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Uma visita ao universo da música clássica: Entrevista com Rosana Lanzelotte

Luiz Claudio de Almeida 6 de julho de 2023 6 minutes read
Rosana Lanzelote-
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Hoje minha convidada é uma das mais importantes artistas brasileiras.  Rosana Lanzelotte é cravista e pesquisadora. Gravou álbuns dedicados a obras raras de Bach, Haydn, sonatas inéditas do português Pedro António Avondano, Ernesto Nazareth e peças brasileiras a ela dedicadas. Resgatou as obras de Sigismund Neukomm, registradas no álbum Neukomm no Brasil (Biscoito Fino). Nominado para o Latin Grammy, o álbum recebeu o V Prêmio Bravo (2009).  Além de tudo isso ela é Doutora em Informática, concebeu em 2009 o portal Musica Brasilis, para a difusão de repertórios brasileiros. O portal oferece hoje cerca de 4.000 partituras e recebe 50.000 acessos mensais, tendo se estabelecido como referência. Em nosso bate-papo ela fala sobre planos, como nasceu o portal Musica Brasilis, cultura clássica no Brasil e muito mais. Confira!

 

JP –  Vamos começar falando de planos. Qual é o seu (s)  projeto (s) para 2023?

Em outubro de 2023, lanço o meu livro sobre D. Pedro I compositor, ocasião em que faço uma série de recitais com repertórios de autoria dele, e de outros compositores daquela época. Poucos sabem, mas nosso Imperador tocava diversos instrumentos e deixou-nos obras de grande qualidade artística, entre as quais a mais conhecida é o Hino da Independência. Um outro de seus hinos, o da Carta, ou Constitucional, foi adotado como Hino Nacional de Portugal desde 1834, quando D. Pedro reconquistou a coroa usurpada por seu irmão absolutista D. Miguel, até 1910, quando foi proclamada a República Portuguesa.

JP – Como surgiu o portal Musica Brasilis ?
Todos reconhecem que a música é um dos maiores legados culturais do Brasil, mas só os músicos sabem quão difícil é o acesso a partituras de repertórios brasileiros. Essa foi a motivação para a criação, em 2009, do Instituto Musica Brasilis, cuja principal iniciativa é o portal Musica Brasilis (https://musicabrasilis.org.br/). Além de musicista, sou Doutora em Informática e consegui reunir as duas competências na concepção do portal, que oferece hoje mais de 4.000 partituras, gratuitas sempre que em domínio público. O portal se estabeleceu como referência e recebe mais de 50 mil acessos  por mês de usuários de todas as partes do mundo. Com o patrocínio do Instituto Cultural Vale e apoio financeiro do BNDES, através da Lei de Incentivo à Cultura, estamos duplicando esse acervo, através do projeto Acervo Digital de Partituras Brasileiras, para o qual estão sendo recuperadas obras produzidas em todas as regiões do país.

JP – Você como artista internacional,  qual foi o país que se destaca em sua memória, falando em concerto ?
Certamente o momento mais significativo de minha carreira foi a apresentação no teatro do Palácio de Versailles, por ocasião do ano do Brasil na França, em 2005. O Wigmore Hall em Londres, onde toquei por mais de uma vez, é a sala perfeita para um recital de cravo. Momentos especiais foram os recitais com Clea Galhano no Carnegie Hall e com Antonio Meneses na Abadia de Brunello de Montalcino, na região da Toscana, na Itália.

JP – Qual a sua visão da cultura clássica no Brasil?
Há uma visão preconceituosa em relação à cultura clássica e pensa-se que só os públicos de classes mais altas podem usufruir de manifestações mais sofisticadas. A experiência mostra o oposto. Públicos leigos advindos de classes mais pobres são ávidos por manifestações de qualidade, qualquer que seja a linguagem. Os museus gratuitos só não são mais frequentados pelas populações de bairros distantes devido ao preço dos transportes. Muitas vezes presenciei a emoção de públicos leigos diante de obras musicais sofisticadas, como uma Missa de José Maurício Nunes Garcia, que tocamos em igrejas dos bairros de Rocha Miranda, Realengo e Água Santa.

JP – Um compositor que você mais gosta e por quê?
É sempre muito especial o encontro com a obra de Johann Sebastian Bach e Domenico Scarlatti, dois dos maiores compositores para o cravo. Mas adoro tocar Ernesto Nazareth, cujas peças, originais para piano, soam muito bem no meu instrumento, em que o ritmo do choro é perfeitamente traduzido, devido às cordas serem pinçadas, como no violão e no cavaquinho.

JP – Tem alguma turnê marcada para o Brasil?
Em 26 de julho tomo parte do Festival Internacional de Juiz de Fora, em que toco obras de D. Pedro I e de seu mestre Sigismund Neukomm. No dia 28 de julho, às 12h, tocarei obras de José Maurício Nunes Garcia e compositores de seu tempo na Igreja do Carmo da Antiga Sé. Em 27 de agosto apresento-me em Assunção, Paraguai, convidada por nossa Embaixada. Em outubro farei a turnê de lançamento do livro sobre D. Pedro I., com recitais no Museu do Ipiranga e em Campinas. Em 3 de novembro, reencontro a minha parceira Clea Galhano em uma apresentação na Indiana University, nos Estados Unidos, onde também falarei sobre o Musica Brasilis.

JP – Uma boa dica para quem quer iniciar a carreira como cravista.
Temos agora no Brasil excelentes construtores de cravo, o César Guidini e o William Takahashi, ambos sediados no Estado de São Paulo.

JP – Um sonho a ser realizado profissionalmente?
Apresentar o concerto de 4 cravos de Johann Sebastian Bach na Salle Gaveau, em Paris. Já toquei esse concerto nos Estados Unidos, Espanha, Uruguai e no Rio, no Theatro Municipal e na Sala Cecília Meireles. É sempre uma festa, para os cravistas e para o público.

JP – Qual a sua avaliação dos jovens brasileiros ou mesmo mundiais com a música clássica?
O Brasil é um celeiro de talentos musicais. Basta acompanhar o programa Prelúdio, da TV Cultura (SP), iniciativa espetacular do querido amigo e maestro Julio Medaglia. É uma vitrine de jovens gênios, muitos deles já bem colocados em orquestras internacionais importantes. Conheci recentemente um jovem violinista, o Guido Santana, paulista, que vai fazer história. Aos 18 anos, já conquistou o primeiro prêmio de um dos concursos mais importantes do mundo, o Fritz Kreisler, em Viena.

JP – Uma frase favorita de Rosana Lanzelotte?
Adoro essa frase da Simone de Beauvoir: “Querer ser livre é também querer livres os outros.”

Fotos Carlos Peder

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