Meu convidado de hoje sabe tudo de DNA. Confira entrevista exclusiva com o geneticista Mariano Zalis

O meu convidado dessa semana tem no currículo graduação em Biomedicina pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (1983), mestrado em Biofísica – Weizmann Institutte of Science (1986) e doutorado em Ciências Biológicas (Fisiologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993). Research Fellow Harvard School of Public Health (1989-93).  É professor adjunto IV da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem experiência na área de Biologia Molecular, Genética humana, doenças infecciosas e oncologia de precisão. Atualmente é também, chefe do departamento de Doenças Infecciosas e Parasitarias da Faculdade de Medicina, UFRJ. Claro, estou falando do geneticista e professor Mariano Zalis. Recentemente lançou o livro “Epigenética – A Nossa Herança Invisível” que trata de  maneira clara como cada célula do nosso corpo contém o mesmo DNA, mas se comporta de forma totalmente diferente graças ao epigenoma, que funciona como um sistema dinâmico de instruções químicas.
Nosso bate-papo foi contagiante e muito rico em informações trazidas por esse profissional muito conceituado. Confira que vale a pena!

JP –  A medicina genômica ainda é pouco conhecida. Como você a explicaria?

A medicina genômica estuda o nosso genoma, o conjunto completo de DNA que herdamos. Durante muito tempo acreditou-se que o genoma era um roteiro fixo, que definia nosso futuro de maneira rígida. Hoje sabemos que ele é apenas o ponto de partida. A medicina genômica identifica variações que aumentam risco de doenças, modulam nosso metabolismo ou influenciam nossa resposta a medicamentos. Isso permitiu avanços importantes como a oncologia de precisão, em que o tratamento é guiado pelo perfil genético do tumor.
Mas o grande salto foi compreender que o DNA não age sozinho. O epigenoma — um conjunto de marcas químicas que regulam os genes — é igualmente determinante. Ele diz ao organismo quando ativar ou silenciar genes, e muda ao longo da vida. Assim, hoje tratamos não apenas o que está escrito no DNA, mas como o corpo está lendo esse DNA naquele momento.

JP – Qual é o tema central do seu novo livro, Epigenética – A Nossa Herança Invisível?

O livro nasceu do desejo de traduzir ao público uma das revoluções científicas mais profundas das últimas décadas: a percepção de que nossos genes não são nosso destino, e que o corpo está em constante diálogo com o ambiente.
Em Epigenética – A Nossa Herança Invisível, explico de maneira clara que cada célula do nosso corpo contém o mesmo DNA, mas se comporta de forma totalmente diferente graças ao epigenoma, que funciona como um sistema dinâmico de instruções químicas. Essas instruções mudam em resposta a fatores como alimentação, sono, estresse, atividade física, exposição ambiental, relações sociais, experiências emocionais e até o microbioma intestinal.
O livro também explora como a epigenética influencia o desenvolvimento infantil, a saúde mental, o envelhecimento, o risco de doenças crônicas e até processos intergeracionais, mostrando que eventos vividos pelos pais podem impactar a biologia dos filhos e netos.
Apresento histórias, estudos científicos marcantes e explicações acessíveis que ajudam o leitor a entender que o corpo é uma espécie de narrativa viva, escrita em parte pelos genes e em parte pelas escolhas, ambientes e vínculos que cultivamos.
O livro também tem um caráter prático: ofereço caminhos de como podemos influenciar positivamente nosso epigenoma no cotidiano, com hábitos que promovem reparo celular, imunidade, longevidade e bem-estar emocional.
Em resumo, o livro mostra que a epigenética é uma ciência que devolve às pessoas algo precioso: protagonismo sobre a própria saúde.

JP – A ideia de que “a genética determina tudo” ainda faz sentido?

Não. Sabemos hoje que a genética é importante, mas não é determinista. Os genes são como instrumentos de uma orquestra: fundamentais, mas incapazes de produzir harmonia sozinhos. Quem comanda a música é o epigenoma, que regula intensidade, ritmo e momento de expressão gênica. E esse maestro responde aos ambientes internos e externos — o que comemos, sentimos, respiramos, pensamos e vivemos.
Assim, a herança genética nos dá possibilidades; o epigenoma, moldado pela vida, define quais delas se manifestarão.

JP – Por que irmãos — e até gêmeos idênticos — envelhecem de formas tão distintas?

Porque cada pessoa constrói um epigenoma único ao longo da vida. Mesmo gêmeos idênticos vivem experiências diferentes: níveis de estresse variados, dietas distintas, relações afetivas próprias, ambientes específicos, atividades físicas particulares e histórias emocionais exclusivas.
Essas experiências deixam marcas epigenéticas que modulam processos fundamentais como inflamação, reparo celular, metabolismo e resposta imune. Com o passar do tempo, essas diferenças se acumulam, fazendo com que dois indivíduos de DNA idêntico envelheçam de maneiras muito distintas — biologicamente, emocionalmente e fisicamente.

JP – Como emoções positivas ou negativas podem ativar ou silenciar genes?

Emoções são estados biológicos, não apenas psicológicos. O que sentimos se traduz imediatamente em hormônios e sinais químicos que percorrem o corpo.
Emoções negativas prolongadas — medo, ansiedade crônica, solidão, hostilidade — elevam cortisol e outros mediadores que alteram o epigenoma e favorecem a ativação de genes inflamatórios e pró-envelhecimento.
Já emoções positivas — vínculos afetivos sólidos, sensação de propósito, gratidão, serenidade — geram um ambiente hormonal que estimula genes de reparo celular, fortalece o sistema imune e desacelera o envelhecimento biológico.
O epigenoma é, portanto, um intérprete preciso das nossas experiências emocionais.

JP – Qual é o impacto da alimentação, do sono e do estresse no risco de adoecer?

Esses fatores são reguladores epigenéticos centrais.
A alimentação fornece moléculas que modulam diretamente a atividade de genes ligados à inflamação, ao metabolismo e à defesa celular. Além disso, molda o microbioma intestinal, um grande influenciador epigenético.
O sono é o momento em que o corpo realiza reparos intensos, reorganiza circuitos metabólicos e estabiliza marcas epigenéticas. Privação de sono, por outro lado, desregula processos fundamentais e ativa vias de estresse.
O estresse crônico talvez seja o maior inimigo do epigenoma: ele altera profundamente genes ligados ao humor, ao metabolismo, à imunidade e ao sistema cardiovascular.
Assim, escolhas diárias são capazes de modificar nossa biologia de maneira duradoura.

JP – Testes genéticos viraram moda. O que é mito e o que é ciência?

A ciência é extremamente sólida quando falamos de testes genéticos realizados com objetivos médicos. Eles são indispensáveis para diagnosticar doenças genéticas raras, investigar cardiopatias hereditárias, identificar causas de atraso no desenvolvimento, epilepsias e autismo em crianças, e também para avaliar familiares quando uma mutação é conhecida na família.
Esses testes orientam prevenção, tratamento e decisões de saúde que podem salvar vidas.
O mito está nos testes comerciais vendidos diretamente ao consumidor, que prometem determinar dieta ideal, performance esportiva, traços de personalidade ou risco absoluto de doenças sem considerar o epigenoma.
Esses testes reduzem a complexidade humana a uma leitura simplificada do DNA.
O teste genético mostra o que está escrito. O epigenoma mostra como essa história está sendo lida pelo corpo agora.

JP – Como escolhas de hoje podem influenciar a saúde das próximas gerações?

A epigenética mostrou que algumas marcas químicas sobre o DNA podem atravessar gerações. Isso significa que alimentação, estresse, poluição, microbioma, tabagismo, alcoolismo e até estados emocionais dos pais podem influenciar como os genes dos filhos serão lidos.
Não mudamos o DNA em si, mas alteramos a forma como ele será interpretado. É a isso que chamo de “herança invisível”: uma biologia moldada não apenas pelo que herdamos, mas pelo que vivemos.

JP – O que a epigenética nos revela sobre longevidade e prevenção?

A epigenética mostra que o envelhecimento não é apenas cronológico, mas biológico — e que existe um “relógio epigenético” que pode ser acelerado ou desacelerado. Esse relógio se acelera com estresse crônico, má alimentação, sedentarismo, toxinas ambientais, isolamento social e sono inadequado. E se desacelera com alimentação equilibrada, atividade física regular, bons vínculos sociais, redução do estresse e propósito de vida.
A epigenética nos devolve protagonismo: nossas escolhas cotidianas influenciam diretamente nossa saúde futura.

JP – E quais são os seus próximos projetos?

Estou coordenando, como editor-chefe, a segunda edição do livro Oncologia de Precisão, que virá ampliada e profundamente atualizada, incorporando capítulos sobre inteligência artificial, patologia digital, novos biomarcadores, terapias-alvo e integração com epigenômica.
Continuo desenvolvendo projetos avançados em Patologia Computacional em Câncer, que unem análise digital de lâminas, inteligência artificial e dados moleculares para aprimorar diagnóstico, estratificação de risco e escolha terapêutica.
E sigo investindo intensamente na formação de profissionais através de cursos, workshops e programas educacionais em genômica, epigenética e oncologia de precisão — sempre com o objetivo de aproximar conhecimento científico de alto impacto da prática clínica e da sociedade.

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