
A cartilha de muitos futebolistas e ex-jogadores sobre suas carreiras, no que diz respeito ao que se passa fora dos campos, já é conhecida. Muito pouco se recicla e o discurso é mais ou menos o mesmo. A alienação quanto a detalhes de contratos e cláusulas é recorrente quando indagados sobre transferências, questões fiscais e até mesmo relações com colegas de equipe e treinadores. E muito da infantilização desses personagens se torna mais evidente nesses momentos, em que a alegação “eu só quero jogar futebol” é o jargão comum para justificar: “eu não tenho nada a ver com isso”, mesmo quando se trata de algo que lhes diz respeito.
Ronaldinho Gaúcho não escapa desse time que demonstra desconhecimento de tópicos sensíveis de sua bem-sucedida carreira, repleta de capítulos polêmicos, como tantas outras. O chamado Bruxo, despontou cedo nas quadras de Porto Alegre e desde pequeno tinha em casa uma referência dos gramados. Seu irmão, jogador do Grêmio, foi o primeiro a mudar a vida da família e, de certa forma, abrir caminho para um dos nomes mais ecoados pelos estádios mundo afora. Assis teve uma carreira breve e apreciada por muitos. Mas foi nos cuidados da vida profissional do caçula que se notabilizou mais.
Nos três atos que dividem a minissérie Ronaldinho Gaúcho (Netflix) a ascensão e os desafios encarados por um dos últimos protagonistas do futebol brasileiro são retratados sem perder de vista os momentos mais relevantes. Ronaldinho se destacou cedo. Desde muito jovem revelou-se um talento a ser acompanhado e conquistou muitos títulos internacionais já em seus primeiros anos de carreira. Luis Ara cobre as duas décadas de um ídolo que marcou gerações. Reflete sobre a imagem e a reputação do craque de estar por todo o lugar, o que o conferiu a alcunha de “rei dos rolês aleatórios”. Mas também destaca que a jornada do gaúcho não teve tanto improviso como os de seus dribles. A saída do Brasil, passando pelos tempos em que defendeu as cores parisinas e da renovação do barcelonismo, até a prisão do camisa 10 junto do irmão no Paraguai, em 2020, com passaportes falsificados. Ara apresenta os bastidores de um tipo reconhecível em qualquer lugar do mundo e que como muitos outros atletas bem-sucedidos, seguiu sendo tratado como alguém que não chegou a vida adulta.






