Verdade, confiança e poder na eleição presidencial
Quantas vezes uma versão pode mudar antes que o problema deixe de ser apenas o que aconteceu e passe a ser a confiança em quem conta a história? Levantamento de o ” Aos Fatos” – site de checagem e de combate à desinformação – classificou como enganosas, ao menos, 43 declarações de Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Daniel Vorcaro e o Banco Master. Mais importante que o número é o padrão: nega-se um fato; surgem evidências; admite-se parte; aparece nova informação; muda-se novamente a versão.
Flávio disse que não conhecia Vorcaro. Conhecia. Negou ter procurado o banqueiro para captar recursos para Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro; depois reconheceu a negociação. Afirmou nunca ter viajado em avião de Vorcaro; depois se revelou que viajara em aeronave ligada ao banqueiro. É a sequência que transforma episódios dispersos em uma pergunta sobre confiabilidade.Também se pode desinformar selecionando fatos verdadeiros e omitindo contexto. Flávio vem associando o escândalo do INSS ao governo Lula, embora as irregularidades investigadas atravessem os governos Bolsonaro e Lula. Foi no atual governo que CGU e PF desencadearam a Operação Sem Desconto e se organizou o ressarcimento dos aposentados lesados. Enquanto isso, vieram à tona relações de Flávio com investigados. Em outro caso envolvendo aposentadorias, a PF apurava bilhões do Rioprevidência aplicados em fundos e títulos relacionados ao Master durante a gestão de Cláudio Castro, aliado dos Bolsonaros. São situações distintas. Mas acusar adversários sem apresentar provas, enquanto se silenciam relações próprias que merecem escrutínio, pode cumprir uma função conhecida na disputa política: “atacar para se defender”, deslocando o foco e produzindo suspeitas antes que os próprios fatos sejam esclarecidos.
Quando negar, admitir parcialmente, omitir e reformular se repetem, reconstruir o conjunto torna-se difícil. Uma negativa vira notícia; aparece o documento que a contradiz; surge outra explicação; o noticiário segue. A imprensa informa, mas nem sempre produz memória. E, sem memória, a contradição de hoje pode apagar a de ontem. Nas redes, circula aquilo que confirma convicções; informações incômodas talvez nem atravessem as fronteiras do grupo.É assim que se pode construir um personagem político idealizado: iluminam-se o homem de família, o cristão, o patriota, o defensor da ordem, enquanto relações incômodas ficam na sombra.
Casos recentes ampliaram o quadro. Mensagens obtidas pela PF mostraram Robson Calixto, o “Peixe”, depois condenado por integrar a organização criminosa dos Brazão, tratando com o gabinete de Flávio de recursos de emenda parlamentar. Rodrigo Bacellar, aliado dos Bolsonaros, tornou-se réu em investigação relacionada a TH Joias e à infiltração do Comando Vermelho. Surgiu ainda uma fotografia de Flávio com Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, ligado pela PF à estrutura de Vorcaro. Flávio disse primeiro não conhecê-lo; depois afirmou que a fotografia fora produzida por inteligência artificial. Outra vez, a explicação mudou diante de nova evidência.
Vínculos não são prova de crime, mas sua recorrência exige escrutínio — ainda mais quando o próprio escrutinado acusa adversários de relações com o crime organizado. Investigações mostram organizações criminosas utilizando empresas e instituições financeiras para lavar recursos e penetrar estruturas públicas. Cabe perguntar quem se relaciona com quem, por onde circula o dinheiro e quem se beneficia. E o critério só é defensável se valer para todos: nenhum candidato, governo ou campo político deve escapar ao mesmo escrutínio. Erros factuais, lapsos de memória, omissões, meias verdades e mentiras deliberadas não são equivalentes: é preciso considerar natureza, recorrência, contexto e consequências. Acusação não é prova, e repetição não a transforma em verdade. O eleitor pode chegar a conclusões diferentes diante dos mesmos fatos. O que não pode é ser privado deles.
A mesma exigência vale para as relações com os Estados Unidos. Flávio não representava o governo brasileiro quando defendeu sanções pela Lei Magnitsky, discutiu tarifas e apresentou aos EUA parceria em minerais críticos e terras raras, contrapondo-a à China, principal parceiro comercial do Brasil. Propôs ainda participação americana numa eventual transição; o Pix também entrou nessa agenda. O que estaria sobre a mesa, quem definiria a agenda, em benefício de quem e com quais garantias de soberania?
O problema ultrapassa Flávio Bolsonaro. Precisamos perguntar que interesses permanecem fora do debate e que projeto de país se revela — ou se oculta — naquilo que não é dito. E cabe uma questão ainda mais incômoda: estamos diante apenas de uma disputa legítima entre projetos democráticos ou há forças e interesses dispostos a ultrapassar os limites da própria democracia? Relações com organizações criminosas, penetração das instituições, circulação de dinheiro ilícito e interferência de interesses estrangeiros não são elementos laterais de uma eleição. A questão passa a ser também se as forças em disputa respeitam as regras democráticas, o Estado de Direito e a soberania nacional.
O Brasil necessita de estabilidade democrática, confiança nas instituições e capacidade de administrar divergências, não de radicalização permanente. Uma sociedade submetida à desinformação, ao conflito e à transformação do adversário em inimigo perde referências comuns e vê sua coesão social se deteriorar. Isso também é uma questão de saúde, entendida em seu sentido mais amplo: afeta o bem-estar, a segurança, os vínculos sociais e as condições em que as pessoas vivem e convivem, alimentando insegurança, angústia, medo, ódio e intolerância. As experiências recentes de Estados Unidos e Argentina mostram, sob circunstâncias distintas, os custos de ambientes políticos marcados pela radicalização e pelo conflito permanente. Divergir é próprio da democracia; viver permanentemente em guerra uns contra os outros, não.
Por isso, nesta eleição não basta perguntar em quem votar. Precisamos perguntar em quem podemos confiar, o que precisamos saber e quem ganha quando essa informação não chega até nós. Escolher entre projetos de país exige conhecê-los por inteiro, inclusive pelo que seus protagonistas preferem não explicar. Sem acesso aos fatos, a escolha pode continuar sendo um voto, mas deixa de ser plenamente livre. Quando a verdade é substituída por versões convenientes, está em jogo algo maior que a confiança em um candidato: a capacidade de uma sociedade decidir conscientemente o próprio destino.


