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Há momentos em que a história de um país parece depender de algumas horas. Na manhã de 28 de agosto de 1961, Porto Alegre viveu uma delas.
Três dias antes, Jânio Quadros havia renunciado à Presidência da República. Pela Constituição, o vice-presidente João Goulart deveria assumir. Jango, porém, estava em viagem oficial à Ásia. Os ministros militares não aceitavam sua posse.
No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola decidiu defender o cumprimento da Constituição. Do Palácio Piratini, utilizando o rádio, começava a mobilizar o país naquilo que ficaria conhecido como Campanha da Legalidade.
Naquela segunda-feira, a crise chegou ao limite. Às 9h45, uma ordem chegou ao comando do III Exército. Partira do ministro da Guerra, marechal Odylio Denys, e fora transmitida pelo general Orlando Geisel. A resistência de Brizola deveria ser sufocada. A determinação admitia o emprego da Aeronáutica e, se necessário, o bombardeio.
A poucos quilômetros do centro de Porto Alegre, na Base Aérea de Canoas, estavam os Gloster Meteor F-8 da Força Aérea Brasileira. Eram alguns dos mais modernos aviões militares então existentes no país. Armados com quatro canhões de 20 milímetros e capazes de transportar bombas, poderiam alcançar rapidamente Porto Alegre.
O possível alvo era o Palácio Piratini. Ali dentro estava Brizola. Do lado de fora, barricadas e sacos de areia protegiam o prédio. A Brigada Militar estava mobilizada e milhares de pessoas acompanhavam pelo rádio o desenrolar da crise.
Por volta das 11 horas, Brizola foi ao microfone. Sabia o que poderia acontecer.
“Não pretendemos nos submeter. Que nos esmaguem! Que nos destruam! Que nos chacinem, neste palácio!”
E, lançou um desafio que atravessaria as décadas: “Que decolem os jatos!”
Mas os jatos não decolaram.
Na Base Aérea de Canoas, militares de baixa patente decidiram que não participariam de um ataque contra Porto Alegre. Entre eles estava o sargento Édio Erig, que trabalhava nas comunicações da base. A resistência se espalhou entre sargentos, cabos e suboficiais.
A reação deixou de ser apenas verbal. Aeronaves foram desarmadas e pneus, esvaziados. Os Meteor permaneceram no chão.
Enquanto isso, outra decisão ainda mais importante estava sendo tomada. O general José Machado Lopes comandava o III Exército, a poderosa força terrestre responsável pela região Sul. Ele seguiu para o Palácio Piratini.
Brizola não sabia se o general vinha apoiá-lo ou prendê-lo. O encontro poderia decidir não apenas o destino do governador, mas o da própria Legalidade.
Machado Lopes entrou no palácio e comunicou sua posição: o III Exército não participaria da repressão ao governo gaúcho. Defenderia uma solução constitucional para a crise e a posse de João Goulart.
Em poucas horas, a cadeia de comando militar havia começado a se romper em dois sentidos. Na Base Aérea de Canoas, sargentos e suboficiais recusaram uma operação que poderia resultar no bombardeio de uma capital brasileira. No comando do III Exército, um general decidiu não obedecer à orientação dos ministros militares contra a posse do vice-presidente constitucional.
Os aviões ficaram no chão. O Palácio Piratini permaneceu de pé.
João Goulart ainda enfrentaria uma longa negociação até tomar posse, em 7 de setembro, sob o regime parlamentarista. Mas naquele 28 de agosto o Brasil esteve perigosamente próximo de assistir às suas próprias Forças Armadas atacarem um palácio de governo cercado por civis.
A história da Legalidade costuma ser lembrada pelos discursos inflamados de Brizola e pela força extraordinária do rádio. Mas ela também foi feita por homens que, em diferentes posições da hierarquia militar, decidiram que havia uma fronteira que não deveriam atravessar.
Naquela manhã, em Porto Alegre, essa escolha pode ter evitado uma tragédia.
E, talvez uma guerra civil.






