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O Hamlet Preto da Resistência

Luiz Claudio de Almeida 19 de junho de 2024 5 minutes read
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Estreou no teatro Firjan Sesi Centro a peça teatral Eu Sou Um Hamlet.

 

Hamlet, o Príncipe da Dinamarca, obra do escritor inglês William Shakespeare redigida entre o final do século XVI e início do XVII, tem como cenário a Dinamarca, mais precisamente o castelo de Elsinor. O texto traz sua versão do destino do Príncipe Hamlet, obrigado a empreender um drástico ato de revanche contra seu tio Cláudio, acusado de assassinar o pai do jovem para tomar o poder, depois de desposar a cunhada.

 

Rodrigo França, ator preto, se apropria e se veste com as roupas de Hamlet. Este último estava num país nórdico, na Europa moderna, no momento de formação dos Estados modernos, no contexto das monarquias absolutistas. Por sua vez, Rodrigo encontra-se no século XXI, do outro lado do oceano atlântico, num país chamado Brasil, numa sociedade de direitos, mas que não respeita esses direitos, com práticas racistas e de violência. São contextos e tempos históricos distintos, mas que se aproximam por apresentar dilemas éticos e morais muito próximos.

 

O espetáculo é bonito, forte, e crítico, uma linda reflexão construída sobre o racismo estrutural da sociedade brasileira, marcada pela violência e pelas segregações. Como na Dinamarca havia algo de podre, por aqui também tem algo de fedorento e catinguento que tem que ser eliminado.

 

Rodrigo deixa transparecer no texto que tem consciência clara da realidade social brasileira e traz essa consciência ao personagem. O texto é uma adaptação de Shakespeare, mas cruzado com o discurso consciente crítico do indivíduo preto que o interpreta, numa sociedade marcada pela violência contra a mulher, as crianças, contra aqueles que cultuam as religiões afro-brasileiras, contra os homossexuais, entre outros. A fala de Rodrigo constrói um discurso ativo e resistente que busca alcançar os dominados, os submissos, os excluídos, os hipossuficientes economicamente, pois é contra estes que a violência incide de forma expressiva. Assim, ele atualiza o personagem, coloca-o antenado as principais questões que agitam a sociedade brasileira. Em outras palavras, o ator insere Hamlet no seu corpo e na sua voz, no âmbito da sociedade brasileira contemporânea estruturalmente racista.

 

O Hamlet incorporado por Rodrigo França quer paz. E ele evoca a ancestralidade, as forças dos orixás para lhe ajudar nessa luta por fazer a paz reinar e estabelecer justiça pela vida dos pretos e pretas que foram assassinados. Ele não quer ódio, fúria, nem vingança.  Quer o amor, essas quatro letras que fazem sonhar e acreditar futuro melhor. Ele quer um mundo vivendo em harmonia, equilibrado, com pessoas sóbrias e esclarecidas.

 

O Hamlet preto veste branco, porque, como já afirmamos, ele quer paz. O figurino criado por Rodrigo Barros é bonito, e de extremo bom gosto. Ele usa uma casaca branca de manga comprida boca larga, e com estampas nas costas. Por baixo, usa um tipo de “camisa” trançada e com franjas, calça e sandália branca. Quase ao fim do espetáculo, ele coloca em seu pescoço guias típicas dos praticantes das religiões afrodescendentes, e segura em sua mão um búzio.

 

O figurino facilita a movimentação do ator pelo palco. Ele também entoa cançoes africanas, e realiza passos de danças afro-brasileiras, bem coreografadas por Valéria Mona.

 

A direção é do competente e cuidadoso Fernando Philbert, que deixa o ator a vontade no palco. Ele foca no texto, e concede a Rodrigo liberdade total para dar o seu grito de basta ao racismo.

 

A cenografia criada por Natália Lana é simples e adequada, e constituída por uma cadeira, e um conjunto de refletores juntos. No texto há várias referencias a ferro e aço, e como vivemos um tempo violento, numa guerra diária, sugere uma “barricada de refletores”, que protege os vilipendiados e oprimidos contra a violência dos “grandes”.

 

 A cadeira que integra o cenário é uma homenagem ao diretor falecido Aderbal Freire-Filho . Este último foi o mestre de Philbert, e usou como cenário quando ele atuou como ator o monólogo Depois do Filme.

 

A iluminação criada por Pedro Carneiro é bonita, e adequada as diversas cenas do espetáculo.

 

O Hamlet Negro interpretado por Rodrigo França é um homem da resistencia! Ninguém há de silenciá-lo. Ele irá cantar até o fim! Ele pede paz, amor, e esperança! Mas, ele quer saber quem matou o seu pai!

 

Eu sou um Hamlet é uma peça teatral com uma dramaturgia crítica, um ator potente, e uma direção competente.

 

Excelente produção teatral!

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