
Estreou Elogio da Loucura no teatro do CCBB-RIO 2.
O texto de Leona Cavalli e Eduardo Figueiredo, uma livre adaptação da obra Elogio da Loucura (1509), de Erasmo de Rotterdam, redigido nos tempos modernos, no contexto do Renascimento, é histórico, deixa transparecer a relação entre teatro e literatura, humanista, irônico, utiliza o humor como crítica social, valoriza a liberdade, e apresenta reflexões daquele mundo pretérito que ainda se enquadram ao contexto contemporâneo.
Erasmo não considerou a loucura uma demência, nem algo maléfico, mas algo intrínseco à condição humana, e define o louco como um ser guiado pelas paixões e afetos, elementos que o levam ao “porto da sabedoria” e o direcionam ao “caminho da virtude e estimulam a fazer o bem”. Ele vive a vida sem preocupações, feliz, alegre, brincando, livre, se divertindo, cantarolando, rindo. A loucura, somente ela, possibilita o acesso ao universo da felicidade. Portanto, para Erasmo, os loucos são pessoas virtuosas e boas, que vivem livremente.
Ainda que não seja um texto no campo da politica, Erasmo critica a loucura dos governantes. Segundo ele, aqueles que assumiram o governo, ao invés de ocupar-se dos negócios públicos, se interessam pelos interesses privados, se afastando do bem comum, ignoram as leis, tem aversão ao conhecimento e cultura, não se preocupam com a saúde pública, condicionando tudo à sua vontade e ao seu proveito. Essas considerações foram apresentadas no século XVI.
Em tempos contemporâneos recentes, na realidade brasileira, não tivemos governantes semelhantes aos do tempo de Erasmo, que rejeitava o conhecimento e a cultura, bem como a saúde pública, rejeitou a a vacina da COVID, entre outras, salientadas as devidas diferenças de tempo e espaço? A dramaturgia soube explorar de forma notável essa crítica formulada em tempos pretéritos, mas que Soares bem atual.
Leona Cavalli interpreta a deusa Loucura, filha de Plutão, com muita intensidade e presença marcante em cena. É uma encenação concentrada na figura da atriz e na valorização do texto narrado. Ela apresenta uma interpretação refinada, de alta qualidade, e emociona. Leona narra, com humor e ironia, as origens da Loucura, seus ramos familiares, suas companheiras e seguidoras; os benefícios que concede aos Deuses e aos homens; o valor que a Deusa concede à infância;
as várias maneiras como a loucura se manifesta na sociedade como na amizade, no casamento, na guerra, nas artes e ofícios, entre outras; os dois tipos de demência; a diferença entre um sábio e um louco; a adulação; a ausência de templos e oferendas á Deusa Loucura, e a forma como a mesma é cultuada.
Leona domina o texto, narrando com clareza, utilizando uma linguagem acessível, e apresentando uma boa retórica. Ela domina o palco, se movimentando de forma ilimitada, e preenchendo todos os espaços. Realiza todo um gestual e uma bonita e intensa movimentação corporal. Se apresenta bem maquiada, e com uma vistosa peruca branca. Estabelece uma boa comunicação com o público presente, interagindo com o mesmo em diversos momentos. Portanto, uma atuação notável e digna de elogios.
Acompanha a atriz, complementando a sua atuação, dois músicos, Daniel Líbano (Violoncelo) e César Lira (Percussão). Eles tocam ao vivo, contagiando o público com melodias poéticas, batuques, e sons religiosos.
Também há projeções que complementam a fala da atriz, bem como gravações.
A trilha original de Guga Stroeter é funcional e apresenta variações.
No palco, nas laterais, também estão sentados em cadeiras alguns convidados. Em alguns momentos a atriz convida-os a participar da encenação como mera figuração.
Há momentos de extremo bom humor e descontração como aquele em que Leona contacta por meio de uma chamada no celular o autor da obra adaptada, Erasmo, no século XVI, e trocam conversas. Naqueles tempos pretéritos não havia celulares e smartphones, nem redes sociais como Instagram e Facebook. As trocas de correspondências dominavam. E a imprensa já havia sido criada por Gutemberg.
A direção de Eduardo Figueiredo focou no texto, e deixou Leona a vontade naquela ribalta para reinar absoluta e realizar a sua apresentação magnífica. Ela só é atravessada pela música ao vivo do próprio espetáculo.
O figurino criado por Kelly Siqueira e Mariana Baffa é sofisticado, criativo, de bom gosto, e facilita o deslocamento da atriz pelo palco.
O figurino apresenta-se em duas partes: uma capa em tom dourado e preto, com máscaras na parte inferior; por baixo um vestido elegante em tom preto. Na cabeça, a atriz utiliza uma peruca branca, e sobre a mesma uma coroa dourada de máscaras.
Cenário e Adereços são criações de Paula Mares e Kelly Siqueira. Original e bem distribuído pelo palco. Visualizamos um baú com um pau decorado com uma máscara do Deus Dionísio e cachos de uvas, e um trono, com rodinhas, com decoração em tom preto e dourado. Ao fundo, uma tela de projeções.
Os esqueletos são criativos, e deixam transparecer o tom bem humorado do texto.
A iluminação criada por Gabriele Souza apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação da atriz. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as falas de Leona.
Dramaturgia, elenco, direção, cenografia, figurinos, iluminação, trilha sonora formam um conjunto harmônico e equilibrado, deixando transparecer a excelência do espetáculo.
Excelente produção de artes cênicas!





