Carta a um Jovem Ator: quando a ancestralidade vira criação

Ancestralidade é mais do que voltar a valores e rituais. Pode ser também manter heranças, utilizá-las, revolvê-las e, quase de forma antropofágica, jogar luz na história do outro. É isso que João Vithor Oliveira faz ao retomar “Carta a um Jovem Ator”, texto de seu tio-avô, Domingos Oliveira, que volta aos palcos sete anos depois, justamente no ano em que o dramaturgo completaria 90 anos.

Jovem e presente em várias frentes da criação, João transforma texto em ação. Ao lado de Tiago Herz, ator premiado como revelação, transforma a carta escrita por Domingos aos 72 anos em uma experiência cênica íntima, que aproxima ator e plateia e fala de arte, amor, morte, desejo e felicidade.

Tiago é desses artistas que não cabem facilmente em uma definição. Ator, autor, músico, dança, canta e não demonstra qualquer vergonha de experimentar. E é justamente aí que está sua força. Não é ousadia puro e simples. É coragem. Coragem para experimentar linguagens, colocar o corpo em jogo e transformar a cena em um espaço de descoberta. Ao lado de João, sua direção cria essa proximidade e permite que o espetáculo transite entre humor, emoção, música e reflexão sem perder a espontaneidade.

A peça acompanha um jovem ator diante das inquietações da vida e do ofício, entre a paixão de criar e a angústia diante da morte. Humor, emoção e reflexão se misturam numa montagem que recupera Domingos Oliveira sem transformá-lo em peça de museu. O legado está vivo porque continua sendo interrogado.

Sete anos depois, “Carta a um Jovem Ator” volta ao palco como reencontro, homenagem e, sobretudo, continuidade. Porque talvez a melhor maneira de honrar uma herança seja não deixá-la quieta.

Serviço

Teatro Municipal Domingos Oliveira
Av. Padre Leonel Franca, 240 – Gávea – Rio de Janeirosextas e sábados, às 20h; domingos, às 19h
Classificação indicativa: 12 anos

  • Claudia Chaves

    Carioca, professora, publicitária, colunista e doutora em Artes e Indústria do Entretenimento, Claudia Chaves vive entre teatros, restaurantes, bares e museus em busca de boas histórias. Já escreveu para a Mastercard Black, Veja Rio, Jornal do Brasil e outros veículos. Nesta coluna, junta gastronomia e teatro como quem sabe que grandes espetáculos também acontecem à mesa. Observadora profissional da vida carioca, ela acredita que uma boa conversa pode começar num palco e terminar num bar. E faz um ótimo camarãozinho com chuchu

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