela identidade do ser humano que não tem memória, que não reconhece sua história.

JP – Qual é a novidade da montagem produzida sob a sua direção?

Uma das escolhas centrais da nossa montagem é que a criatura é uma mulher. Temos, portanto, um homem que cria uma mulher e espera que ela corresponda aos seus desejos, às suas expectativas, àquilo que ele considera que ela deveria ser. A partir daí, a peça provoca uma reflexão sobre nossa vontade de colonizar o outro, de determinar como o outro deve pensar, agir ou existir. Como lidamos com aquilo que é diferente de nós? Com aquilo que não compreendemos, que não gostamos ou que escapa ao nosso controle?

Outra característica importante da encenação é a sobreposição de diferentes discursos. Existe uma camada textual, construída pela palavra, mas existe também uma dramaturgia dos corpos, dos movimentos, da luz e dos elementos visuais. Essas camadas não estão  ilustrando umas às outras, mas se fricssionando. Às vezes se complementam, às vezes entram em contraponto, produzindo outros sentidos. Interessa-me justamente essa possibilidade de construir uma cena em que diferentes linguagens convivam e produzam pensamento.

JP – Você considera Frankenstein um texto atual? Justifique.

Absolutamente. Acho que Frankenstein permanece atual porque trata de questões existenciais que ainda estamos muito longe de superar. A necessidade de pertencimento, o medo da rejeição, a dificuldade de lidar com as diferenças, o desejo de controlar aquilo que não compreendemos. São questões que atravessam a própria experiência humana. E me parece que, no momento em que vivemos, quando tantas relações são marcadas pela intolerância e pela dificuldade de reconhecer a legitimidade de outras formas de existir, essa obra ganha ainda mais força. Talvez uma das grandes perguntas que Frankenstein nos coloque seja justamente como podemos nos relacionar com o outro sem tentar transformá-lo em uma extensão de nós mesmos.

JP – Como você se integrou à companhia Gompa? Como associa sua proposta cênica à da companhia?

Criei o Coletivo Gompa em 2014, a partir do desejo de investigar diferentes possibilidades de criação cênica, misturando linguagens e construindo espetáculos que dialogassem com questões contemporâneas. Minha atuação está ligada a esse projeto desde sua origem. Interessa-me especialmente trabalhar com processos colaborativos, nos quais as pessoas envolvidas na criação não sejam apenas executoras de uma ideia previamente estabelecida, mas participem efetivamente da construção da linguagem do espetáculo. Cada artista traz seu repertório, seu olhar, sua maneira de pensar o mundo, e tudo isso pode se transformar em dramaturgia. Acho que uma das características do Gompa é justamente essa abertura para o encontro entre diferentes linguagens e para a construção de uma cena que não se organiza a partir de uma única forma de expressão.

JP – Quais são os seus projetos futuros?

Estamos trabalhando na pesquisa de um novo espetáculo, chamado Anfíbios, que terá uma mostra de processo em dezembro. É um projeto ainda em fase de criação e de busca por financiamento, que parte de um encontro entre A Dama do Mar, de Henrik Ibsen, e A Metamorfose, de Franz Kafka. Interessa-nos investigar as transformações que atravessam a existência, as metamorfoses que experimentamos continuamente, mesmo quando temos a impressão de que permanecemos os mesmos. Nada é completamente estável, nossos corpos, nossos desejos e nossas relações estão sempre se transformando. É uma pesquisa que também dialoga com questões que já vínhamos investigando em outros trabalhos, mas que agora começam a ganhar outras formas e a apontar para novos caminhos.