
Um ingrediente até então mais associado ao universo dos procedimentos dermatológicos, começou a ganhar espaço nas prateleiras de beleza e nas redes sociais em 2026.
O PDRN (polidesoxirribonucleotídeo) se tornou uma das maiores apostas da K-Beauty e passou a aparecer em séruns, máscaras faciais e cremes que prometem contribuir para a qualidade e a aparência da pele. O movimento acompanha uma tendência crescente de incorporar ao skincare tecnologias inspiradas na medicina regenerativa.
O interesse pelo ativo ganhou ainda mais visibilidade após celebridades e influenciadoras internacionais passarem a compartilhar produtos contendo PDRN em suas rotinas de beleza.
Recentemente, a cantora Dua Lipa chamou atenção ao aparecer utilizando uma máscara facial coreana formulada com o ingrediente, ajudando a impulsionar ainda mais a curiosidade do público sobre o tema. Nas redes sociais, especialmente no TikTok, vídeos sobre o ativo acumulam visualizações e alimentam discussões sobre seus potenciais benefícios e limitações.
Para especialistas, o fenômeno reflete uma mudança importante no comportamento das consumidoras, que buscam cada vez mais ativos com apelo científico e tecnologias antes restritas aos consultórios. Ao mesmo tempo, o crescimento da tendência levanta questionamentos sobre o que realmente pode ser entregue por um cosmético de uso diário e quais resultados dependem de protocolos realizados sob acompanhamento médico.
Conversamos sobre o assunto com a dermatologista Larissa Oliveira, da Onne Clinic (RJ). Confira!
JP – O que é o PDRN e por que esse ingrediente passou a despertar tanto interesse dentro do universo da K-Beauty e do skincare em geral?
O PDRN, ou polidesoxirribonucleotídeo, é uma molécula derivada de fragmentos de DNA que vem sendo estudada há alguns anos dentro da medicina regenerativa, principalmente pela sua capacidade de estimular processos de reparo tecidual e modular inflamação. Inicialmente, ele ganhou espaço em procedimentos injetáveis realizados em consultório, mas agora começa a migrar para o universo cosmético, especialmente dentro da K-Beauty, que historicamente tem grande capacidade de transformar tecnologias médicas em tendências de consumo.
O interesse pelo ativo cresceu porque existe hoje uma demanda muito forte por ingredientes com narrativa científica mais robusta. A consumidora atual não busca apenas hidratação ou viço imediato; ela quer entender mecanismos biológicos, regeneração celular e prevenção do envelhecimento em um nível mais profundo. O PDRN surge justamente nesse contexto, associado à ideia de reparação da pele, melhora de luminosidade e fortalecimento da barreira cutânea.
Além disso, a estética coreana costuma antecipar movimentos importantes da indústria global de skincare. Quando um ingrediente começa a aparecer em máscaras faciais, séruns e produtos usados por celebridades e influenciadoras, ele rapidamente ganha projeção internacional.
JP – Existe diferença entre os resultados obtidos com produtos que contêm PDRN e aqueles observados em procedimentos realizados em consultório?
Existe uma diferença importante. Em consultório, o PDRN costuma ser utilizado em concentráveis mais altas, de forma estéril e em protocolos associado a tecnologias como microagulhamento, laser e drug delivery, o que permite que o ativo alcance camadas mais profundas da pele. Nesses casos, observamos resultados mais consistentes em regeneração tecidual, melhora de textura, luminosidade e recuperação cutânea.
Já nos cosméticos de uso tópico, a ação tende a ser mais limitada, principalmente porque a penetração cutânea é um desafio importante. Isso não significa que os produtos sejam irrelevantes, mas é fundamental alinhar expectativas. Um sérum ou máscara com PDRN pode contribuir para hidratação, viço e suporte da barreira da pele, porém dificilmente reproduzirá os efeitos biológicos observados em protocolos médicos.
Hoje existe muito interesse comercial em aproximar o skincare da dermatologia regenerativa, mas ainda precisamos diferenciar o potencial teórico do ativo da sua real capacidade de entrega em formulações cosméticas.
JP – Como diferenciar inovação real de marketing quando novos ativos começam a viralizar nas redes sociais e entre celebridades?
O principal ponto é observar se existe plausibilidade científica, qualidade de formulação e evidência clínica minimamente consistente. Nas redes sociais, muitos ativos viralizam antes mesmo de haver estudos robustos mostrando eficácia em cosméticos tópicos. O marketing costuma se apoiar em conceitos reais da medicina, mas isso não significa automaticamente que o produto entregue o mesmo resultado na clínica.
Também é importante analisar concentração, tecnologia de veiculação e tipo de estudo apresentado pela marca. Muitas vezes, vemos ingredientes excelentes sendo utilizados em quantidades muito pequenas ou em formulações que não favorecem a estabilidade e absorção.
Outro aspecto fundamental é entender que celebridades e influenciadoras ajudam a acelerar tendências, mas não substituem avaliação científica e a indicação médica dermatológica. Um ativo pode ser promissor sem necessariamente ser revolucionário. A dermatologia exige tempo, evidência e reprodutibilidade de resultados.
JP – O crescimento de tecnologias inspiradas na medicina regenerativa representa uma nova fase do skincare ou ainda é cedo para afirmar isso?
Acredito que estamos entrando em uma nova fase do skincare, sim. Existe um movimento muito claro de aproximação entre cosmética, biotecnologia e medicina regenerativa. Hoje vemos ativos inspirados em exossomos, peptídeos biomiméticos, fatores de crescimento e PDRN ganhando espaço em produtos de uso diário, o que mostra uma mudança importante na forma como a indústria pensa o envelhecimento cutâneo.
Ao mesmo tempo, ainda precisamos de cautela. Muitas dessas tecnologias são extremamente interessantes dentro do ambiente médico, mas nem sempre possuem a mesma performance quando adaptadas para cosméticos. Existe uma tendência real de sofisticação científica do skincare, porém também existe excesso de promessas e simplificações feitas para o ambiente digital.
O mais provável é que o futuro esteja justamente nessa integração: cosméticos cada vez mais tecnológicos funcionando como extensão dos cuidados dermatológicos, mas sem substituir procedimentos médicos quando há indicação clínica.






