
Essa semana fui conversar com Fogo, escultor e artista visual de 35 anos, carioca, graduado em Artes Visuais/Escultura pela UFRJ e formado pela EAV– Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Foi professor de desenho na Escola Livre de Artes do Museu Bispo do Rosário, integrou o Coletivo Gráfico e participou da residência artística no Instituto Nise da Silveira com o Coletivo Vô Pixá Pelada, no projeto Hotel da Loucura. Também trabalhou como assistente de modelagem no estúdio do artista Tunga.
Além do campo das artes visuais, Fogo performou em editoriais de moda para plataformas internacionais, como Vogue Itália e Vanity Fair. Ao longo de sua carreira, foi reconhecido em 2015 pelo júri popular como um dos 5 finalistas da exposição“Visionary ART Y .Z” e, em 2022, recebeu o segundo lugar no “IX Salão de Artes Levino Fanzeres”.
Com 14 anos de prática artística, seu trabalho explora a relação entre a escultura, o espaço e o pedestal, enquanto sua narrativa se move entre a fábula, o humor, o corpo e uma nova geometria. Fogo habita dois mundos: o real e o imaginário, o natural e o artificial, os fatos e as fábulas. Sua arte é o ponto de interseção entre esses universos, onde ele cria, desenha, modela e coordena, usando narrativas fictícias para dar forma à sua visão do mundo.
JP – Fogo, conte para nós sobre a abertura de sua segunda individual, Castelos e Cristais, na galeria Gozto.
A exposição apresenta 20 esculturas e 14 ilustrações, com curadoria de Paula Amparo, sobre a qual falo mais adiante. A visitação ocorre até 18 de Abril e paralelamente a essa individual, participo de outras mostras importantes. Novíssimos 2026, que marca o retorno da exposição na Galeria de Arte Ibeu, em cartaz até o dia 8 de maio, e a 6ª edição do PEGA, coletiva realizada pela revista Desvio, que acontece no Centro Cultural dos Correios até o dia 2 de maio.
JP – Que peças você apresenta em cada exposição?
Na mostra Novíssimos 2026, apresento cinco esculturas em cerâmica da série Minimundo N3. São obras que articulam elementos como criaturas e dispositivos de controle, dando continuidade à minha investigação sobre dinâmicas de vigilância, poder e desejo no contexto contemporâneo.
Já na 6ª edição do PEGA, participo com a escultura Labubu, realizada em cerâmica e pelúcia. Essa obra se aproxima de uma lógica mais híbrida, em que materiais e linguagens se tensionam, dialogando com questões ligadas à estética da cultura digital, especialmente no uso de elementos como a fofura, a artificialidade e o apelo imagético.
JP – Como se deu o desenvolvimento das séries de esculturas iniciadas em 2024?
As séries do Minimundo se iniciam a partir de ilustrações. Produzo pequenos esboços e, a partir deles, seleciono aqueles que irão compor cada conjunto escultórico.
Na série Minimundo N3, trabalhei com três eixos de elementos: as criaturas, como Pulga, Tatu e Guarda; as arquiteturas, como Mirante, Farol e Castelo; e os dispositivos de controle, como Câmera, Radar e Sonar. Esses elementos são a forma que encontrei de interpretar e materializar os métodos de vigilância que atravessam a experiência contemporânea no ambiente digital.
Já na série Minimundo N4, a dinâmica se desloca para uma aproximação com elementos naturais. Nela, desenvolvo objetos relacionais em cerâmica, como Cristal e Meia-lua. Cristal consiste em esculturas que mimetizam formas cristalinas e podem ser posicionadas tanto na vertical quanto na horizontal, ativando diferentes leituras no espaço. A Meia-lua, com sua forma curva e contínua, sugere um movimento de gangorra, convidando à interação e à instabilidade.
JP – Como foi o acompanhamento de Paula Amparo no desenvolvimento dessas séries?
Minha relação com Paula Amparo vem desde a formação na UFRJ e na EAV Parque Lage. Em 2024, convidei ela para um acompanhamento mais próximo, e passamos a realizar encontros regulares no meu estúdio ao longo de dois anos. Nesse período, Paula acompanhou todo o processo, das ilustrações iniciais à construção conceitual das séries Minimundo N3 e N4. Sua contribuição foi fundamental para aprofundar o trabalho, especialmente na elaboração teórica e na articulação das questões que atravessam as obras.
JP – Como a poética do seu trabalho se articula nesta exposição?
A exposição se constrói a partir de uma tensão entre diferentes campos, como o natural e o artificial, o orgânico e o tecnológico, o lúdico e o inquietante. As obras partem de uma aparência acessível, por vezes próxima do universo da fábula e da cultura visual contemporânea, mas carregam camadas que tratam de controle, vigilância e construção de subjetividade.
Nesse sentido, elementos como criaturas, dispositivos e formas naturais se organizam como um sistema em constante deslocamento, no qual as relações entre as obras produzem sentidos abertos.
JP – Como tem sido a experiência de realizar sua segunda individual na Galeria Gozto?
A experiência com a Galeria Gozto tem um papel muito importante na minha trajetória. Foi na galeria que realizei minha primeira exposição individual, com Minimundo N2, um momento decisivo de afirmação do meu trabalho. Retornar agora com Castelos e Cristais tem um significado ainda mais especial, pois marca a continuidade e o amadurecimento dessa relação.
Essa nova exposição se configura como um desdobramento direto da anterior, não apenas no campo das ideias, mas também na confiança construída ao longo do tempo. Existe um diálogo constante que atravessa a produção e a apresentação das obras, criando um ambiente fértil para arriscar, experimentar e aprofundar questões centrais da minha pesquisa.
Estou muito feliz com o resultado da exposição e com a possibilidade de apresentar essa série em um espaço que admiro e com o qual me identifico. Existe um sentimento de realização que vem não apenas da concretização do trabalho, mas da percepção de um percurso construído com consistência, troca e continuidade.




