
O Banco Boavista já não era mais o mesmo. Agora atendia por Boavista Interatlântico, rebatizado após ser vendido por simbólicos valores a um novo bloco de controladores: Banco Espírito Santo, Crédit Agricole e Monteiro Aranha. Com a saída da família Paula Machado, encerrava-se ali um ciclo — e eu sentia isso com clareza.
Foi nesse clima de transição que recebi o telefonema de um cliente e amigo. Queria almoçar, conversar, entender como eu via aquela nova instituição. Fui direto: confessei meu desânimo com o mercado financeiro nacional, cansado de improvisos, atalhos e promessas frágeis. Ele ouviu em silêncio e então soltou a frase que mudaria meu rumo: uma grande instituição americana estava contratando private bankers com o meu perfil — reputação, experiência e, sobretudo, uma carteira sólida de clientes ultra high net worth. Ricos, em resumo.
Mostrei interesse. A entrevista foi marcada. Era o ano 2000.
A entrevista foi com um executivo estrangeiro, responsável pela operação no Brasil. Simpático, direto, objetivo. Gostou do meu perfil, perguntou sobre minha clientela e, sem rodeios, fez a pergunta que me desconcertou: quanto você quer ganhar? Pensei ter entendido errado o inglês. Ele repetiu. Parti do salário do Boavista Interatlântico, acrescentei um extra — afinal, eu estava trocando o certo pelo duvidoso. Ele não discutiu. Converteu o valor em dólares, apertou minha mão e perguntou quando eu poderia começar.
Saí atônito. Não regateou um centavo.
O trabalho era completamente novo. Agora eu precisava captar recursos em dólares, buscar brasileiros com contas no exterior e convencê-los a migrar para a Merrill Lynch. Entravam em cena minha persuasão, credibilidade e o argumento decisivo: uma instituição americana mais ágil, com mais opções de investimento e, sobretudo, mais segura.
Havia ainda um detalhe crucial: eu teria de prestar uma prova junto à FINRA (autoridade reguladora do setor financeiro) para obter certificação como consultor financeiro nos Estados Unidos. Disseram que era simples, quase banal. Bastava estudar.
Não era bem assim. Esse era apenas o começo da minha travessia definitiva para o mercado internacional.



