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Uma Pintora Modernista de Corpo e Alma Brasileira

Luiz Claudio de Almeida 12 de junho de 2024 6 minutes read
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Tarsila, a Brasileira realizou uma curta temporada no Vivo Rio.

O musical tem como mote central apresentar a vida, obra  e o impacto que a artista Tarsila do Amaral teve para a cultura modernista brasileira.

A atriz Claudia Raia protagoniza e produz Tarsila, a Brasileira, com texto e letras de Anna Toledo e José Possi Neto.

É uma super produção, com luxuosos figurinos, sofisticados cenários, e bonita iluminação.

O musical é bonito e poético, forte, impactante, e emocionante, uma linda homenagem a Tarsila do Amaral e ao chamado grupo dos cinco (Tarsila, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Anita Malfati, e Menotti del Picchia) que realizaram o movimento modernista no Brasil. Eles tinham como propósito a atualização da produção artística e cultural no país, e, assim, promover o seu ingresso no concerto das nações consideradas modernas e civilizadas. Inserir o Brasil no cenário mundial e modernizá-lo em todas as áreas eis a dupla preocupação dos modernistas. Eles queriam não só abordar os temas brasileiros, mas pensar de forma brasileira.

 

Tarsila, como mostra a dramaturgia, estava inserida neste projeto. Ela não participou do marco inaugural, em fevereiro, no Theatro Municipal de São Paulo, a chamada Semana de Arte Moderna, pois estava na França. Tanto que o texto inicia com a

chegada de Tarsila a São Paulo, em 1922, vinda da Escola de Artes de Paris, e seu encontro com os modernistas.

 

Claudia Raia faz uma Tarsila culta, letrada, rica, que gostava de luxo, e das coisas boas da vida. Ela era sustentada pelo café, pois seu pai era um rico fazendeiro. Adorava pintar. Nos apresenta suas criações como A Negra, O Abapuru, expressivas obras de arte. Mas também faz uma Tarsila triste, que experimentou dissabores; perdeu toda sua fortuna com o crack da bolsa de New York no ano de 1929; viajou a Rússia, e ao retornar foi presa por ser acusada de organizar movimentos revolucionários; foi traída por dois de seus maridos; perdeu a sua filha, e a partida de seus amigos modernistas antes dela. Para cuidar da alma e do espírito, ela se aproximou do médium Chico Xavier. Portanto, ela teve uma trajetória de rosas e espinhos. E, a dramaturgia soube explorar muito bem esses extremos, essas alegrias e amarguras na trajetória da artista.

 

Cláudia Raia está impecável! Ela interpreta, canta e dança com excelência. Domina o texto e o palco. Ela se entrega de corpo e alma na ribalta.

Tarsila foi esposa e mãe. Ela teve três esposos, dos quais ganha expressão o casamento com Oswald de Andrade, interpretado por Jarbas de Homem Melo. Este faz um Oswald namorador, galanteador, que se apaixona por Tarsila, e com ela irá dar continuidade ao projeto modernista. Com ela, ele viverá entre São Paulo e Paris. E ao lado dela, ele lançará o Manifesto Antropófago, no ano de 1928, que defendia o entendimento da identidade nacional pela via intuitiva e sentida da realidade, com base no conceito de integração. Os antropófagos queriam uma integração por meio da devoração. Do diálogo antropofágico, Tarsila criará a tela O Abaporu.

 

Por outro lado, Jarbas faz um Oswald garanhão, pegador de garotinhas, e traiu Tarsila com Patrícia Galvão, a popular Pagu. Fato que fez Tarsila sofrer.

 

Outro personagem que aparece no musical é Mario de Andrade, interpretado por John Seabra. Ele faz um Mário que admira a natureza paulistana, tem aversão aos parnasianistas, gosta de viajar de trem para conhecer o Brasil, sobretudo as cidades históricas de Minas Gerais, e defende  que a identidade nacional deve ser compreendida pela via analítica, propondo que se fizesse o levantamento da cultura nacional. Ele valorizava a cultura popular, mais precisamente o folclore, e era preciso fazer uma verdadeira pesquisa etnográfica para se alcançá-la.

 

A personagem Anita Malfati é interpretada por  Keila Bueno. Esta faz uma Anita implicante, inconformada, que fala o que quer, que não aceita a realidade, que não gosta da oligarquia cafeeira paulista, mas será convencida por Tarsila da importância dos cafeicultores para fomentar o movimento. Passarão a ser amigas, embora irão divergir em alguns momentos.

 

E, o quinto integrante, Menotti Del Picchia, interpretado por Ivan Parente. Este faz um Menotti que se irrita ao ser chamado de futurista, e polemizava com Oswald.

 

Quando Tarsila se divorcia de Oswald, ela inicia um novo casamento com Luís Martins, interpretado por Reiner Tenente. Este faz um indivíduo que trata Tarsila com carinho, mas também a troca por uma moça mais jovem. Mais um dissabor, a dor da traição. Contudo, ele não abandona a pintora, sempre a visitando uma vez por semana.

 

Todos os demais integrantes do elenco mantém o alto nível de interpretações. É uma atuação de gala!

 

A encenação e Direção de Arte é de José Possi Neto, que soube marcar e definir bem os personagens, e conduzir uma direção artística marcada pela beleza, técnica, e emoção.

 

Os figurinos de Fabio Namatame são bonitos, de bom gosto, e adequados.

 

Vale sublinhar aqueles criados para a personagem Tarsila. Eles vão do luxo e requinte a vestidos com estampas, lembrando a paleta de cores da artista. Todos são vestidos longos.

 

A cenografia criada por Renato Theobaldo é de qualidade, requinte, e super produzida. No fundo do palco há um telão que exibe projeções, inclusive com imagens de época, bem como telas de Tarsila.  Há também escadarias, e ainda um automóvel do início do século XX bem reproduzido.

 

As músicas que integram a trilha do musical foram compostas por Tony Lucchesi, e Guilherme Terra. Elas apresentam melodias agradáveis, e possuem letras com rico e denso conteúdo, que ajudam na compreensão do texto. No nosso ponto de vista, uma das melhores é Abaporu.

 

Por sinal, a cena que sintetiza o musical é aquela que, na noite do aniversário de Oswald de Andrade, Tarsila lhe ofertou como presente a tela por ela pintada intitulada Abaporu, síntese do movimento antropofágico. Ponto ápice e condensador do espetáculo!

 

A direção musical coube a Guilherme Terra, que manteve o equilíbrio e o tom adequado das canções interpretadas pelos atores, que não desafinam em momento algum.

 

As coreografias criadas por Alonso Barros são criativas, apresentam bonitos desenhos, e dão uma boa movimentação ao musical.

 

Tarsila, a Brasileira, é um musical que apresenta um elenco forte, ajustado, e sintonizado; um conjunto de composições musicais de qualidade e com conteúdo; e, figurinos e cenografia de bom gosto, luxuosos, e criativos.

 

EXCELENTE E IMPERDÍVEL produção do teatro musical brasileiro.

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Luiz Claudio de Almeida

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