
No espetáculo Nelson Rodrigues – O Passado Tem Sempre Razão, em cartaz no CCBB Rio de Janeiro, o diretor Carlos Jardim escolhe um caminho inesperado para revisitar o universo rodrigueano. Em vez do dramaturgo escandaloso ou do cronista esportivo, surge Nelson por ele mesmo: o frasista fulminante, dono de observações definitivas sobre amor, futebol, morte, mulheres e a alma brasileira. A montagem constrói um mosaico original e inteligente, que evita o óbvio e aposta na força eterna das palavras do autor.
No centro de tudo está a interpretação monumental de Bruce Gomlevsky. Nelson Rodrigues sempre foi uma figura quase caricatural, marcada por imitações e trejeitos facilmente reconhecíveis. Bruce, porém, vai além da caricatura: transforma Nelson em personagem vivo, humano e profundamente comovente. Enquanto revive episódios dramáticos — o assassinato do irmão Roberto, a tuberculose, a prisão humilhante do filho Nelsinho durante a ditadura — lança ao público as frases imortais que ainda hoje parecem explicar o Brasil. E faz isso sem morbidez, com uma estranha e fascinante vitalidade.

A direção de Carlos Jardim encontra eco perfeito no cenário de Nello Marrese, uma grande alegoria formada por fitas de antigas máquinas de escrever, instalação que envolve e impulsiona a movimentação de Bruce em cena. A trilha sonora completa o ambiente com precisão delicada, acompanhando as divagações e memórias do texto. Ver Bruce interpretando Nelson é mais do que assistir a um espetáculo: é celebrar a permanência dos grandes talentos brasileiros, daqueles artistas capazes de transformar memória, literatura e teatro em pura emoção.
Cais do Oriente
Totalmente mergulhadas no clima dos anos 50 e 60, eu e minha amiga Denise — embora nascida nos anos 60, italiana de alma e apaixonada pelas grandes tradições — resolvemos começar a noite antes da peça, para absorver com calma todo aquele desfile de talentos e memórias. Escolhemos o Cais do Oriente, um lugar impactante de tão bonito. A mistura do rústico com o arborizado cria uma atmosfera cinematográfica, quase um cenário pronto para Nelson Rodrigues surgir em alguma mesa. Flores, iluminação, móveis e detalhes impecáveis transformam o espaço em uma experiência visual acolhedora e sofisticada
O atendimento faz tudo ficar ainda mais especial. Paula, a gestora, orquestra o salão como uma fada elegante e eficiente, enquanto Carlos e Ronaldo, rápidos e extremamente atenciosos, nos fizeram sentir hóspedes privilegiadas de um tempo mais gentil.
Como a proposta da noite era revisitar sabores clássicos, começamos com um pastel de carne-seca, um bolinho de bacalhau corretíssimo e frutos do mar empanados — um verdadeiro must das festas de antigamente. O recheio vinha “saindo pelo ladrão”, como se dizia na época, tão generoso quanto saboroso.
Denise pediu uma tradicional batida de caju e eu fui de Paloma, mistura refrescante de toranja com espumante e sal na borda. No embalo saudável e feliz, dividimos um impecável filé ao poivre, levemente apimentado, com purê de mandioquinha — ou baroa, para os íntimos — e aspargos frescos. Tudo no ponto exato.
E como não queríamos abandonar aquele estado de espírito nostálgico, encerramos a experiência com uma releitura de Romeu e Julieta: pudim de queijo, carregado no queijo como manda a tradição, com calda de goiabada perfeita.
Saímos radiantes, alimentadas pela boa mesa, pela memória afetiva e pela sensação rara de que ainda existem lugares capazes de transformar jantar em acontecimento. E assim, felizes da vida, seguimos para ver Nelson Rodrigues no palco — já completamente entregues ao charme irresistível do passado.
Serviço:
CCBB – Teatro II
Quartas, quintas, sextas e sábados – 19:00
Domingos – 18:00
Cais do Oriente
Endereço: R. Visconde de Itaboraí, 8 – Centro,
De segunda a domingo até as 22:00 horas





