
Aos 50 anos de carreira, Sérgio Fonta olha para a própria trajetória sem a solenidade de quem considera a missão cumprida. Ator, diretor e dramaturgo, ele prefere falar em batalhas, conquistas e, sobretudo, em movimento. São mais de três décadas de trabalhos no teatro, passagens marcantes pela televisão e pelo cinema e uma inquietação que parece ser justamente o motor de sua permanência em cena. “Não é um balanço final. Ainda há muito a fazer”, afirma. Está em cartaz até 26 de agosto na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, com o espetáculo teatral “O Filho das Mães”, comédia do mestre João Bethencourt. Na peça vive “Abraão”, um patriarca de uma tradicional família judia que demora a descobrir que sua filha é homossexual terá um bebê por inseminação artificial.
Mas a história profissional de Sergio Fonta começou nos anos 1970, ainda na faculdade de Comunicação, com a criação do Teatro Experimental da PUC, e ganhou um impulso decisivo quando Janete Clair o convidou para integrar Selva de Pedra, sua estreia na televisão — novela que agora volta a ser exibida pelo Globoplay. Vieram depois dezenas de personagens, entre novelas, minisséries e seriados, além de encontros com nomes como Bibi Ferreira, Naum Alves de Souza, Pedro Paulo Rangel e Robert Lewis, professor da Yale Drama School.
Hoje, Fonta continua recusando a ideia de acomodação. Além de atuar em “O Filho das Mães”, se prepara para novos desafios como diretor e ator. Entre eles estão a reestreia de “Palavras de Mulher”, no Teatro Glaucio Gill, e a montagem de “Peito Aberto”, de Marcílio Moraes, além de uma versão itinerante de “O Mercador de Veneza”. Nesta conversa, ele fala sobre cinco décadas de teatro, televisão e dramaturgia, sobre os mestres que encontrou pelo caminho e sobre a necessidade de continuar criando — porque, para Sergio Fonta, o palco ainda está longe de ser um ponto de chegada.
É tanta história pra contar… O balanço é de batalhas e conquistas. Quando um projeto não dá certo, não esmoreço jamais. Viro a página e crio outro. Juntando as três atividades (ator/ dramaturgo/diretor), acho que o saldo é bom, positivo. Estimulante. E não é um balanço final. Ainda há muito a fazer.
JP – Como foi a sua inserção no projeto da peça O Filho das Mães?
Conhecia o produtor Guilherme Del Rio de vista, mas nunca havíamos trabalhado juntos. Quando ele fez o convite, não hesitei: o personagem é ótimo e minha admiração pelo João Bethencourt como comediógrafo é infinita.
sabe que tem uma filha cuja opção sexual é bastante definida e firme. Abraão é um personagem potente, cheio de nuances, um presente para qualquer ator.JP – Quais são os temas tratados na peça?
É exatamente o que falei, porém, ampliado, porque a filha vive com outra moça e ambas adotam um bebê a partir de um doador. Mas tudo tem um tratamento de comédia, na qual João Bethencourt foi mestre. A graça está em todos, especialmente em sua mulher, tentarem esconder a situação para o Abraão, que nada percebe até que…bem, aí já vira spoiler. Só indo lá assistir.
Comecei nos anos 1970, na faculdade de Comunicação, formando o grupo TEP (Teatro Experimental da PUC). Pouco depois, Janete Clair – que é minha madrinha na TV – me convidou para fazer Selva de Pedra, aquela novela maravilhosa que virou um clássico. Um pouco mais adiante veio o convite do Pedro Paulo Rangel para fazer a peça Afronta ao público, de Peter Handke, e quando vi não tinha mais como deixar de ser e eu queria era isso mesmo. Minha formação foi trabalhando, fazendo, vendo e lendo muito teatro.
JP – Quais foram as suas referências (teóricas e práticas) em sua formação?
Minhas referências teóricas e práticas foram uma ligação muito forte com a arte de interpretar e, depois, de escrever e dirigir. Fiz também muitos cursos e workshops, inclusive um com o diretor americano Robert Lewis, da Yale Drama School.
JP – Você também atua como dramaturgo. Quais são as características de um texto teatral?
Fazendo um recorte para o Brasil, fico com Dias Gomes, Vianninha e Nelson Rodrigues, entre muitos outros. Eles têm o domínio da técnica dramatúrgica, sem deixar de lado a emoção, a consciência política ou o humor, se for o caso. Ou, no Nelson, a tragédia levada ao seu extremo.
Bibi era uma mulher de teatro na acepção da palavra. Sabia todos os segredos do palco. E tinha um vigor impressionante. Aprendi muito com ela. Aprendi o amor pela profissão – isso eu já tinha, mas cresceu -, o respeito pelo espectador, pelo sagrado da profissão. Quando terminou a temporada de Um rubi no umbigo, que Bibi dirigiu, brinquei com ela dizendo que eu tinha feito um curso de Bibiologia.







