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Contagem Regressiva: “Salve a pátria dos bacharéis”

Contagem Regressiva: “Salve a pátria dos bacharéis”

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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza”Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Fortaleza de Santa Cruz, abril de 1964.
Depois da primeira noite no Forte de Copacabana, meu pai foi acordado às cinco da manhã pelo clarim. Um oficial entrou na cela e ordenou:
“Seu Pinheiro, arrume a mala. Vamos partir.”
“Que mala? Os senhores não me deixaram trazer nada. Sequer uma escova de dentes.”
Foi conduzido à Praça XV e embarcou numa lancha com outros presos. O destino era a Fortaleza de Santa Cruz.
Na chegada, uma tropa perfilada, armada de fuzis e metralhadoras, recebeu os prisioneiros. No alto do muro branco, uma inscrição anunciava:   “A Pátria espera que cada um cumpra o seu dever.”
O comandante, coronel Tíndaro Gouveia do Amaral, apresentou-se com uma ordem curiosa. Os presos com nível universitário seriam encaminhados à enfermaria. Os demais, às celas do subsolo.
A enfermaria destinada aos diplomados era uma ala mais arejada e relativamente confortável da fortaleza. Ali havia mais espaço, melhor ventilação e camas em condições menos precárias. Os presos permaneciam sob vigilância, privados de liberdade e sem informações sobre o futuro.
As celas do subsolo eram espaços estreitos, úmidos e mal iluminados, com pouca circulação de ar. As camas eram rudimentares, e os presos enfrentavam condições muito mais severas. A diferença não era apenas de conforto: era a separação entre uma prisão relativamente suportável e um confinamento sufocante e degradante.
Meu pai respirou fundo. Entre os companheiros estava José Antônio da Silva, conhecido como Zé Nabo, ferroviário, ex-prefeito de Miguel Pereira e deputado estadual cassado pelo golpe de 1964. Líder sindical, havia sido vereador e prefeito antes de chegar à Assembleia Legislativa. Anos depois, recuperados seus direitos políticos, voltaria a governar Miguel Pereira entre 1983 e 1988.
Naquela manhã, porém, o que determinaria seu destino dentro da fortaleza era a existência, ou não, de um diploma universitário.
“Assuma agora mesmo qualquer título universitário”, aconselhou meu pai.
“Mas eu não sou formado em nada!”
“Passa a ser. Você é agora o Dr. Silva, engenheiro agrônomo e veterinário.”
Zé do Nabo ainda perguntou pelo diploma. Meu pai sugeriu que dissesse tê-lo deixado em Miguel Pereira.
A farsa funcionou. Mais tarde, o próprio coronel revelou que sabia de tudo, mas considerara melhor não mandar aquele homem humilde para o subsolo. Dias depois, Zé do Nabo foi libertado.
Meu pai continuaria preso.
A alimentação era a boia dos quartéis, fria, insossa e de mau aspecto. As camas, estreitas e desconfortáveis. Mas o que mais pesava era a incerteza.
Naqueles primeiros dias, ninguém sabia quanto tempo duraria a prisão. Nem o que aconteceria na manhã seguinte.

Fonte: João Pinheiro Neto, Jango, um depoimento pessoal. Dados biográficos complementares: Sebastião Deister, Jornal Regional.

Foto: Vista aérea da Fortaleza de Santa Cruz da Barra, em Niterói, onde João Pinheiro Neto permaneceu preso após o golpe de 1964.