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Diálogos Entre Um Ser Alado e um Humano

Alex Varela Gonçalves 30 de abril de 2025 5 minutes read
Pequena Companhia de Teatro - Velhos caem do céu como canivetes - Atores Jorge Choairy (esq) e Cláudio Marconcine Foto de Guto Muniz
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A Ocupação da Pequena Companhia de Teatro faz sua estreia  no teatro do CCBB-RIO 3.

O primeiro espetáculo tem como título “Velhos caem do céu como canivetes”, a partir da obra de Gabriel García Márquez.

A dramaturgia de Marcelo Flecha é potente, crítica, e apresenta uma reflexão sobre a condição humana. Narra a queda de um ser alado no quintal da residência de um ser humano, fato que altera a rotina deste último. O texto apresenta uma profunda discussão sobre a alteridade, a necessidade de se querer conhecer o outro.

Um ser alado, completamente nu, caiu no quintal da residência de um ser humano. Este último lhe deu vestes para se cobrir. E, a partir desse momento, passam a realizar um intenso diálogo, em que um quer saber quem è o outro, e vice-versa.

De um lado temos o ser humano, interpretado por Cláudio Marconcine, um homem simples, um catador de lixo, que vive na sua humilde residência, em companhia da mulher e filhos. Ele vive de coletar lixo, e sua esposa vai ao mangue coletar caranguejo. Ele jejua enquanto os espera. Eles vivem na miséria! Passam dificuldades. Ele vive pouco entusiasmado pela vida, em desalento. Afirma não ter cometido um suicídio em função da família. Tem as marcas da vida. Expressa um ser sofrido, que não tem perspectivas futuras. A fome dói! E expressa surpresa, espanto, inquietude com relação ao ser alado, interpretado por Jorge Choairy.

O ser humano dialoga com o ser alado. Eles estabelecem uma relação de proximidade, e um faz companhia ao outro. Ainda que espantado, o humano lhe dá vestes para cobrir as suas partes íntimas. Também não o expulsa de sua residência. Num primeiro momento, ele ficou perplexo. E, depois, ele insistiu o tempo inteiro em querer saber quem ele é. Quer defini-lo. Teve momentos de tensão, inclusive ameaçando-o. É um extraterrestre? Um exilado? Um delírio provocado pela fome? Um norueguês com asas? Um anjo? Um pária ? Afinal, o que ele é?

O ser alado veio em missão de paz. Ele veio com a missão de salvar alguém. Tornar esse homem que o encontrou mais humano. Recuperar este ser. E somente conseguirá sair do exílio e retornar ao seu lugar de origem se conseguir êxito. Não pode fracassar. Ele visualiza o humano como um ser bom. Aprecia a residência do humano, lhe pergunta o que faz e como vive. Verifica que do lixo que colhia, o humano produzia “obras de arte”. Tem curiosidade! E é interrogado o tempo todo sobre a sua origem e pertencimento.

A impaciência do humano em não conseguir definir quem é o ser alado acabou por levá-lo a uma ação extrema, matando-o com uma paulada. E a fome era tamanha que o humano o transformou no “seu franguinho”.

Os dois atores têm uma atuação correta e de qualidade. Eles estão entrosados e ajustados. Apresentam boas interpretações dos seus personagens, e expressam emoção. Deixam transparecer um correto domínio do texto, estabelecendo diálogos densos e profundos, e do palco, ocupando os espaços e se movimentando intensamente. Apresentam uma linguagem de fácil compreensão, fato que facilita o entendimento do texto.

A direção é de Marcelo Flecha, que realizou as marcações certeiras e precisas, e deu um direcionamento a atuação correta e de qualidade dos atores.

O figurino criado por Marcelo Flecha é simples e adequado. O catador de lixo veste uma calça jeans com marcas de sujeira, rasgos, e não usa camisa. Tem marcas de sujeira pelo corpo. Por sua vez, o ser alado tem duas asas nas costas e está inicialmente nu. O catador lhe dá um pano branco para cobrir suas partes íntimas.

A cenografia criada por Marcelo Flecha é adequada e criativa. É a residência do catador de lixo e da sua família. Nela observam-se  muros, oratórios, crucifixos, torre, gaiolas para prender os caranguejos, purificador, as paredes do galinheiro, uma estrutura presa ao teto com arames pendurados, onde ele insere pedaços de plásticos azuis recortados. Há diversas latinhas, produto da coleta seletiva realizada, e também são utilizadas na cenografia como na torre. O piso do palco é forrado por um pano Branco, e numa parte é decorado por diversas letras, que representam o conhecimento, produto dos livros coletados e parto humano os lê.

A iluminação criada por Marcelo Flecha è correta, oscila entre a escuridão e a iluminação branca, e contribui para realçar a atuação dos dois artistas.

Velhos caem do céu como canivetes è uma peça que apresenta uma correta adaptação de uma produção literária para o ambiente teatral, e um texto forte e crítico; dois atores que têm uma atuação correta e de qualidade; e, cenografia, e figurinos simples, mas adequados ao contexto da peça.

Excelente produção cênica!

 

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Alex Varela Gonçalves

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