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Em cartaz com a peça “A Filha da Virgem”, Wanderlucy Bezerra conversou com a coluna

Chico Vartulli 15 de maio de 2025 5 minutes read
A Filha da Virgem 3
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A minha entrevistada é a talentosa atriz Wanderlucy Bezerra. Nascida no interior de Pernambuco, a atriz cresceu em meio ao machismo, exclusão, ignorância e agressões verbais e psicológicas. Essas questões sociais e culturais estão, agora, no monólogo “A Filha da Virgem” , em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim. Conversamos sobre  a peça, planos, formação e suas referências. Confira!
JP –  Olá Wanderlucy! Como surgiu o projeto teatral “A filha da Virgem”?
Surgiu de um desejo antigo de contar a minha história de vida, porque sempre acreditei que ela poderia se transformar em um texto teatral, roteiro para cinema ou televisão. Também de tanto ouvir aqui no Rio que ator tem que se produzir para conseguir trabalhar.  Estou no Rio há 17 anos e tive dificuldade de me integrar em grupos teatrais. Em 2019, estava em um coletivo com os atores e diretores Sandra Calaça, Leo Carnevale e Maria Rita Rezende cujo objetivo era o de montarmos uma peça juntos, e eu relatei a minha história. Sem saber, nossa conversa estava sendo gravada. Leo me falou da gravação e disse que eu devia transformar o relato em texto, o que foi um estímulo muito forte. Sempre achei que minha história de vida poderia ser relevante, pois a considero muito rica e representativa de muitas mulheres brasileiras.

JP – Qual é a principal temática da peça teatral?

A luta e trajetória de uma mulher nordestina que migra para o Sudeste em busca de realizar seus sonhos como atriz. A peça discute, com leveza e lirismo, a relação com família e arte. Carregada de cultura popular, é uma história de superação que se reflete na vida de pessoas de todos os gêneros e origens, estimula o empoderamento da mulher, a denúncia de xenofobia, violências, discriminações e a importância do cuidar da criança e do adolescente.

JP – Como você caracteriza a mulher nordestina?

Parafraseando Euclides da Cunha, “o sertanejo é antes de tudo um forte”. A mulher nordestina então… Diante de todas as adversidades que enfrenta por estar inserida geograficamente numa região com dificuldades sociais e econômicas, e pelo simples fato de ter nascido mulher numa sociedade machista e violenta. Por outro lado, elas estão imersas e cada vez mais participantes na rica tradição cultural do Nordeste.

JP – Quando surgiu o seu interesse pela atuação teatral?

Na infância, arrumando a casa, ficava imaginando e falando como os personagens das novelas. Eu gostava de brincar com meus primos de fazer cenas de teatro. Na escola, as atividades artísticas me encantavam. Mas só aos 21 anos, quando vim para o Rio de Janeiro, pude fazer um curso de teatro.

JP – Como se deu a sua formação como atriz?

Na primeira vez que morei no Rio, na década de 1990, participei de um curso na UERJ dirigido por Mariozinho Teles, além de cursos na Escola de Teatro Martins Pena com Richard Riguetti. Ao voltar à minha cidade natal, Arcoverde (PE), atuei em três grupos teatrais inclusive um de teatro de rua,cujos integrantes andavam em pernas de pau, que me proporcionou um intercâmbio com a Cia. de Mystérios e Novidades de Ligia Veiga. Nesses grupos trabalhei com os diretores Geraldo Barros, Romualdo Freitas e Rudimar Constâncio, e, em uma das peças, fui premiada no festival Janeiro de Grande Espetáculos de Recife como melhor atriz coadjuvante. Ainda em Pernambuco, participei dos filmes “Central do Brasil”, de Walter Salles, “Árido Movie”, de Lírio Ferreira, e “Baixio das Bestas”, de Cláudio Assis. Em 2008 vim morar no Rio e continuei minha formação em cursos com Inêz Viana, Camila Amado, Amir Haddad, Sura Berditchevsky, Rafaela Amado, entre outros.

JP – Quais são as suas principais referências (teóricas e práticas) no universo teatral?

Nos grupos em que trabalhei, os métodos de Stanislavski e Brecht foram os mais utilizados. Minha formação se deu na prática nos diversos grupos de teatro, no Sesc de Arcoverde e, anualmente, no Festival de Teatro de Garanhus/PE, por exemplo, com Antonio Guedes e Zé Celso Martinez Correia. Também vim ao Rio algumas vezes nas férias e fiz cursos, por exemplo, com Luiz Carlos Vasconcelos com o método que ele utiliza no grupo Piollin da Paraíba. Uma das influências mais fortes no meu trabalho é o universo simbólico criado por Ariano Suassuna no Movimento Armorial, especialmente pela valorização da cultura popular. Em paralelo, mas integrada à minha formação teatral, fiz cursos de danças populares como frevo, maracatu, samba de coco, caboclinhos, xaxado e ciranda, com as quais montei o espetáculo de dança “Andanças de um Só-L”, com o qual me apresentei no Brasil e em três países da Europa em 2007. Utilizo algumas dessas danças em “A Filha da Virgem”.

JP – Como você analisa a questão da contratação de influencers no lugar de artistas formados e experientes para atuar nas produções artísticas?

É compreensível que as produções teatrais, que vivem sempre em grande dificuldade financeira, busquem os famosos em geral para atrair público e financiadores. No entanto, essa pode ser uma solução superficial e de curto prazo, o que pode inviabilizar a carreira de bons espetáculos, a formação de público e, principalmente, reduzir o mercado dos atores. Os que tiverem realmente interesse em uma carreira, devem procurar uma formação teatral.

JP – Quais são os seus projetos para o ano de 2025?

Continuar apresentando “A Filha da Virgem” em novas temporadas. Estou na torcida para que o projeto seja aprovado nos editais em que está sendo inscrito. E estou aberta para atuar em outros trabalhos.

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