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Um traumático conto de fadas

Alex Cabral Silva 18 de setembro de 2024 5 minutes read
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Em meados dos anos 80, um uniforme passou a ser cobiçado por crianças em todo o Brasil. Não era o de nenhum grande time de futebol, tampouco da seleção tricampeã, à época. Meninas por todo o país despertavam para o sonho de se tornar uma das assistentes de palco da maior celebridade da TV, naqueles dias. Trajadas como soldadas de chumbo, em vermelho e azul, nascia um símbolo que marcou os últimos anos de uma década e avançou forte na seguinte. Ser Paquita do Xou da Xuxa era alcançar o que um público infantil devoto, mais queria na vida. E com o passar do tempo, essa era uma ambição que começava cada vez mais cedo.

Primeiramente recrutadas para ajudar a conter crianças eufóricas nos estúdios, não levou muito tempo para um grupo nascer e se tornar um plano de carreira precoce, para meninas que cresceram junto de uma atração diária. De segunda a sexta, todas as manhãs, lá estavam elas, contendo os chamados baixinhos, em êxtase, com a chegada da nave que trazia sua rainha para mais um programa. Eram muitas brincadeiras e atrações que contavam com as Paquitas para organizar o espaço em volta, orientando e animando a todos. A partir daí, discos, apresentações ao vivo, filmes, desfiles e toda uma gama de eventos que, momentaneamente as tirava da condição de coadjuvantes, tomou rapidamente o país. Mas as afortunadas vencedoras dos concursos que garantiam estar ao lado da tão amada apresentadora, também guardam na memória diversos momentos que ilustram que o sonho realizado, também podia ser um pesadelo.

Num ambiente televisivo, especialmente voltado para um nicho como esse, parece difícil aceitar que nos bastidores de um produto que tem como intenção entreter tantas crianças, uma rotina tóxica consiga se estabelecer facilmente. Quem cresceu naquela época, cansou de ouvir sobre a severa diretora do colorido programa matinal, temida por tantos. Marlene Mattos, diretora de televisão e empresária responsável por administrar a carreira e tudo o que poderia envolver o nome Xuxa, é citada à exaustão na série documental Pra Sempre Paquitas, disponível no Globoplay.

Funcionando como um complemento das histórias de bastidores já contadas na série focada na apresentadora, Xuxa – O Documentário, produzida pelo mesmo serviço de streaming, os depoimentos dessas mulheres que atingiram um sucesso imenso na adolescência, clarifica mais do que detalhes sobre o sonho realizado de estar ao lado da ídola. Trata-se de um desabafo libertado publicamente depois de muitos anos. Não se conta nesse projeto nada de novo sobre o mundo por trás das câmeras e até onde os olhos dos espectadores não conseguem alcançar. Não faltam, por aí, materiais do tipo, disponíveis em séries e filmes, contando como era o relacionamento antes, durante e depois das gravações, em estúdios de TV por todo o mundo. Mas o além que as lentes não captam e que tanto se fala, quando contado por quem viveu, é duro de se encarar. O quanto custou experimentar aquele sonho e o tamanho das cicatrizes de cada uma é apresentado por elas mesmas, hoje advogadas, atrizes, psicólogas. A vida seguiu depois de tanto sucesso e exposição numa idade em que a infância e adolescência foram provisoriamente suspensas, para se viver uma vida de estrela da TV. Mas as marcas ficaram.

Revendo figurinos e revisitando gravações diversas, as gerações que se revezaram acompanhando Xuxa em eventos pelo mundo, avaliam como muita coisa poderia ter sido diferente naquele tempo. Mulheres que ingressaram no programa aos 9, 10 anos e passaram seus uniformes adiante aos 17, deixando para trás um conto de fadas também traumático.

Abusos diversos são atribuídos à lendária empresária de Xuxa, pelas ex-assistentes de palco. As mesmas relembram os constrangimentos no estúdio e as ameaças de suspensão por estarem fora do peso adequado, segundo Marlene. A poderosa diretora do programa definia o que era beleza, segundo quem viveu o dia a dia daquela época. E baseado nos critérios de como deveria ser uma nova integrante do grupo, contribuiu, assim, para o fomento de um tal padrão que atravessou gerações, fortalecendo-se cedo e de forma nociva, no imaginário de crianças por todo o país. Os concursos em solo brasileiro, nunca escolheram uma Paquita negra. A única a se juntar, oficialmente a apresentadora, foi Natasha Pearse na versão estadunidense da atração televisiva, em 1993. Os cabelos loiros eram o primeiro critério de validação para conquistar uma chance de estar no palco com um pompom colorido.

É impossível ficar indiferente aos relatos fortes já desde o primeiro capítulo. Produtores, roteiristas e figurinistas compartilham o que testemunharam por anos em gravações e viagens, corroborando os desabafos das ex-integrantes do grupo. Diante disso, é inevitável não ser solidário ao questionamento: Que show da Xuxa era esse?

Junto de suas companheiras por tantos anos, a apresentadora admite falhas e omissões de sua parte. Revê um passado em que tinha ao seu lado meninas que não foram acolhidas nos momentos mais sensíveis. O que foi dito e quem disse o quê sobre quem, é colocado entre elas, numa espécie de sessão de terapia coletiva que revela mais sobre os motivos que levaram a geração mais longeva do grupo a sair do programa.

Além do nome Marlene, uma palavra é gasta por quase todos os que contam suas histórias. Sonho. Algumas entre tantas realizaram os seus. E todas admitiram que era estar ao lado de Xuxa animando as outras crianças e vivendo aquela fantasia. Naquela época, não imaginavam o quanto poderia custar fazer alguém feliz.

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