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Flagrantes de um Estado que marcha para o colapso

Luiz Claudio de Almeida 10 de setembro de 2025 8 minutes read
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Redes Sociais
           

Por Arlindenor Pedro  – Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal YouTube Utopias Pós Capitalistas.

A megaoperação policial,  deflagrada nos últimos dias de agosto, contra o Primeiro Comando da Capital, em São Paulo,  foi celebrada como a maior da história brasileira.

   Mais de mil agentes mobilizados, centenas de mandados cumpridos. Foram descoberto bilhões movimentados ilegalmente em esquemas de combustíveis, fundos de investimento e Fintech.
   Chama a atenção que, apesar do aparato gigantesco, poucas prisões foram efetivadas e há indícios de que a operação foi vazada de dentro do próprio sistema repressivo, permitindo que parte dos alvos escapasse.
  Isso revela algo ainda mais perturbador do que a força do PCC. Mostra que facções e cúmplices já estão infiltrados não somente na economia formal, mas também no aparelho policial, judiciário e político que deveria combatê-las.
  O crime organizado não enfrenta o Estado de fora. Está entranhado dentro dele, atuando, às vezes, como seu parceiro silencioso e, em muitos casos, como seu beneficiário. E isto, convenhamos, é muito constrangedor!
A situação é ainda mais alarmante quando se considera que hoje cerca de 26% da população brasileira, ou cerca de 50 a 60 milhões de pessoas, vive sob o domínio direto de facções criminosas ou milícias.
  Esse dado confirma que não se trata de fenômeno marginal, mas da normalização de um poder paralelo que vigora, estruturalmente, em vastas regiões do país. E, essa realidade periférica dialoga com tendências globais.
   O escritor venezuelano, autor de livros importantes sobre Geopolítica,  Moisés Naím. mostra em seu livro, “Ilícito”  que cerca de 25% dos negócios internacionais se dão no campo dos ilícitos. Tráfico de armas, drogas, contrabando e lavagem de dinheiro.     Isso significa que o Brasil não é exceção, mas parte de uma engrenagem mundial em que crime e capital se entrelaçam.
   O  que se vê no Brasil, então, é que o PCC não é mero desvio na ordem, mas sua expressão funcional. Opera como capitalista coletivo, racionalizando investimentos, infiltrando-se na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, a catedral do rentismo, manejando cadeias de abastecimento com a sofisticação corporativa.
   E qual seria então a diferença entre a facção e o banqueiro que lhes deu abrigo? Somente a chancela jurídica.         Ambas obedecem ao imperativo implacável da valorização abstrata: Multiplicar dinheiro, independentemente da produção útil ou social.
   O crime, nesse espelho distorcido, não aparece como o contraste da ordem, mas como sua duplicação obscena!
Não é, então,  por acaso que a operação tenha sido vazada. Quando Estado e crime se entrelaçam estruturalmente, a repressão se torna seletiva, tratada internamente: Há policiais que alertam alvos,  parlamentares que intercedem por aliados,  juízes que interpretam a lei ao sabor do cliente.
   O Estado não age como antagonista: Torna-se administrador do crime, preservando uns, sacrificando outros, garantindo que a engrenagem continue girando. Esta é a pura verdade!
Esse arranjo define o capitalismo brasileiro: Um capitalismo de compadres! Convenhamos: Aqui,  nunca houve mercado impessoal ou Estado neutro, como exalta o capitalismo de mercado.
   Sempre vigorou uma simbiose entre negócios, política e crime — um compadrio estrutural que regula a acumulação.
    É a disputa clara por rendas, privilégios e captura estatal. O vazamento da operação é reflexo dessa promiscuidade institucional. E é isto que está vindo à tona!
E as milícias reforçam esse quadro!
   Privatizam territórios, tributam comunidades, oferecem serviços, assumem funções de Estado. Transformam violência em mercadoria: Empresas armadas que competem e negociam com o próprio Estado.
  No Rio, controlam bairros inteiros,  em São Paulo, o PCC dita regras dentro e fora das prisões.
   O poder público, incapaz de derrotá-los, convive, pactua e manipula seletivamente: O vazamento e as prisões mínimas são sintomas dessa convivência ambígua. O crime é combatido somente até onde não ameaça o compadrio. Uma verdadeira vergonha!
O que escandaliza não é somente o vulto dos recursos ou a sofisticação dos esquemas, mas a naturalidade com que o crime atravessa a Faria Lima. Finanças legais, Fintech e fundos se tornam lavanderias sofisticadas para dinheiro ilícito.
   A fronteira entre crime e finança se desfaz: Ambos compartilham racionalidade rentista. A sabotagem da operação existe porque havia muito a perder na exposição dessas conexões.    O vazamento é reflexo de uma elite financeira que prefere proteger a engrenagem do que enfrentá-la. Está é a verdade!
O Parlamento, por sua vez, cristaliza este cenário dantesco. Longe de ser ator regulador, tornou-se balcão de negócios financiado pelos mesmos agentes que operam com imunidade. Bancos, agronegócio, mineradoras, empreiteiras, milícias e facções financiam campanhas e compram influências.
   Discursos parlamentares, amplificados digitalmente, transformam-se em instrumento político-financeiro.
   O vídeo viral do deputado Nikolas Ferreira sobre o Pix é emblemático: Em nome de uma denúncia populista, uma mobilização digital que agora sabemos foi incentivada por este sistema ilícito derrubou uma norma técnica da Receita que ampliaria a transparência da Fintech. Assustado, o governo foi obrigado a recuar. Isso criou brechas para que o capital especulativo “oficial” e os fluxos ilícitos do PCC transitassem sem controle. O que constatamos é que o Congresso foi então o escudo político e digital do compadrio!
Mas é importante deixar bem claro que esse quadro não é somente nacional. Ele se apresenta em escala global e reflete a crise estrutural do capitalismo contemporâneo.    Estarrecidos, vemos nos últimos tempos a ascensão do poder das oligarquias como força política direta. O caso de Donald Trump nos Estados Unidos é sintomático: Um bilionário do setor imobiliário e do entretenimento convertido em chefe de Estado, símbolo da captura populista do poder por frações do capital. O mesmo vale para a emergência de oligarquias na Rússia, na Índia ou em países latino-americanos, onde fortunas privadas comandam partidos, mídias e milícias digitais. Ao lado disso, temos o domínio transnacional das Big Techs, que hoje são tão ou mais poderosas que Estados nacionais. Google, Apple, Amazon, Meta e Microsoft não são somente empresas: controlam infraestruturas essenciais, acumulam dados de bilhões de pessoas e exercem poder regulatório de fato.
No Brasil, a intermediação de discursos políticos como o do Pix de Nikolas Ferreira só alcançou efeito de massas porque circula dentro dessas plataformas — que, ao mesmo tempo, lucram com a viralização e moldam a esfera pública. Portanto, este cenário não é exceção, mas o retrato de uma modernização periférica em colapso que se conecta à crise global do capital. Instituições fazem-se de aparência; o país perde soberania sobre territórios, cadeias produtivas e circuitos financeiros. A grande verdade é que o Estado brasileiro não é soberano pleno, mas mediador frágil entre compadres que disputam fragmentos de ordem. A megaoperação não expôs o poder da lei, mas a fragilidade de quem já não distingue repressão de conivência, combate de parceria.
O  futuro que se vislumbra não é de um Estado que derrota o crime, mas de um Estado que administra sua convivência: ora encenando repressão espetacular, ora garantindo continuidade silenciosa dos negócios. Banqueiros e traficantes, parlamentares e milicianos, empresários e policiais corruptos não são opositores, mas sócios assimétricos. O espetáculo repressivo oculta que, por trás da farda e do terno, não existe distinção clara entre quem governa e quem delinque — e que até mesmo vídeos virais ou campanhas eleitorais de bilionários se convertem em engrenagens da mesma máquina.
Diante disso, é importante compreender que não há saída possível nos quadros do capitalismo. Promessa de repressão eficaz, regulação transparente ou reforma institucional legítima é pura ilusão — o sistema já incorpora crime, finança, oligarquia e Big Tech como solicites do mesmo tabuleiro. Está tudo dominado! Essa engrenagem não pode ser moralizada, corrigida ou reformada: só pode ser superada.
O desafio histórico é romper a lógica que torna crime e capital indissociáveis, e buscar outros caminhos fora do império irracional da valorização do valor. Se 26% da população vive sob facção e 25% dos negócios globais são ilícitos, esses números não são estatísticas dispersas — são sinais de que o capitalismo entrou em seu limite histórico. Chega de ilusões! A questão não é como consertar o sistema, mas como abandoná-lo. Temos que pensar e construir outros caminhos para sairmos deste inferno !

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