
Brasília é, por excelência, uma cidade que convida ao uso da bicicleta. Com mais de 700 quilômetros de ciclovias, paisagens amplas e vias planejadas, pedalar deveria ser sinônimo de mobilidade segura, sustentável e harmônica. E, de fato, é importante afirmar desde o início: todos nós somos, em alguma medida, ciclistas, seja no presente, seja na memória afetiva da infância. Por isso mesmo, todos nós também somos responsáveis por proteger quem pedala.
Mas essa responsabilidade é compartilhada e começa, inevitavelmente, pelo próprio ciclista.
É preciso fazer uma distinção justa. Há grupos organizados que pedalam com disciplina, muitas vezes acompanhados de batedores, respeitando regras, sinalização e ocupando corretamente os espaços urbanos. Esses são exemplos de convivência civilizada no trânsito. O problema, contudo, está em outro perfil: o ciclista individual, muitas vezes inexperiente ou simplesmente imprudente, que ignora normas básicas de circulação.
Circular na contramão, por exemplo, não é apenas uma infração, é um risco concreto de tragédia. Diferentemente de décadas atrás, os veículos modernos operam com múltiplas informações no painel, sensores, assistências e um fluxo de atenção dividido. Quando um ciclista surge fora da lógica esperada do trânsito, como vindo na direção oposta, ele rompe completamente a previsibilidade necessária para evitar acidentes.
Um relato recente ilustra bem essa realidade, ao sair da quadra 206 Norte, um motorista, após olhar corretamente para ambos os lados antes de cruzar a via, quase atropelou um ciclista que surgiu repentinamente, na contramão, sem qualquer sinalização. Não se trata de descuido do condutor, mas de uma quebra de regra básica por parte do ciclista.
E aqui reside um ponto sensível: quando ocorre a tragédia, quase sempre o motorista é automaticamente responsabilizado. Ainda que, em muitos casos, o comportamento imprudente do ciclista tenha sido determinante. Isso não é um convite à inversão de culpa, mas a uma reflexão honesta sobre corresponsabilidade.
Amamos a bicicleta. Ela representa liberdade, saúde e memória. Mas o cenário atual, de trânsito intenso, distrações constantes e aumento da frota, exige mais do que paixão: exige consciência.
Brasília oferece estrutura. São centenas de quilômetros de ciclovias disponíveis, planejadas exatamente para garantir segurança. Ignorar esse recurso e optar por vias perigosas ou comportamentos arriscados não é um ato de coragem, mas de exposição desnecessária.
Cuidar dos ciclistas é um dever de todos nós, motoristas, pedestres e do poder público. Mas o primeiro ato de cuidado precisa vir de quem está sobre a bicicleta. Respeitar as regras de trânsito não é abrir mão de liberdade, é garantir que ela continue existindo.
Antes de apontarmos culpados após uma tragédia, talvez devêssemos perguntar: estamos fazendo a nossa parte para evitá-la?
Imagem Pixaby





