
Dessa vez, o passeio completo foi na Cinelândia. Começamos no Teatro SESI com “A Pediatra”, seguimos para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro para assistir ao delicioso balé “La Fille Mal Gardée” e terminamos no eterno Amarelinho. Muito mais do que o Domingão do Faustão, ali acontece o verdadeiro domingão do carioca, democrático, cultural, boêmio e absolutamente irresistível.
“A Pediatra” é dessas peças que provam como o grande teatro não precisa de enormes aparatos para conquistar o público. Com poucos elementos em cena e um texto afiado, o espetáculo mergulha nas contradições da mulher contemporânea. Débora Lamm tem uma atuação soberba ao viver uma médica pediatra que não gosta de crianças, insatisfeita com o casamento, envolvida com um amante que lhe desperta desejo, mas incapaz de preencher seus vazios emocionais. Tudo nela parece fora do lugar — e é justamente esse caos interno que move a peça.
Débora conduz a personagem por estados emocionais completamente distintos, tudo junto e misturado, sem nunca perder a densidade. A direção de Inez Viana transforma o romance em teatro pulsante: ação, conflitos, diálogos cortantes, humor, tensão e emoção convivem no mesmo espaço. A empregada, espécie de contraponto da protagonista, vê o mundo de maneira simples, quase espiritualizada, como se tudo fosse missão divina. Enquanto isso, a médica tenta racionalizar a vida pela ciência. Luiz Antônio surge como esse homem inseguro, juvenil, que acaba ressaltando ainda mais a potência cênica de Débora.
Assim, chegamos à conclusão de que teatro, na sua essência, não precisa de enormes aparatos. Precisa de ótimo teatro, como é “A Pediatra”.
Depois da intensidade da peça, atravessar a Cinelândia até o Teatro Municipal do Rio de Janeiro foi como entrar em outro universo. O Municipal continua com uma programação imperdível. Temos ali alguns dos melhores corpos de baile, coro e orquestra do mundo, além de uma agenda que combina excelência artística com democratização da cultura. Há espetáculos gratuitos e apresentações a preços populares, permitindo que cada vez mais cariocas ocupem aquele espaço monumental. Vale consultar a programação no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
E claro que o passeio precisava terminar no Amarelinho. Fui com João Miguel, profundo conhecedor dos gêneros eruditos, daqueles que sabem tudo de ópera, balé e música clássica, mas que não perdem um salgadinho perfeito nem um chope bem tirado. Aliás, o atendimento do Néris e da Jade foi digno de primeiros bailarinos. Fizemos os salgadinhos de fio a pavio: bolinho de feijoada, bolinho de carne seca com catupiry e farofa, bolinho de bacalhau, empadinhas de siri e de camarão com catupiry, pastel de picanha e pastel de queijo. Tudo acompanhado de chope Brahma impecável, caipirinha de caju Salinas, com o incrível canudo de bambu, batidas de bananinha, maracujá, gengibre com mel e até milho verde.
Para fechar a noite, ainda encaramos um clássico filé Oswaldo Aranha, com um feijãozinho delicioso, filé de verdade, malpassado, batatas crocantes. E, como adoramos guarnições à francesa, um diferencial de tão boa. Entre teatro, balé, chope e conversa, a Cinelândia prova que é um lugar onde o Rio é o melhor do Rio.
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