
Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil, é daqueles textos que se recusam a envelhecer. Embora ambientada no final da Segunda Guerra Mundial e permeada pelas sombras do Estado Novo, a peça fala, acima de tudo, sobre preconceito. Sobre o olhar desconfiado lançado ao estrangeiro, ao diferente, ao outro. O que vemos em cena não pertence apenas a 1945. Pertence também ao nosso tempo.
Na nova montagem dirigida por Eric Lenate, que divide o palco com Fernando Billi, o embate verbal entre o refugiado polonês Clausewitz e o funcionário da imigração Segismundo ganha uma força impressionante. Aparentemente estamos diante de um confronto desigual, quase um Davi contra Golias. Mas os argumentos pacientes, delicados e brilhantes do imigrante vão pouco a pouco invertendo a lógica do poder, transformando-o em gigante moral diante da autoridade que o interroga.

O grande impacto visual da encenação está na cenografia premiada de Lenate. A sala burocrática surge suja, confusa, abarrotada de papéis e objetos, traduzindo a desumanização dos sistemas que deveriam acolher. E o cenário giratório oferece uma imagem poderosa: tudo parece mudar, mas permanece exatamente no mesmo lugar. Uma metáfora perfeita para preconceitos que atravessam gerações sem jamais desaparecer completamente.
Ainda sob o efeito da peça, descemos calmamente a rua em direção ao Belisco Bar de Vinhos. E ali o clima muda sem romper o diálogo. Afinal, poucas coisas são tão eficazes para prolongar uma boa conversa quanto comida compartilhada e uma taça de vinho.
O conceito da casa é simples e inteligente: pratos para dividir, beliscar, experimentar. O que encontrei foi justamente equilíbrio. A chef Monique Gabiatti trabalha os clássicos em estado de pureza ou os revisita com delicadeza, sem perder de vista o sabor. Há também criações próprias muito felizes, sempre conduzidas por técnica segura e temperos precisos.
Entre os destaques, os cubos de atum marinados em shoyu e saquê com coalhada seca mostraram frescor e elegância. As lulinhas grelhadas no azeite de alho assado vieram no ponto exato, enquanto a famosa rabanada de steak tartare confirma a vocação da casa para unir conforto e sofisticação. Tudo chega à mesa sem afetação, mas com personalidade.
A carta de vinhos merece capítulo à parte. Com curadoria de Salua Bueno, a adega reúne cerca de 150 rótulos, dos quais boa parte é formada por vinhos naturais ou de baixa intervenção. Há mais de trinta opções em taça por mês, preços honestos e a simpática proposta das “réguas” de degustação, que permitem passear por regiões e produtores. Uma aula informal para iniciantes e um prazer para os iniciados.
O serviço acompanha o alto padrão da cozinha. Atento sem ser invasivo, rápido sem transmitir pressa, a equipe está sempre aberta a sugestões e pronta para resolver qualquer necessidade. E talvez seja justamente essa combinação que faça do Belisco um endereço tão agradável. É um lugar para encontros, debates, celebrações e confidências. Porque, como já sabiam os antigos, in vino veritas: entre uma taça e outra, as melhores conversas acabam sempre encontrando seu caminho.
Serviço:
Novas diretrizes em tempo de paz
Teatro Poeira, com sessões de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos, às 19h.
Belisco Bar de Vinhos
Rua Arnaldo Quintella, 93




