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Para Ler na Rede: Seis décadas de leituras

Para Ler na Rede: Seis décadas de leituras

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Esta semana completo minha 66ª volta em torno do Sol e 25 anos de orfandade. Minha mãe morreu dois dias antes de meu aniversário, encerrando o mais intenso relacionamento que tive na vida. Foi ela quem fez de mim uma leitora.

532531583_10238029698711492_5462849215276045399_n-219x300 Para Ler na Rede: Seis décadas de leituras

Filha única, mantive extrema proximidade de meus pais — a única vantagem de crescer sem irmãos. Em casa, não havia televisão, o que certamente me estimulou a ler de tudo compulsivamente, um mundo de revelações para a garota solitária. Começou com os quadrinhos publicados no jornal “O Globo”, tendo em Ferdinando, Brucutu, Flash Gordon, Príncipe Valente e Dr. Rex Morgan meus protagonistas favoritos. Realização de meus 6 anos de idade foi, finalmente alfabetizada, abrir o jornal no chão e me deitar em cima da imensa página para ler por conta própria, independente, uma leitora madura.

jovens-do-mundo-todo-editora-brasiliense-logotipo-300x169 Para Ler na Rede: Seis décadas de leiturasMinha mãe era do tempo em que crianças mostravam suas prendas aos adultos, recitavam poesia — e me apresentou a Casimiro de Abreu e aos poetas que morriam tão meninos de tuberculose. E no “Mundo da Criança”, a primeira coleção “minha”, encadernada em couro vermelho (sempre aparecem e em biblioteca de telenovela, os livros têm pinta de material jurídico…), os poemas salpicavam páginas coloridas, que me pareciam ruidosas ao contarem que “o mar bramia” em frente a uma mãe e seu filho na praia, nos versos altamente visuais de Casimiro de Abreu.

7861786-217x300 Para Ler na Rede: Seis décadas de leiturasNo processo de formação como leitora, aprendi a deixar de lado qualquer livro entediante, sem qualquer remorso. Menina, tinha o hábito de ler as últimas páginas antes do começo para saber se a trama ia “acabar bem”. Pular capítulos era prática. Importante era embarcar na história. Ou adquirir conhecimento. Aos 7 anos, ganhei um livro de educação sexual francês que aborda a temática através da visita de duas crianças ao Museu do Homem, em Paris. Descobri a alma humana ao me interessar, então, por mitologia grega, lendo “Os doze trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato, que me levou a Peter Pan e Don Quixote também.

mulherzinhas-capa-e-contracapa-300x205 Para Ler na Rede: Seis décadas de leiturasDepois de Lobato, houve outros marcantes encontros literários na infância: as memórias de Laura Ingalls Wilder, a filha de pioneiros norte-americanos, a coleção Jovens do Mundo Todo, publicada aqui pela Brasiliense, com autores de tudo quanto era canto do planeta e pouco conhecidos por aqui, Jules Verne, Charles Dickens, “Mulherzinhas”, “A Moreninha”, “Os meninos da Rua Paulo”, “Pollyanna” e Shakespeare, na versão de Charles e Mary Lamb.

O fim da infância literária veio cedo, aos onze anos, quando meus pais, cansados de me ver ler o Bardo em prosa, me deram todas as peças de Shakespeare — e eu encarei o texto traduzido. Devorei simultaneamente o que se transformou em absoluto vício: a literatura policial em volumes cheios de fungos da Coleção Amarela. Ali, me tornei adulta.

images-11 Para Ler na Rede: Seis décadas de leiturasEram livros lidos e relidos tantas vezes que ficaram gravados como momentos vividos. “Coração”, um clássico italiano entupido de relatos comoventes, me levava às lágrimas. De vez em quando, apareciam mitos africanos, indianos, mil e uma noites árabes, tudo embrulhado pelo olhar romântico daqueles dois, nascidos nos anos 1920, que viveram num mundo de terras distantes, exóticas, misteriosas.

Ao fincar os pés na velhice, esta leitora chega pertinho daquela era de encantamento, quando informação e diversão precisavam ser imaginadas mais do que vistas em telas. O anseio por descobertas só se fortalece, estruturada pelas lembranças daquela época de percepção de um além da beira do mar, a fronteira do carioca com o universo.  Que o inverno da existência traga novas boas narrativas.

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Domingo, 4 de outubro, meu aniversário, tem eleição.

Meu voto é por um governo que preze mais livros, menos armas.