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A Arquitetura e a Inteligência Artificial

Luiz Claudio de Almeida 5 de novembro de 2025 7 minutes read
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Redes Sociais
           

Rafael Balbi   –  Arquiteto – Colunista convidado.

A primeira vez que alguém conversou comigo sobre a Inteligência Artificial ( IA) foi a minha mãe, a arquiteta Maria Angélica Faria Vilela Viana). Ela falava sobre como os Chineses estavam na frente dessa tecnologia e como o mundo iria mudar com o avanço dela.
Isso foi  antes do advento do Chat GPT, que ela não chegou a experimentar pois faleceu pouco antes, em 2022.
Em janeiro de 2023 eu estava na sala de estar da casa dos meus filhos, no México, e o mais velho tinha convidado uns amigos para conversar e beber.
Conversávamos sobre o mundo, a vida,  as injustiças e a tecnologia que vai nos salvar ou nos enterrar de vez.
Foi quando um dos amigos do meu filho, me disse: O senhor viu o Chat GPT? Lançaram ontem!
Eu não sabia, mas ele era um cara muito especial e todo ligado em computação. Estava eu falando com um nerd da nova geração.
O senhor pode me emprestar o seu computador? – estava na mesa da sala – vou lhe mostrar- disse o amigo de meu filho.
Ele me pediu uns dados para o login e,  depois,  me disse: Pergunte aqui o que quiser…
Não me lembro da pergunta, mas eu me recordo que fiquei de queixo caído pela forma da resposta.
Era uma conversa! Eu estava conversando com uma máquina!
Fiquei perplexo, assim como a metade das pessoas do planeta… ainda era bem limitado o que aquilo podia fazer, mas logo percebia-se o potencial.

  Poucos meses depois daquela noite, o assunto, em meados de 2023,  era a IA em todos os setores  da vida.
Começaram a surgir aplicações e aplicativos para todos os profissionais, desde escritores, pesquisadores e financistas até artistas plásticos e, finalmente para mim e os parceiros da minha profissão,  os arquitetos.
Bem antes das conversas com minha mãe, desde 2005, eu comecei a usar um software para projetar em arquitetura.
O software  utilizava    muita programação e parametrização
computacional para facilitar e tornar mais precisa a geração de documentos para a construção – outro jeito de dizer desenhos arquitetônicos.
No meu entusiasmo com o software – que era novo e que ninguém usava ainda – hoje, tornou-se  obrigatório – eu queria parametrizar tudo.
Fui trabalhar no Ministério da Educação do México e lá eu e minha equipe planejávamos a construção de escolas.
Para isso,  começamos a parametrizar dados como o tamanho da população, a faixa etária, a localização e a infraestrutura existente.
Isso para estabelecer que tipo de base educativa seria necessário construir.
Depois,  começamos a parametrizar os programas arquitetônicos, que em linguagem coloquial querem dizer os requerimentos de espaço,  em um edifício.
    Assim, entrávamos com o número de alunos e a planilha nos dizia quantas salas de aula, banheiros, quadras e demais requerimentos precisávamos projetar. Também nos dizia quantos metros quadrados esses espaços deveriam ter.
Fui, aos poucos, entendendo que, até esse ponto, meu trabalho de arquiteto era o de estabelecer os parâmetros.
   Aplicá-los, no entanto, poderia ser feito por qualquer pessoa com critério.
  Qualquer um, com acesso àquelas planilhas, poderia dimensionar o requerimento de infraestrutura educativa e planejar gastos do governo. Aquilo me deixava feliz mas ainda sentia  falta de algo.
Foi quando um dia, um amigo meu, pesquisador de matemáticas
 aplicadas, me convidou para uma atividade na sua universidade. Pediu que eu encomendasse aos alunos dele uma ferramenta informatizada,   aplicando a matemática ao meu trabalho.
Minha resposta foi rápida. Eu
encomendei um software que resolvesse tudo aquilo em um projeto de arquitetura, que pudesse ser parametrizável como, por exemplo, calcular o número de habitantes de um edifício e seu uso para que fossem determinados os requerimento de estacionamento, circulações, escadas, elevadores, banheiros, cômodos, etc.
Mas não ficaria nisso. Com os resultados processados, o software tinha que desenhar os espaços e dar algumas opções.
   O papel do arquiteto seria escolher uma ou várias soluções e combiná-las para o projeto final.
Houve uma resposta muito boa considerando as limitações dos alunos. Eles planejaram usar um software que a universidade havia desenvolvido
 para a lapidação otimizada de diamantes. Ou seja, como lapidar uma pedra natural perdendo a menor quantidade possível de material.
A semelhança da lapidação com um projeto de arquitetura é a que ambos possuem mais de uma solução, mas, se alguém deseja um resultado ótimo, as opções se reduzem e sugerem um caminho muito restrito a seguir.
Claro. Lapidar um diamante tem menos questões subjetivas a serem consideradas do que um projeto de arquitetura. Tem menos fatores a considerar também. Mas,  o princípio
regente é muito semelhante.
É aí que os dois pontos de história se juntam às conversas de IA com minha mãe e ao advento de uma tecnologia que  já vinha se desenvolvendo desde os anos 40 e começou  a se propagar para além dos meios acadêmicos e científicos.
O software de lapidação de diamantes. já utilizava IA de uma
 maneira muito primitiva, mas nada como os modelos de linguagem avançados de hoje.
    De lá para cá, vários grupos de empresas de tecnologia de desenho e projeto por computador começaram a desenvolver ferramentas para otimizar projetos com alguma espécie de automação. Primeiro, usando matemática pesada. Depois com IA mesmo, conforme a tecnologia foi se tornando mais acessível.
Nunca tive o privilégio ou a necessidade de definir um projeto de arquitetura com o suporte de IA.
   Acho que pouca gente no mundo já fez ou faz isso. A construção civil é muito lenta em adotar novas tecnologias. No entanto, fiquei fascinado vendo como aquilo que eu estava pedindo aos alunos da faculdade de matemática aplicada estava tornando-se realidade. Eu só intuía a possibilidade de aquilo funcionar e servir realmente de algo.
Pouco a pouco – nem tão pouco a pouco assim – várias ferramentas de IA começaram a se infiltrar no meu cotidiano de trabalho. As ferramentas de geração de imagens realistas para que os clientes possam entender o projeto proposto se viram muito beneficiadas. Imagens que antes se fazia em horas agora se fazem em segundos ou mesmo em tem real.
Isso me permite, hoje, usar a visualização 3d realista como forma de trabalhar e decidir questões de projeto, não somente para apresentar o trabalho concluído. A IA promete livrar  os arquitetos  do trabalho repetitivo e tedioso que a projetação impõe.
Não olhamos com admiração chefs de cozinha cortando, com arte, vegetais em lâmina quase transparentes?  Não admiramos a dedicação dos pintores, detalhando seus desenhos? Será que essa capacidade e disposição do artista ou artesão não falam e contribuem com o processo criativo?
Às vezes, a resposta será sim, por uma questão de eficiência. Mas eficiência não quer dizer eficácia.

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