
Eventualmente, a ficção consegue se impor à vida real, a ponto de se tornar uma referência incomparável diante de uma tragédia. O escapismo proporcionado pelo cinema tornou-se essencial ao longo da história desde que a sétima arte passou a reunir, numa sala escura, grupos aficionados por histórias contadas, dos mais variados temas, em uma tela grande. Os chamados filmes-catástrofe abusam de efeitos e reciclam ideias, quando não se baseiam em eventos verídicos, para manter um público fiel a um gênero que carrega a maior parte do crédito do ditado popular: “Parecia coisa de cinema.”
Lançado em dezembro de 1997, Titanic, de James Cameron, é um marco cinematográfico. Sucesso de público e crítica, o multipremiado longa-metragem, que ficcionaliza uma história de amor em meio a um desastre real, marcou gerações e se estabeleceu como um clássico moderno. O lendário naufrágio do imponente navio, em abril de 1912 atravessou o século XX e iniciou o seguinte ainda na pauta dos eventos mais chocantes da humanidade. E não à toa: quase cem anos depois de a embarcação que foi apresentada ao mundo como uma construção inafundável, ter afundado, diversas vítimas de um novo evento do tipo descreveram sentir-se no Titanic, enquanto tentavam deixar um transatlântico que se chocou contra recifes na costa italiana.
O que seria uma viagem dos sonhos tornou-se um pesadelo permeado de ações inacreditáveis, especialmente por parte do responsável por um navio moderno que foi a pique graças a uma ação displicente. Pouco mais de 4.000 pessoas estavam a bordo do luxuoso Costa Concordia, em janeiro de 2012, quando um rasgo de 53 metros no casco, deu início a uma luta pela sobrevivência dos passageiros e da tripulação, que foram, preliminarmente, informados de que tudo se tratava de um blecaute. A demora em reagir, quando já era sabido, pela ponte de comando que diversos compartimentos inundavam-se rapidamente após a colisão, custou vidas e apresentou ao mundo um personagem que se notabilizou por sua irresponsabilidade e covardia. Francesco Schettino, capitão do navio, que alterou a rota no meio da noite para fazer uma “saudação” aos moradores da Ilha de Giglio, foi um dos primeiros a deixar a embarcação. Sua ordem para essa manobra levou o transatlântico a abalroar rochas na costa da comuna, na região da Toscana. A transcrição de uma conversa entre Schettino e um membro da guarda costeira local, ordenando que ele retornasse ao Costa Concordia imediatamente, é o melhor exemplo da incredulidade de todos diante do comportamento do capitão, que foi responsabilizado e condenado a 16 anos de prisão pelo episódio. Naufrágio: O Pesadelo do Costa Concordia (Netflix) reconta por meio de imagens dos passageiros e de depoimentos detalhados de alguns dos mesmos, como seguiram adiante depois do trauma daquela noite. E destaca que investigações nos anos seguintes revelaram, também, que problemas em um dos geradores de energia contribuíram para que o navio viesse a adernar, matando 32 pessoas. De acordo com alguns dos sobreviventes, My Heart Will Go On, mega-sucesso de Celine Dion ecoava em um dos restaurantes momentos antes da colisão.





