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Exclusivo! Bate-papo com a atriz Letícia Isnard que festeja nova fase e faz um balanço de sua carreira

Luiz Claudio de Almeida 31 de outubro de 2024 9 minutes read
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Redes Sociais
           
A atriz e produtora Letícia Isnard completa 50 anos em 2024 e festeja a nova fase fazendo um balanço de sua carreira e aceitando novos desafios, como interpretar a irreverente e sensual cantora de axé Rejane Sumara, na peça “Mostra a tua Cara”, que estreia dia 4 de novembro, no Teatro Firjan Sesi, com direção de Isaac Bernat e texto de Rogério Corrêa.

Letícia é atriz desde 1996, Bacharel em Ciências Sociais (PUC-RJ), Mestre em Sociologia (IFCS/UFRJ) e integrante da companhia teatral carioca Os Dezequilibrados desde 2001, dirigida por Ivan Sugahara. Ela atuou e produziu mais de duas dezenas de espetáculos. Em 2015, esteve em cena em “Marco Zero” (The Mercy Seat) de Neil Labute, quando foi indicada ao Prêmio Cesgranrio de Melhor Atriz.

Atuou em diversas novelas e seriados da Rede Globo, além de humorísticos como “Toma lá dá Cá”, “Minha Nada Mole Vida” e “A Grande Família”. Entre seus papéis marcantes está a Ivana, de “Avenida Brasil” (2012). No cinema, ela atuou nos longas “Cilada.com” (2011); “Mato Sem Cachorro” (2013); “Um homem só” (2016); “Depois de Tudo” (2015); “Polidoro” (2017); “Simonal” (2017); “Tio Imperfeito” (2017); “Todo Amor” (2017); “Um Tio Quase Perfeito 2” (2021) e “Um Natal Cheio de Graça”  (2022).

Em conversa com o site JP Revistas, Letícia compartilhou mais detalhes sobre a sua trajetória e contou sobre os novos projetos e personagens que em breve estarão nos palcos cariocas. Confira!

JP –  Você poderia comentar sobre o projeto da peça ‘Mostra a Tua Cara’ que está acontecendo neste mês de novembro ?

Mostra a tua Cara é um peça diferente de todas que já fiz porque praticamente não há contracena entre os atores, nossa interlocução é direta com o público. O texto é brilhante, o autor, Rogério Corrêa, conseguiu com muito humor mostrar como a macro política, as decisões tomadas em gabinetes há kms de distância podem afetar de maneira avassaladora o microcosmo das nossas vidas. Assim como a micro política e os valores e códigos morais que determinam nossas escolhas diárias nas miudezas do cotidiano tb podem influenciar de maneira desastrosa a condução do país, pois é através desses valores e julgamentos que escolhemos nossos governantes. A direção é de Isaac Bernat e é muito especial e precisa, centrada no trabalho dos atores. É uma honra trabalhar no elenco com os maravilhosos Alexandre Galindo, Ângela Rebello, Thadeu Matos. A equipe técnica mistura novos e antigos parceiros, todos com muito capricho e envolvimento com o trabalho.

JP –  Você começou como bailarina. A seguir, migrou para o campo teatral. Como foi esse processo de troca?

Aos 20 anos de idade eu era bailarina, profissionalizada aos 16, e estudava Direito. No mesmo semestre mudei a faculdade para Ciências Sociais e comecei a fazer teatro. Ambas as mudanças estão relacionadas a um desejo de comunicação mais direta, de pensar, refletir e questionar a realidade de outras formas. Com o teatro ganhei a palavra, e na sociologia a amplificação das reflexões sobre o mundo em que vivemos.

JP –  Como se deu o seu processo de formação como atriz? Quais são as suas principais referências teóricas e práticas no campo teatral?

Minha formação como atriz foi através de oficinas ministradas pelo ator e diretor Michel Bercovitch. Tínhamos  vários professores dando aulas de corpo, voz, improvisação e teoria e, ao final de cada semestre, montávamos peças de autores nacionais ou estrangeiros. Foi uma ótima escola porque nós mesmos éramos os responsáveis por todas as etapas e setores de produção do espetáculo. Eu ficava com as coreografias e direção de movimento, uma vez que tinha a bagagem na dança, além de atuar. Para viabilizar as montagens das peças, produzíamos festas e venda antecipada de ingressos. Foram 6 peças em 3 anos, aprendi muito! Além disso, eu era “rata” das oficinas do Sesc, fazia tudo o que aparecia! Com essas montagens amadoras no currículo, os certificados das oficinas e o registro profissional de bailarina, tirei meu registro de atriz. Mas segui estudando, fiz aula particular com Celina Sodré pra aprender o método Stanislavsky e muitas outras oficinas e cursos. Também frequentei a Cia Fodidos Privilegiados, dirigida por Antônio Abujamra, num ano totalmente dedicado ao estudo de Bertold Brecht. Em paralelo a isso, fiz Mestrado em Sociologia com concentração em Antropologia no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ e depois ganhei uma bolsa de pesquisa do Social Science Research Council, em NY, para desenvolver uma pesquisa sobre a memória da ditadura através do teatro no Brasil.

JP –  Qual foi a importância da Companhia de teatro Os Dezequilibrados para a sua trajetória?

Quando estava nas oficinas de Bercovitch conheci Ivan Sugahara, que alguns anos depois me convidou para fazer a peça Bonitinha, mas Ordinária de Nelson Rodrigues, numa boate em Botafogo, para 15 espectadores por sessão. Mais experimental impossível! Mas o que era o problema de escassez de recursos – não tínhamos dinheiro para montagem, logo não tínhamos teatro – acabou se firmando como uma pesquisa de linguagem da cia, que passou a fazer peças em espaços não convencionais (boite, cinema, e outros). Isso nos proporcionava outra maneira de atuar, muito próxima dos espectadores, itinerante, muito intensa e original. A partir dessa peça entrei na cia Os Dezequilibrados, na qual sigo há mais de 20 anos. A parceria com Ivan Sugahara,
Ângela Câmara, Cristina Flores, Saulo Rodrigues e Jose Karini é o meu eixo, minha raiz, minha referência mais profunda no mundo das artes. Nos últimos anos não temos produzido juntos, temos uma relação “aberta”, natural e saudável que a gente circule com outras parcerias, mas continuamos com uma intensa troca artística e amorosa. Como uma família mesmo.

:Letícia Isnard, Alexandre Galindo, Thadeu Matos, Ângela Rebello em “Ritmo de arte”

JP –  Do teatro para a televisão. Como se deu o seu ingresso na Rede Globo ?

Entrei pela porta dos mortais. Uma produtora de elenco da Globo viu essa nossa montagem de Bonitinha na boate e me chamou pra fazer um teste-cadastro na Globo. Gravei mas nada aconteceu. Uns 2 anos depois me chamaram para refazer o cadastro e semanas depois fui chamada para fazer um teste para série Minha Nada Mole Vida, que foi meu primeiro trabalho na empresa, em 2006.

JP – Ivana Araújo! Com essa personagem o seu trabalho ficou conhecido por um público mais amplo. Você poderia comentar sobre esse momento da sua carreira?

Foi um momento iluminado para todos nós. Até quem já era consagrado viveu ali uma experiência atípica. Foi um grande encontro entre dramaturgia, elenco e direção. Entrei por teste, não conhecia ninguém, nunca tinha trabalhado com ninguém daquela equipe e nem elenco. Dei muita sorte porque realmente é bem raro uma personagem de núcleo protagonista estar vago – a não ser quando é jovem, “lançamento”. Na minha opinião, 2 fatores foram fundamentais para o sucesso da família Tufão, para além da escalação certeira: uma é a sobreposição de comédia e drama no núcleo principal da novela. Geralmente drama e comédia acontecem em núcleos separados e o fato de se darem em camadas diferentes no mesmo núcleo, além de ser original, foi feita com maestria. A outra é que a maioria do elenco ali era muito experiente em teatro, de modo que o jogo de improviso nas cenas familiares proposto pela diretora Amora Mautner se desenrolou de maneira fluída, deliciosa e brilhante. Éramos felizes e sabíamos! Aproveitamos cada vírgula. Foi uma festa. Com certeza foi um dos trabalhos mais importantes da minha carreira na TV, até o momento.

JP –  Os grandes veículos estão dando espaço hoje em dia para influenciadores e artistas que representam a diversidade atuarem junto com os atores veteranos. Você considera saudável essa integração?

As artes são o meio mais libertário e inclusivo, não tenho dúvida. Não vejo os outros setores da sociedade tão comprometidos com as pautas de inclusão e lugar de fala. A arte sempre está na vanguarda. Acho isso muito rico e importante, mas acredito que temos que cobrar para que esse compromisso seja geral. Claro que gera uma mudança de muito impacto, e até nos acostumarmos leva um certo tempo para superar as dificuldades, mas chegaremos lá.

JP –  O que você acha sobre a escalação de influenciadores na TV?

Nos anos 80, 90 eram os modelos… acho que vai passar. Como passou com os modelos. Fica quem tem talento. Ter ou não formação não é determinante, mas acredito que uma vez que você se ponha nesse caminho, há que se investir no aprimoramento técnico e intelectual. Grazi Massafera, Ana Paula Arósio e tantas outras são exemplos de modelos que viraram atrizes excelentes. Então acho que a gente não deve ter preconceito, mas também acho um erro o mercado se pautar para escalação com base no número de seguidores.  Ser influenciador não tem nada a ver com o ofício de ator/atriz. São profissionais diferentes. Pode funcionar mas também pode dar muito errado. Mas acho que isso é um fenômeno pontual, acredito que não se sustente. Veremos.

JP –  Quais são os seus projetos futuros?

Logo após a estreia da comédia Mostra a tua Cara (no Teatro Firjan Sesi, dia 04 de novembro) eu começo a ensaiar uma outra peça, com estreia marcada para janeiro. Também estou desenvolvendo uma série de televisão de minha autoria junto com a diretora e roteirista Anne Pinheiro Guimarães, mas por enquanto tudo está confidencial, estou me lançando nesse novo desafio de escrever, além de atuar no projeto, claro.

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