
Por Henrique Pinheiro – Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor” – Colunista convidado.
Há 58 anos, em 26 de junho de 1968, o Rio de Janeiro testemunhou uma das maiores manifestações populares da história brasileira. A Passeata dos Cem Mil reuniu estudantes, artistas, intelectuais, religiosos, trabalhadores e cidadãos comuns em um ato pacífico contra a repressão, a censura e a violência da ditadura militar.
O estopim daquele movimento foi a morte do estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, assassinado pela polícia militar em março de 1968 durante uma manifestação no restaurante estudantil Calabouço. Sua morte provocou uma onda de indignação que atravessou o país. Poucos meses depois, a chamada Sexta-Feira Sangrenta, em 21 de junho, deixou mortos, centenas de feridos e milhares de prisões nas ruas do Rio de Janeiro, ampliando ainda mais a revolta da sociedade.
A Passeata dos Cem Mil foi organizada pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e liderada por jovens como Vladimir Palmeira. Mas rapidamente deixou de ser apenas um movimento estudantil. Tornou-se uma manifestação de toda a sociedade civil contra o autoritarismo.
Naquela tarde histórica, a Cinelândia transformou-se no coração da resistência democrática. Entre os manifestantes estavam nomes que marcariam a cultura brasileira, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Clarice Lispector, Paulo Autran, Tônia Carrero, Milton Nascimento, Marieta Severo e Nana Caymmi. Marchavam lado a lado com professores, trabalhadores, religiosos e milhares de brasileiros anônimos que sonhavam com um país mais livre.
As palavras de ordem expressavam o sentimento coletivo da época: fim da censura, respeito às liberdades democráticas, mais investimentos na educação, fim das prisões arbitrárias e da violência policial. A multidão seguiu da Cinelândia até o Palácio Tiradentes, num percurso marcado pela disciplina e pela determinação de quem já não aceitava o silêncio imposto pelos quartéis.
A Passeata dos Cem Mil não derrubou a ditadura. Mas demonstrou que o regime não governava sobre um povo resignado. A resposta da linha dura militar viria poucos meses depois. Em dezembro de 1968, o AI-5 fechou o Congresso Nacional, suspendeu garantias constitucionais e inaugurou o período mais sombrio da repressão política no Brasil.
Mesmo assim, a Passeata dos Cem Mil permanece viva na memória nacional. Foi o momento em que a sociedade brasileira mostrou que a democracia não é uma concessão dos governantes, mas uma conquista da cidadania. Foi o dia em que cem mil vozes ocuparam as ruas para lembrar que nenhum regime autoritário consegue apagar para sempre o desejo de liberdade.
Passados 58 anos, a lição continua atual: a democracia exige vigilância permanente, memória histórica e coragem para defender a liberdade sempre que ela estiver ameaçada.





