
Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Governador Valadares, 1963.
O problema já havia chegado ao Palácio do Planalto.
O cônsul holandês procurou o presidente João Goulart, preocupado com a repercussão internacional da ocupação de terras pertencentes à Grã-Duquesa de Luxemburgo, em Governador Valadares, Minas Gerais.
Jango decidiu agir.
Enviou meu pai, João Pinheiro Neto, presidente da SUPRA, Superintendência de Política Agrária, para intermediar as partes e evitar um confronto.
Quando o avião pousou na pista de terra molhada pela chuva, não havia ninguém esperando por ele.
Nenhuma autoridade. Nenhum carro.
Até que surgiu um velho automóvel preto. Era Carlos Olavo Coelho, jornalista e proprietário de um jornal local.
Governador Valadares era uma região conflagrada. A grilagem ajudara a concentrar enormes extensões de terra. Camponeses eram expulsos do campo, muitos empurrados para uma favela que eles próprios começavam a formar na periferia.
No centro da mobilização estava Francisco da Paixão, o Chicão, sapateiro e liderança camponesa, presidente do sindicato criado com a atuação da SUPRA.
Meu pai reuniu-se com Chicão e convenceu os trabalhadores a desocuparem as terras. Como solução, seriam encaminhados para uma fazenda pertencente ao governo federal, nas proximidades.
O confronto foi evitado.
Mas então veio a fotografia.
A revista Manchete publicou João Pinheiro Neto ao lado de Chicão. A legenda afirmava que meu pai estaria “prestigiando, ostensivamente, Chicão” e que, por isso, passara a ser encarado com suspeita pelos ruralistas.
“Prestigiando ostensivamente.” Hoje, provavelmente chamaríamos isso de fake news.
Meu pai não estava ali para estimular uma ocupação. Havia sido enviado pelo presidente João Goulart justamente para intermediar o conflito, conseguir a desocupação das terras e evitar um confronto.
Mas uma fotografia e poucas palavras foram suficientes para construir outra versão dos fatos.
Em Brasília, os ânimos se exaltaram.
A ironia era enorme.
Meu pai havia sido enviado por Jango para apagar o incêndio.
A fotografia ajudava a transformá-lo em incendiário.
Governador Valadares era um barril de pólvora.
E meu pai acabara de sentar-se sobre ele.
Legenda original da foto: “PRESTIGIANDO, ostensivamente, Chicão (ao seu lado) e Carlos Olavo, o Sr. João Pinheiro Neto passou a ser encarado com suspeita pelos ruralistas valadarenses.”




