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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Porto Alegre, 5 de setembro de 1961.
João Goulart havia vencido a batalha para voltar ao Brasil. Mas a vitória tivera um preço.
Para superar o veto dos ministros militares e evitar uma ruptura que poderia levar o país a uma guerra civil, Jango aceitara assumir a Presidência sob o parlamentarismo aprovado às pressas pelo Congresso.
Era uma solução de compromisso.
Jango seria presidente, mas grande parte dos poderes que teria no presidencialismo passaria ao Conselho de Ministros.
Leonel Brizola era contrário ao acordo.
Depois de mobilizar o Rio Grande do Sul e a Rede da Legalidade em defesa da Constituição, considerava que Jango deveria assumir com todos os poderes presidenciais.
Mas havia ainda um obstáculo.
Jango precisava chegar a Brasília.
E nem isso estava garantido.
Dentro da Aeronáutica, setores contrários à sua posse articulavam um plano para impedir que o avião que o transportava alcançasse a capital.
Era a chamada Operação Mosquito.
Jango viajaria num Caravelle da Varig, prefixo PP-VJD.
A possibilidade de interceptação por caças da Força Aérea Brasileira era levada a sério.
O próprio presidente da Varig, Rubem Berta, decidiu embarcar.
A aeronave foi preparada para uma viagem excepcional. Assentos foram retirados para reduzir o peso e permitir maior quantidade de combustível, aumentando sua autonomia caso fosse necessário alterar a rota ou procurar outro aeroporto.
O horário da partida também mudou.
Quanto menos previsível fosse o voo, maior seria a possibilidade de chegar em segurança.
Às 17h30, o Caravelle finalmente deixou Porto Alegre.
No comando estava Paulo de Mello Bastos.
A aeronave ganhou altitude enquanto sua tripulação acompanhava atentamente pelos rádios as comunicações e as informações sobre a situação em Brasília.
Décadas depois, surgiria um testemunho importante sobre o que acontecia do outro lado.
Em 2013, Roberto Baere, que em 1961 era tenente do 1º Grupo de Aviação de Caça, relatou à Comissão Nacional da Verdade que recebera ordem para participar da Operação Mosquito.
Baere afirmou que se recusou a cumpri-la.
Era mais um episódio de insubordinação dentro das próprias Forças Armadas durante aqueles dias extraordinários.
Horas depois, o Caravelle chegou a Brasília.
Jango encontrou uma capital sob forte aparato de segurança, com centenas de militares mobilizados.
A última etapa de sua longa viagem havia terminado.
Desde a renúncia de Jânio Quadros, João Goulart atravessara países, negociações diplomáticas, ameaças militares e uma crise que dividira as próprias Forças Armadas.
A Legalidade garantira seu direito de voltar.
O parlamentarismo abrira politicamente o caminho para sua posse.
Mas, para chegar à capital, Jango ainda precisara atravessar os céus de um país dividido.
Dois dias depois, em 7 de setembro de 1961, João Goulart tomou posse como presidente da República.
Não seria, porém, o mesmo presidente previsto originalmente pela Constituição presidencialista.
Chegava ao Palácio do Planalto com seus poderes reduzidos.
A batalha pela posse estava terminando.
Começava outra: a batalha para governar.
Foto: João Goulart em sua chegada a Brasília, em 5 de setembro de 1961.






