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Hoje em Chico Vartulli convida: Cristina Lacerda: 40 anos de Rio, um olhar que atravessa o mundo

Chico Vartulli 2 de julho de 2026 11 minutes read
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Em 2027, a fotógrafa Cristina Lacerda completa quatro décadas de relação com o Rio de Janeiro. Mais do que tempo, é um vínculo construído entre luz, sombra, gente e movimento. Dona de um olhar sensível, curioso e inquieto, ela construiu uma carreira que mistura grandes eventos, personalidades e histórias anônimas — sempre com o mesmo princípio: conexão humana.
Viajou por dezenas de países, desenvolveu um carinho especial pela Austrália — onde esteve seis vezes —, fotografou nomes como Mikhail Gorbachev, o jogador de futebol Pelé, a atriz Fernanda Montenegro e o cantor Milton Nascimento, e participou de momentos importantes da história recente do Rio.Antes disso, saiu de Paranaguá, no litoral do Paraná, e passou por Curitiba, onde trabalhou na Secretaria Estadual de Cultura e Esportes com levantamento fotográfico de acervo artístico do governo do estado, uma experiência que ajudou a consolidar seu olhar profissional e lhe deu coragem para desbravar o Rio de Janeiro, movimento que marcou definitivamente sua trajetória.

JP – Olá Cristina! Como você observa a cidade

do Rio de Janeiro por meio das lentes da sua câmera?

O Rio deixou de ser sonho de infância e virou cenário onde tudo aconteceu na minha vida. O Rio que encontrei lá atrás ainda existe em fragmentos — mas, para mim, ele continua muito vivo nas pessoas. O que mais permaneceu nestes quase quarenta anos de Rio de Janeiro foram as relações que construí ao longo dessas décadas. Amo meus amigos, minha família e as amizades que nasceram do trabalho. Muitos clientes viraram parte da minha vida, porque são anos, às vezes décadas, caminhando juntos.
O Rio também está nesse afeto, nessa rede de vínculos que atravessa o tempo. A cidade muda, se transforma, mas essas conexões ficam e dão sentido a tudo. E tem o clima… o Rio tem um dos melhores climas do mundo. É luz, é calor, é sol praticamente o ano inteiro. Eu amo o sol. Ele influencia meu humor, meu olhar, minha fotografia. Acho que essa energia luminosa da cidade também ajuda a explicar por que tantas histórias, inclusive a minha, criam raízes aqui. A luz do Rio é vida. Tem uma intensidade que muda o tempo todo, como se estivesse em movimento junto com a cidade. Às vezes é suave, quase dourada, outras vezes é dura, cheia de contraste. A luz do Rio também tem muito a ver com o ritmo da cidade. De manhã, ela é delicada, quase silenciosa. Ao meio-dia, é vibrante, cheia de energia. Estes são meus horários de lazer porque trabalho muito à noite em eventos.

JP – Quais foram os momentos importantes da história recente do Rio que você fotografou?

Vários. Um deles foi quando fotografei o ex-presidente da Rússia, Mikhail Gorbachev, para o colunista Ibrahim Sued, de O Globo. Era um evento cheio de gente importante, muitas autoridades, muita imagens para sair no jornal. E sabe qual foto foi publicada também? Uma do Gorbachev comigo. Quase morri do coração quando começaram a me ligar dizendo que eu estava no jornal. Foi muito simbólico, porque ali eu entendi que a fotografia também é sobre relacionamento, proximidade, confiança — não só sobre o personagem em si.
Outro momento que me marcou profundamente foi minha convivência com Edson de Godoy Bueno. Eu admirava muito o Dr. Edson e aprendi demais com ele. Uma vez, na entrega de alguns álbuns- adoro fazer álbuns-, eu mesma comecei a descartar fotos que tinha feito e falei: “Dr. Edson, me desculpe, é que sou chata”.
E ele respondeu com uma certeza que nunca esqueci: “Cristininha, você não é chata, você é exigente”. Aquilo me marcou de um jeito muito forte. Virou um norte na minha vida. Eu entendi que buscar o melhor não é defeito — é compromisso. Sou exigente. E sou mesmo. Sofro muitooo quando erro.

JP – Quais são os seus eventos preferidos para você fotografar?

Tive o privilégio de estar presente em acontecimentos que marcaram a história recente do Rio de Janeiro, como a Volvo Ocean Race, o Rio Open, etapas da WSL, o Carnaval carioca, a icônica Árvore de Natal da Lagoa Rodrigo de Freitas e o Rock in Rio.

São eventos que ultrapassam o espetáculo. Eles fazem parte da memória emocional da cidade e ajudam a contar o espírito de uma época. Estar nesses lugares, com a câmera nas mãos, é mais do que exercer uma profissão — é testemunhar a história acontecendo ao vivo.

O que mais me encanta é justamente capturar aquilo que muitas vezes passa despercebido: a emoção nos bastidores, a energia das pessoas, os encontros, os olhares, a vibração coletiva. Cada evento tem sua própria atmosfera, sua própria luz e sua própria narrativa.

A fotografia me permite congelar instantes que jamais voltarão a existir da mesma maneira. E talvez seja isso que mais amo no meu trabalho: transformar momentos efêmeros em memória afetiva e permanente.

JP – Quando despertou em você o interesse pela fotografia?

Cresci profundamente conectada à Baía de Paranaguá, onde nasci, e sinto que foi ali que aprendi a observar o mundo. A luz refletindo na água, o movimento das marés, os barcos, o silêncio, o horizonte e aquela atmosfera tão única despertavam em mim, desde pequena, uma sensação de encantamento e contemplação.

Paranaguá faz parte da minha formação emocional e humana. Foi ali que aprendi a perceber detalhes, a respeitar o tempo das coisas e a enxergar beleza na simplicidade. A Baía de Paranaguá me ensinou sobre luz, profundidade, movimento e sensibilidade muito antes de eu sequer imaginar que um dia seria fotógrafa.

Tenho um amor tão grande pela cidade que criei até um grupo no Facebook e um perfil no Instagram chamados “Eu Amo a Cidade de Paranaguá”.

Mas esse olhar ganhou direção graças ao meu pai. Ele também era fascinado pela fotografia. Lembro dos amigos dele chegando com câmeras Polaroid — aquelas fotos que apareciam quase instantaneamente me pareciam mágicas. Eu ficava hipnotizada vendo a imagem surgir lentamente diante dos olhos.

Meu pai percebeu esse encantamento e me deu minha primeira câmera. Naquele momento, sem saber, ele colocou nas minhas mãos muito mais do que um equipamento. Ele despertou em mim o desejo de eternizar aquilo que o tempo insiste em levar.

JP – Como você se define como fotógrafa?

Meu trabalho transita entre grandes eventos, celebridades e pessoas comuns, mas, acima de tudo, me defino uma fotógrafa da experiência humana.

Eu amo pessoas. Amo observar encontros, afetos, emoções e tudo aquilo que acontece de forma espontânea quando seres humanos se conectam. É por isso que gosto tanto de fotografar eventos: porque ali a vida acontece. Os projetos futuros de Cristina Lacerda, segundo a entrevista, incluem metas de longo prazo, conceitos de exposição e projetos específicos:

● Longevidade Profissional: Fotografar até os 100 anos, pois vê a fotografia como um modo de viver.
● Exploração e Cultura: Conhecer lugares onde nunca esteve, no Brasil e no exterior, e registrar culturas diferentes.
● Projetos Específicos (Exposições e Temas):
○ Uma exposição sobre “corações” — tanto no sentido simbólico quanto visual.
○ Um projeto com pés de celebridades.
○ Explorar mais fotos aéreas.
○ Brincar com imagens de gotas.
○ Os projetos “Nossa Senhora da Aparecida em Qualquer Lugar”, “Mitsubishi em Qualquer Lugar” e “Flamengo em Qualquer Lugar”.
● Empreendimento Comercial: Ressuscitar uma marca de surfwear com fotos, resgatando uma estética e um estilo de vida que misturam liberdade, movimento e identidade.
Um olhar, um gesto, um abraço, uma lágrima ou uma risada existem apenas por alguns segundos — e desaparecem. A fotografia tem o poder de transformar esses instantes em memória.

Mais do que registrar imagens, sinto que meu trabalho é preservar atmosferas emocionais. Existe algo muito humano no ato de fotografar: perceber a energia do ambiente, antecipar emoções, sentir o tempo do outro. Isso não vem apenas da técnica, vem da sensibilidade.

Vivemos um momento em que a inteligência artificial produz imagens impressionantes, mas acredito profundamente que ela jamais substituirá a presença humana no encontro real entre pessoas. Porque a fotografia que me interessa não é apenas estética — é emocional. O que busco capturar não é só o que aconteceu, mas o que foi sentido naquele instante. Talvez seja isso que mais defina meu olhar: transformar momentos reais em memória afetiva.

JP – Como se deu a sua formação como fotógrafa?

Minha formação aconteceu sempre de maneira intuitiva, movida pela curiosidade e pelo desejo de compreender melhor as pessoas, os espaços e as emoções.

Comecei estudando Sociologia porque sempre fui fascinada pelo comportamento humano. Gosto de observar relações, encontros, gestos e a forma como as pessoas se expressam no mundo. Depois fui para Comunicação, buscando ampliar meu olhar sobre narrativa, imagem e conexão humana — elementos que hoje fazem parte da minha fotografia de forma muito natural.

A Moda também entrou no meu caminho porque sempre me encantou perceber como as pessoas se apresentam para momentos importantes da vida. Elas se produzem para ir a festas, shows, celebrações… e tudo isso comunica identidade, emoção e intenção. Fotografar essa expressão estética e emocional sempre me interessou muito.

Estudei ainda Design de Interiores por amor aos espaços, à arquitetura e à luz. Trabalhar com arquitetos me ensinou sobre composição, equilíbrio, atmosfera e sensibilidade visual. Acho que isso refinou ainda mais meu olhar fotográfico.

E, por fim, passei por Letras, porque as palavras sempre me emocionaram. Para mim, imagem e linguagem caminham juntas. Muitas vezes uma fotografia conta silenciosamente aquilo que as palavras tentam alcançar — e às vezes as palavras ajudam a aprofundar a emoção de uma imagem.

No fundo, tudo o que vivi e estudei acabou construindo a fotógrafa que sou hoje. A minha fotografia nasce desse encontro entre observação, emoção, estética e experiência humana.

JP – Quando um fotógrafo se sente realizado como profissional?

Um fotógrafo se sente realizado quando consegue revelar às pessoas algo bonito e verdadeiro sobre elas mesmas. Muitos me dizem: “você fez a  melhor foto da minha vida”. E isso me emociona profundamente, porque entendo que a fotografia vai muito além da imagem — ela toca autoestima, memória, emoção e identidade.

Quando alguém se reconhece numa fotografia de forma sensível e verdadeira, sinto que meu trabalho cumpriu seu propósito.

Talvez isso aconteça porque fotografo com o coração. Eu realmente me envolvo com as pessoas, observo os detalhes, a energia, o momento que elas estão vivendo e faço com amor. Realização profissional é quando consigo transformar um instante em uma lembrança afetiva que permanecerá para sempre na vida de alguém.

JP – Quais sâo os seus projetos futuros?

Eu quero fotografar até os 100 anos. Para mim, a fotografia é um jeito de viver. Sempre vai existir uma história nova, um rosto diferente, uma luz que eu ainda não vi.
Ainda quero conhecer lugares que nunca fui, aqui e lá fora, registrar culturas diferentes, continuar acompanhando a vida das pessoas que já fazem parte da minha história e descobrir tantas outras pelo caminho. Quero seguir presente, curiosa, com essa vontade de ver e sentir.
Mas também tenho vontades muito específicas, projetos que ainda quero realizar: uma exposição sobre corações — no sentido simbólico e também visual — com os quais tropeço pela vida. A humanidade precisa fazer as coisas com mais amor no coração e menos no piloto automático, quero também fazer uma com pés de celebridades, explorar mais fotos aéreas e brincar com imagens de gotas. Tenho também outros projetos que ainda vou colocar de pé, o “Nossa Senhora da Aparecida em Qualquer Lugar”, “Mitsubishi em Qualquer Lugar”, “Flamengo em Qualquer Lugar”.  Tem sonhos que vão além da fotografia pura: ressuscitar uma marca de surfwear com fotos, trazendo de volta uma estética, um estilo de vida que mistura liberdade, movimento e identidade.

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