Para Ler na Rede: O padecimento e o Paraíso
Em tempos de desconstrução dos papeis sociais, a dessacralização da maternidade tem sido tema de debates e ensaios que retomam a máxima do padecimento no Paraíso. Um dos raros depoimentos a buscar as contraditórias emoções vividas pelas mulheres é o da catalã Mar Garcia Puig, que, em “A história dos vertebrados” (Bazar do Tempo, R$ 92), recorda suas impressões do nascimento dos filhos gêmeos, a eclosão da ansiedade no pós-parto, simultâneos a ganhar a eleição para uma cadeira de deputada no parlamento espanhol.
Além de sua própria experiência, Mar Puig apresenta uma detalhada pesquisa sobre a psicose puerperal, que separou mulheres de seus filhos recém-nascidos desde a Antiguidade. As formas de tratamento dos sintomas depressivos e delirantes dessas mulheres mudam ao longo do tempo e raramente se destacam fora da literatura médica. Casos graves atingem apenas a cada duas entre mil mulheres que dão à luz, e, geralmente, exigem internação hospitalar. A própria autora, com mais de vinte anos de atividade no meio editorial, descobriu a expressão, então chamada de “loucura puerperal”, ao ler os prontuários médicos de Emma Riches, uma jovem mãe inglesa, internada, em meados do século XIX, no hospital psiquiátrico londrino de Bethlem, a cada nascimento de um filho – teve quatro crianças. Juntando com relatos que chegam à atualidade, Mar Puig apresenta seu calvário maníaco, alternando preocupação extremada com a saúde dos gêmeos ao júbilo de conviver com as crianças.
A esse descompasso pessoal, junta-se a crise no casamento com o pai dos bebês e os compromissos políticos, agravados pelas acusações de extremismo feminista dos homens no parlamento – mesmo ao comprovar com números o cerceamento feminino pela medicina. As mulheres são a maioria dos pacientes psicanalíticos e as maiores consumidoras de medicamentos psiquiátricos, lembra a escritora. De cada dez receitas de ansiolíticos e outros remédios para estabilização comportamental, oito são para mulheres, informa a Organização Mundial de Saúde. Muitos dos diagnósticos de transtornos mentais femininos estariam fundamentados pelo controle patriarcal, acredita. Essa combinação de crítica social, história, literatura e vivência pessoal deu a Mar Garcia Puig o Prêmio Cidade de Barcelona de Ensaio em 2023.
A estranheza das alterações no corpo que passa nove meses gestando pessoas e, em um dia, vê seu peso cair brutalmente, assim como a carga de hormônios em mutação rápida, são descritas pela autora ao lado das manifestações psíquicas que nem todas as mulheres conhecem. A representação feminina da maternidade na arte, destaca ela, é quase sempre sem companhia, as madonas acalentando o filho, Maria com Jesus morto na “Pietá”. Já os homens sempre estão acompanhados de seus pares. A maternidade é angustiante, cansativa e solitária, diz Mar Puig, que, embora tivesse apoio do companheiro e de parentes, sentia-se permanentemente cansada.
Tornar-se cuidadora de outras pessoas repentinamente, ajustar horários de sono e trabalhar pela comunidade – incluindo aí a casa e a família – são funções históricas das mulheres, aponta a escritora, que aponta o cotidiano das mães em outras épocas para mostrar que, apesar da tecnologia de apoio e da evolução da compreensão biológica, o ser feminino tem obrigações que superam as dos homens. A maternagem exaustiva acaba se adequando às tantas outras tarefas das mulheres, que dificilmente rejeitam as crianças, ao contrário. A noção de dever, para Mar Garcia Puig, é demonstrada pela atitude da poeta Silvia Plath, que, antes de dar cabo da própria vida, deixou leite e sanduíches ao lado das camas dos filhos, a fim de evitar que eles sentissem fome caso a diarista – que os encontrou ilesos – se atrasasse para o serviço.
Desconstruir a visão romantizada do futebol é um dos pontos fortes de “Off Pitch: Entre Pessoas e Sonhos” (Fhogo Editora, R$ 80), de Iago Barros, cuja incipiente carreira de jogador foi encerrada precocemente devido à uma lesão no joelho. Criado na Europa, onde seu pai, Milton, que chegou a integrar a Seleção Brasileira na Olimpíada de Seul, trabalhava, Iago se descobriu como agente esportivo, na área de descoberta de talentos (scouting), gestão de carreira e transferências. Além de contar sua experiência pessoal, mesclando recordações da vida em família e o início da carreira, ele destaca, no livro, o papel do agente no desenvolvimento técnico, comportamental e na orientação financeira dos jogadores, refletindo ainda sobre a cultura do esporte no Brasil como ferramenta de transformação de vidas e ascensão social.
O encontro – imaginário – da compositora Chiquinha Gonzaga com o samba é a base do romance histórico “O último maxixe” (Patuá, R$ 60), de Igor Miguel Pereira. Embora estivesse viva quando a Mangueira ganhou seu primeiro Carnaval e as músicas de Noel Rosa começaram a ganhar a tocar nas rádios, Chiquinha, que desafiou a sociedade ao abraçar a música popular, transitou por diversos gêneros, exceto o samba, que vem a conhecer, no livro, ao ser chamada a compor a trilha sonora do primeiro filme musical feito no Brasil. Além de exaltar as diferenças do novo ritmo, o romance mescla personagens reais em cenários cariocas dos anos 1930. O projeto do livro foi contemplado pelo edital da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro para produção de obra literária.
A escritora sino-americana R.F. Kuang não se acanha em usar sua experiência em romances que abordam as dificuldades das carreiras acadêmica e literária. Depois de criticar o processo editorial no movimentadíssimo mercado de best-sellers dos Estados Unidos, em História de Taipei (Intrínseca, R$ 79,90), ela mostra as dificuldades de uma estudante que busca aprimorar seu conhecimento de chinês em um curso de imersão em Taipei. As dificuldades em se comunicar num idioma quase incompreensível para os ocidentais também estão relacionadas à tentativa de se enquadrar culturalmente em dois universos que pouco têm em comum. O não pertencimento das famílias de imigrantes e a incorporação dos valores ancestrais são etapas para a construção de sua própria identidade, marcada por ausências e perdas.


