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No Banquete Tem Vatapá!

Luiz Claudio de Almeida 18 de setembro de 2024 6 minutes read
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Estreou no teatro Vianinha, Armazém da Utopia, a peça teatral O Banquete, de Mario de Andrade, e dramaturgia de Joao Batista, encenada pela Companhia Ensaio Aberto.

Mario de Andrade foi um autor modernista que argumentava que a identidade nacional deveria ser compreendida pela via analítica, propondo que se fizesse o levantamento da cultura nacional. Ele valorizava a cultura popular, mais precisamente o folclore, e defendia que era preciso fazer uma verdadeira pesquisa etnográfica para se alcançá-la. O Banquete está inserido nessa perspectiva.

O texto se passa na cidade imaginária de Mentira, onde a milionária Sara Light (Tuca Moraes) é a anfitriã de um banquete destinado a ajudar Janjão (Leonardo Hinckel), um compositor de música erudita brasileira, talentoso, jovem e pobre, cuja obra admirava e despertava nela uma miscelânea de sentimentos contraditórios. Imaginou que conseguiria impulsionar a carreira do jovem ao organizar um almoço que reuniria interlocutores seletamente escolhidos.

Foram convidados o político Felix de Cima (Gilberto Miranda), e a cantora Siomara Ponga (Rossana Russia). Acompanhando Janjão foi o estudante de direito Pastor Fido (Grégori Eckert), também vendedor de apólices.

Sarah Light é interpretada por Tuca Moraes, que nos apresenta uma personagem elitista, apreciadora das Belas Artes, que manda tirar a música africana e colocar Bach. Ela não gosta de pretos.

Leonardo Hinckel interpreta Janjão, nos apresentando um compositor brasileiro de música erudita, artista sincero, pobre e incorruptível. Ele se diz um compositor nacional. Entende que a arte é para melhorar a vida. Defende uma arte de combate político. Ele é burguês e individualista. Mas se diz também a voz dos operários, das classes trabalhadoras. Clama que o princípio da arte é o da revolução. Ele é defensor de um ensino de qualidade, e reclama da falta de uma escola de regência.

Janjão é um defensor da música brasileira. Inquieto, ele defende que se  abandone a preocupação exclusiva com a beleza e a obra perfeitíssima. Argumenta que os críticos estrangeiros pedem os negros, e os brasileiros pedem brancos. Ele recusa os protetores. E afirmou que a música brasileira viveu divorciada da raça brasileira.

Sarah era admiradora  de Janjão e este despertava nela uma diversidade de sentimentos. Então lhe ofereceu uma banquete com o objetivo de impulsionar a carreira do jovem, reunindo interlocutores selecionadamente escolhidos. Mas Janjão recusava apadrinhamentos!

No rol seleto dos convidados estava Siomara Ponga interpretada por Rossana Russia, que nos apresenta uma cantora celebrada. Ela não gosta de cantar na língua nacional.

E também Felix de Cima interpretado por Gilberto Miranda. Este último faz um político, anti-comunista, e considerado o protetor das artes na cidade, uma vez que decidia quais os artistas que receberiam financiamentos governamentais.

Portanto, todos os convidados tinham uma relação com a música erudita brasileira, com exceção do “intruso” Pastor Fido.

Luis Fernando Lobo faz um narrador que nos apresenta de forma clara os personagens e toda a trama que os envolve, além de estar elegantemente vestido com um fraque preto.

Naquele “almoço ajantarado de domingo” oferecido a “golpes de banquete” pela ricaça Sarah com o intuito  de buscar ajudar o músico Janjão acabou por se transformar numa batalha de discussão sobre a produção musical brasileira, em que a diversidade de opiniões conflitava, pontos de vista antagônicos se degladiavam. Discussões acaloradas sobre artes em geral, música, modernismo, nacional, artistas, entre outras questões, estiveram no calor da hora e deixaram transparecer o conflito de opiniões. O banquete se transformou numa guerra de opiniões contrastantes.

O texto é denso, profundo, modernista e inquietante, nos leva a refletir sobre a identidade nacional brasileira. Afinal, o que nós somos? Índios? Brancos? Negros? E, qual é o lugar que o Brasil e a sua produção cultural ocupa no concerto das nações civilizadas?

O elenco como um todo tem uma atuação impecável. Eles estão ajustados e em sintonia. Dominam o texto e o palco. Transmitem o texto de forma fácil e convincente. Além de uma técnica interpretativa perfeita, eles transmitem emoção em suas interpretações. O conjunto do elenco tem força e competência. Não é um elemento que sobressai.

A direção de Luiz Fernando Lobo é correta. Ele fez as marcações adequadas, e imprimiu no elenco a marca de uma técnica interpretativa de qualidade mesclada com a emoção.

No texto a tradição africana se faz presente com a figura da Abian do terreiro (Caroline Gerhrin) dançando em ritmo africano; a figura do Zé Pilintra (Mateus Pitanga); cantos e ritmos afros entoados pelo séquito de povo de terreiro; garçons colocam a comida em alguidares de barro, utensílios africanos, ao som do sambinha Batuque na cozinha. A nossa matriz africana Mario de Andrade trouxe ao texto e a direção de Luiz Fernando Lobo soube muito bem explorar.

As bebidas e comidas também chamam atenção. Primeiro as bebidas. Foi servido vinho do Porto, referencia europeia. Ao público também foi oferecido degustação de bebidas. E, na hora da mesa, foi servido vatapá. Essa iguaria suscitou diversas opiniões dos convidados!

A referencia ao vatapá, uma comida típica de uma das regiões brasileiras, do nordeste, especificamente da Bahia, expressa uma maneira de conhecer aquela que seria a essência do Brasil, que o tornaria único e capaz de ocupar seu lugar entre as nações modernas. As iguarias também são elementos dessa especificidade, inseridas num conjunto mais amplo do folclore nacional. A culinária é vista por Mário como um aspecto da nossa cultura.

A direção também explorou a nudez em várias cenas. Contudo, não há nada de pornográfico. Por exemplo, na montagem da mesa, duas figurantes nuas carregam o pano branco que irá cobri-la, como ocorreu em outras cenas. Homens e mulheres com corpos bonitos, e que ajudavam na narrativa do enredo. Afinal, o ser humano é uma obra de arte!

Os figurinos de Beth Filipecki e Reinaldo Machado são bonitos, de bom gosto, elegantes, e adequados ao contexto da peça. Os garçons e garçonetes estão elegantemente vestidos com seus fraques pretos. Afinal, o banquete é oferecido na casa de uma mulher da elite da cidade de Mentira!

A cenografia de J. C. Serroni é arrojada e adequada. Apresenta um palco em vários níveis, com um fundo branco que serve para projetar a iluminação, e é decorado com plantas.

A iluminação de Cesar de Ramires é bonita, equilibrada, forte, e realça as diversas cenas interpretativas.

O Banquete é uma excelente montagem da peça teatral escrita por Mário de Andrade; apresenta um elenco potente; e figurinos e cenografia bonitos e adequados.

Excelente produção cênica!

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