
Estreou Incondicionais no teatro de Arena do Sesc Copacabana.
Espetáculo do Amok Teatro.
Tem como inspiração a obra Cadeia – Relatos Sobre Mulheres, de Débora Diniz; Prisioneiras, de Dráuzio Varella; Presas que Menstruam, de Nana Queiroz; e Prisioneiras – Vida e violência atrás das grades, de Bárbara Musumeci Soares e Iara Ilgenfritz.
O texto de Ana Teixeira e Stephane Brodt é dramático, realista, crítico, reflexivo e sensível; tenso, impactante e chocante; produto de profunda pesquisa documental, cuja dramaturgia é escrita com base em entrevistas, depoimentos, artigos e estudos diversos, configurando o que se denomina de Teatro Documentário; exprime a realidade social das mulheres presidiárias; anti patriarcado; anti violência estrutural; e contemporâneo. Nos apresenta de forma crítica a experiência das mulheres presidiárias brasileiras, muitas delas são mães, deixando suas vozes ecoarem e dando-lhes visibilidade. São quatro mulheres falando, exprimindo suas realidades sob a condição de detentas, sentenciadas pelo código penal.
O elenco é integrado por Dai Ramos, Luciana Lopes, Sirlea Aleixo, Taty Aleixo e Thay Aleixo. Elas têm uma atuação notável e comovente. Elas estão unidas, entrosadas e afinadas. Interpretam com uma qualidade refinada, e também emocionam. Ora atuam como detentas, quando falam, ora como cuidadoras, quando escutam e orientam. Elas sensibilizam a plateia com narrativas de dor e sofrimento, mas também esperança. Dominam o texto apresentando uma linguagem de fácil compreensão, boa retórica e estabelecendo diálogos profundos e densos com um bom ritmo. Dominam o palco, preenchendo os espaços. Não se movimentam intensamente, pois na maior do tempo se apresentam sentadas. Estabelecem uma boa comunicação com o público. Portanto, uma atuação deferida e impactante.
Thay Aleixo representa a policial penal Francinete. Ela fala o mínimo. Age com sua dureza repressiva quando é requisitada.
Em nosso ponto de vista, elegemos dois momentos marcantes da apresentação. O primeiro se dá na cena do refeitório, momento em que elas realizam as suas refeições, dialogam, cantam e trocam ideias. É um espaço de sociabilidade dentro do regime prisional.
O segundo momento é a parte final, quando duas detentas sentadas num banco, sendo que uma está deitada com a cabeça na perna da amiga, cantam a música Problema Social, de Seu Jorge, sintetizando de forma emocionante o encerramento da peça.
A direção de Ana Teixeira e Stephane Brodt é potente, ousada e irreverente, com marcações precisas que deixam a apresentação dinâmica e bem conduzida, potencializando a qualidade das interpretações do elenco.
Os figurinos criados por Stephane Brodt são adequados ao contexto da peça e facilitam a movimentação das atrizes pelo palco. Figurinos de presidiárias e cuidadoras.
A cenografia de Ana Teixeira é bem solucionada, criativa e apresenta os elementos cenográficos distribuídos com adequação pelo palco.
A iluminação criada por Renato Machado apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação das atrizes. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as falas.
A trilha sonora apresenta uma boa seleção de músicas, é pertinente, adequada e funcional.
Texto, elenco, direção, cenografia, figurinos, trilha sonora e iluminação formam um conjunto harmônico e coeso, evidenciando a qualidade do espetáculo.
Excelente produção cênica!





