30 de janeiro de 2023

O primeiro Natal sem tanta pandemia é neste fim de semana, depois de um dos anos mais esquisitos que já vivemos. Fora a estranheza da Copa do Mundo em novembro e dezembro, a vitória argentina mostrou que brasileiro gosta de pelo menos três argentinos: o papa Francisco, o ator Ricardo Darin e o craque Lionel Messi. E se foi um tempo de discórdia política, a grande data do comércio chega para aplacar corações. Com um monte de livrinhos sob as árvores, como estes que vão daqui.

O passeador de livros (Intrínseca, R$ 44,90), do alemão Carsten Henn, é delicioso como uma guloseima natalina. Um livreiro  de 72 anos sai diariamente para entregar livros a clientes que apelida de acordo com características de personagens literários: há um Mr. Darcy, uma Pippi Meialonga, entre muitos. Uma menina de 9 anos passa a acompanhá-lo pelas ruas, criando elos entre os clientes e o próprio livreiro, em vias de ser despedido pela nova proprietária da livraria.

Lançado em 1943 na Turquia, Madona com casaco de pele (Tabla, R$ 51,90), de Sabahattin Ali, só se tornou um best-seller 70 anos mais tarde, mantendo-se na lista de livros mais vendidos desde 2013. Socialista e militante do emprego da arte para as transformações sociais, Sabagattub Ali criou uma história de amor entre dois personagens que deveriam se manter afastados pelas diferenças culturais em plena Berlim dos anos 1920, na já decadente República de Weimar. Raif é um jovem muçulmano  turco que vai para a cidade aprender alemão quando encontra a artista judia Maria. Tradição e modernidade se complementam para fortalecer o romance desse casal insólito, cujo desfecho infeliz é previsível como ao fim da vida do autor, preso e perseguido por suas ideias, assassinado em  1948, provavelmente a mando do Serviço de Segurança da Turquia, que não permitiu a entrega de seus pertences nem de seu corpo à família. Ali permanece insepulto, mas firmou-se um dos grandes escritores e defensores da democracia do país.

Publicado anonimamente em 1678, o clássico da literatura francesa, A princesa de Clèves (EdUsp, R$ 35), só teve sua autoria descoberta mais de 100 anos depois. Madame de La Fayette, a aristocrata, escreveu outros romances históricos, mas foi com este que introduziu o realismo nas histórias de amor,  até então relatos de paixões de amantes prontos a superar qualquer dificuldade para viver em eterno idílio. O uso de personagens reais na trama, com raras exceções, entre elas a da protagonista, é um artifício para que exponha a hipocrisia e a vigilância reinantes em sua própria época, fazendo do monarca do romance, Henrique II, quase um retrato do rei Luís XIV. Aos 16 anos, uma jovem herdeira é levada pela mãe, em 1558, a aceitar o casamento com o príncipe de Chèvres. Depois de casada, se apaixona por outro homem, mas, ao enviuvar, com remorsos pela traição, decide enclausurar-se em um convento, uma conclusão realista e bem menos romântica do que se esperava. Polêmica, o livro continua suscitando. Em 2009, o então presidente francês Nicolas Sarkozy, criticou o uso de trechos do romance nas análises de textos em provas escolares, impulsionando um aumento de reedições, a pedido do público.

Relações ilícitas são tradicionais em qualquer tipo de corte – incluindo as republicanas, como mostra o jornalista Sílvio Barsetti em O outro lado do poder – A história da política brasileira pela ótica das prostitutas (Máquina de Livros, R$ 35,90). O texto não trata das amantes, de casos amorosos adúlteros, mas da contratação de prostitutas para celebrações ou da frequência de bordéis por políticos. Pena que somente os já falecidos, como os ex-presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubistcheck, Janio Quadros e João Goulart, são apontados entre os clientes habituais das casas de tolerância. Em tempos mais recentes, as grandes festas e seus participantes ficam no anonimato, embora descritos até pelas palavras de cafetinas famosas em Brasília. A imprensa brasileira não tem a prática de detalhar a vida particular dos políticos, o que é comum em outros países. Os escândalos de corrupção ficam acima de qualquer escândalo envolvendo prostituição – atividade que alguns políticos de esquerda já tentaram regulamentar profissionalmente, sem apoio em projetos derrotados por muitos dos que contratam serviços sexuais.

 

 

 

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