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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza o livro “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
A história costuma lembrar dos presidentes, dos ministros e dos generais. Mas, às vezes, os personagens mais importantes são justamente aqueles que nunca ocuparam um cargo de destaque.
Gregório Fortunato era um deles.
Filho de ex-escravizados, nasceu em São Borja, em 1900. Casou-se com Juraci Lencina, teve dois filhos e começou a vida como peão de estância. Nada fazia imaginar que aquele homem simples se tornaria um dos personagens mais enigmáticos da história política brasileira.
Sua vida mudou quando conquistou a confiança de Getúlio Vargas. Durante mais de vinte anos, tornou-se chefe da guarda pessoal do presidente, controlando o acesso ao Palácio do Catete e acompanhando de perto os momentos mais delicados do governo. Ficou conhecido em todo o país como o “Anjo Negro”.
Não era ministro, deputado ou general. Exercia um cargo sem poder formal, mas poucos brasileiros estiveram tão próximos do centro das decisões quanto Gregório Fortunato. Ele testemunhava reuniões reservadas, ouvia confidências e acompanhava de perto os momentos mais delicados do governo. Conhecia como poucos os bastidores de um dos períodos mais turbulentos da República.
Em agosto de 1954, o atentado da Rua Tonelero mudou sua vida. A tentativa de assassinato contra o jornalista e deputado federal Carlos Lacerda, um dos principais líderes da oposição a Getúlio Vargas, resultou na morte do major Rubens Vaz e desencadeou a maior crise política do governo. Gregório foi preso, acusado de organizar a operação. Nunca surgiu prova de que Getúlio Vargas tivesse ordenado o atentado.
Dezenove dias depois, pressionado por setores militares e pela oposição, Getúlio suicidou-se no Palácio do Catete.
Gregório permaneceu preso até 14 de junho de 1962, quando foi morto no Presídio Frei Caneca, no Rio de Janeiro. A versão oficial atribuiu o crime a outro detento. O caso foi encerrado, mas jamais deixou de despertar dúvidas.
Foi apenas mais uma vítima da violência carcerária? Ou sua morte interessava a alguém? Nunca houve uma resposta capaz de encerrar definitivamente esse debate.
Talvez por isso Gregório Fortunato continue despertando tanto interesse mais de setenta anos depois. Não apenas pelo que fez, mas pelo que sabia. Homens que vivem tão próximos do poder costumam conhecer fatos que raramente chegam aos documentos oficiais.
A história é construída por certezas, mas também pelas perguntas que permanecem sem resposta. Gregório Fortunato continua sendo uma delas. Sua trajetória ajuda a compreender um dos capítulos mais dramáticos da República e lembra que, muitas vezes, quem presencia os bastidores da História acaba se tornando parte de seu maior mistério.
Foto ( Reprodução): Getúlio Vargas e Gregório Fortunato.





