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A guerra ameaça o continente – A América Latina no xadrez do reordenamento global do capitalismo

Arlindenor Pedro 21 de dezembro de 2025 6 minutes read
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Por Arlindenor Pedro  –  Professor de História, Sociologia e Filosofia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal YouTube Utopias Pós Capitalistas.
    A ofensiva estratégica dos Estados Unidos no continente americano ganhou contornos dramáticos quando o governo Trump ordenou a captura de navios petroleiros venezuelanos em águas internacionais. A ação violou normas básicas do direito marítimo e indicou que Washington estava disposto a impor suas decisões pela força direta. A apreensão das embarcações foi acompanhada da ameaça explícita de intervir militarmente na Venezuela para assumir o controle de seus campos de petróleo.
    Ao mesmo tempo, intensificava-se a pressão política e militar sobre a Colômbia, revelando o retorno a uma política externa que tratava o hemisfério como zona de intervenção preferencial.
    Esses episódios inauguraram uma fase de agressividade inédita desde a Guerra Fria. Ficou claro que os Estados Unidos encaravam a América Latina como peça essencial de seu dispositivo de segurança num momento em que o capitalismo global dava sinais de exaustão e as grandes potências buscavam reposicionarem-se num tabuleiro mundial em rápida transformação.
A reformulação do conceito de Segurança Nacional durante o governo Trump, amplificada pela retórica do movimento MAGA, reencontra uma tradição que nasce no século dezenove. A Doutrina Monroe transformou a América Latina em zona exclusiva de projeção estratégica, um quintal indispensável para garantir expansão e supremacia.
Hoje, embora o contexto seja outro, esse imaginário retorna com força renovada. A ameaça não é mais europeia ou soviética, mas multifacetada: ascensão tecnológica da China, migração irregular, declínio industrial interno e instabilidade produzida por décadas de financeirização. O MAGA converte essas tensões em ressentimento nacional, acusando rivais externos e elites internas de terem corroído a grandeza americana.
A América Latina reaparece, então, como fronteira vital a ser defendida. O novo conceito de Segurança Nacional sustenta que o hemisfério deve ser protegido não apenas de ameaças militares, mas de pressões econômicas e tecnológicas. A expansão chinesa em portos, energia e telecomunicações é vista como intrusão indevida, embora represente para muitos países a única alternativa de infraestrutura robusta.
Essa reativação de tutela hegemônica ocorre justamente quando a economia global revela limites crescentes. Milhões permanecem à margem de um mercado de trabalho incapaz de absorvê-los. A promessa de ascensão social se dissolve. A segurança substitui a prosperidade: o que a economia não entrega, o Estado tenta impor por vigilância e controle.
Nesse ponto, a narrativa MAGA projeta sobre a Europa a imagem de uma civilização em colapso. O continente seria vítima do multiculturalismo, da imigração e da perda de identidade. Os brancos estariam ameaçados de se tornarem minoria ou mesmo de serem substituídos pelos não brancos. Esse medo civilizacional transforma-se em energia política e sustenta uma postura securitária agressiva que deve ser aplicada não apenas às fronteiras dos Estados Unidos, mas a todo o hemisfério. A América Latina torna-se linha de contenção destinada a evitar que o destino imaginado para a Europa se repita no ocidente. A política externa passa a ser também política de preservação identitária.
A crise estrutural do capitalismo fragmenta antigas hierarquias e obriga potências a se reposicionarem. Os Estados Unidos tentam reafirmar sua liderança hemisférica. A China expande sua infraestrutura global. A União Europeia hesita entre defesa e dependência. A Rússia observa com interesse. A ascensão de Trump e a reativação da lógica monroísta oferecem a Moscou uma oportunidade estratégica: um Estados Unidos voltado para dentro enfraquece a coesão atlântica e amplia a margem de ação russa no Leste Europeu, na Ásia Central e no Oriente Médio.
Nesse cenário, a política de segurança norte-americana projeta-se sobre a América Latina com força renovada. Sob o argumento de combater crime organizado, narcotráfico e migração irregular, Washington reposiciona o continente como extensão de seu aparato de proteção. A retórica é antiga, mas agora serve para conter não apenas adversários externos, mas também os efeitos internos da crise americana.
Essa política atua em duas frentes. Uma é militar e policial: reforço de fronteiras, operações conjuntas, treinamento de forças locais e ampliação da vigilância. A outra é econômica e diplomática: pressão para limitar ou reverter investimentos chineses em setores estratégicos. A contenção torna-se tecnológica. Controlar redes, cabos, portos e telecomunicações é controlar o futuro.
A China avança pela infraestrutura: energia, ferrovias, crédito, telecomunicações e obras públicas. A dependência se aprofunda discretamente. A disputa reorganiza a vida política continental. No México, a fronteira vira laboratório de militarização. Na América Central, pobreza e migração justificam vigilância permanente. No Caribe, portos tornam-se peças de barganha. Nos Andes, minerais críticos determinam alinhamentos. A Argentina oscila entre dependências. O Brasil vive sob pressões cruzadas em energia, telecomunicações, agronegócio e defesa.
Ao longo do continente, problemas sociais convertem-se em problemas de segurança. A pobreza vira desordem. A migração transforma-se em ameaça. Conflitos agrários tornam-se casos policiais. A violência urbana legitima vigilância digital crescente. A precarização estrutural vira falha moral.
Esse processo altera a percepção coletiva de normalidade. Drones, câmeras e rastreamento integram o cotidiano. O medo passa a ser mecanismo de coesão. Populações vulneráveis, como negros, indígenas, migrantes e jovens periféricos, tornam-se alvos preferenciais do controle.
Simultaneamente, a soberania regional se enfraquece. Não apenas a dos governos, mas a das comunidades sobre seus territórios e recursos. A América Latina transforma-se em laboratório de modelos de gestão da exclusão produzida pela crise global.
O que está em jogo não é apenas a hegemonia continental, mas o futuro das sociedades latino-americanas. A escolha não é entre Washington e Pequim. É entre aceitar que a crise transforme o continente em território administrado pela insegurança ou enfrentar suas raízes históricas, sociais e econômicas. A segurança pode organizar fronteiras, mas não reconstrói sociedades em desagregação.
    O desafio latino-americano é romper a engrenagem e recuperar a capacidade de decidir seu próprio destino.E isto só se fará pela opção de novos caminhos, fora da estrutura global financeirizada de um capitalismo em crise estrutural.

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