
Há coisas que passam depressa. Outras, quase sem que percebamos, vão ficando. Há o instante, o minuto, a hora, a tarde que escorre pela janela do ônibus. Há o beijo que dura segundos e a lembrança que pode atravessar uma vida inteira. Um poema recitado diariamente ao alvorecer e a foto marcada n’alma. Tudo tem sua velocidade específica.
O sol nasce devagar sobre a Baía de Guanabara. A luz se espalha pelos prédios, toca as antenas, acende as janelas. Depois corre. Corre pelos morros, pela areia, pelo mar. E, quando a gente percebe, já é fim de tarde. O céu muda de cor. O Rio muda de rosto. A cidade é assim. Passageira em cada detalhe. Indelével no conjunto.
Uma onda chega à praia e desaparece. Um casal atravessa a rua de mãos dadas. Um vendedor anuncia o mate. Um ônibus passa cheio. Uma bicicleta corta a ciclovia. Um avião risca o céu. Uma nuvem cobre o Cristo por alguns segundos. Tudo passa. Até a chuva, que parece eterna quando cai sobre Copacabana. Até o carnaval, que espera um ano inteiro para durar alguns dias. Até a juventude. Até a beleza. Até certas dores que, um dia, julgamos não ter fim.
A fotografia talvez seja uma das poucas maneiras que inventamos para enfrentar essa velocidade. Apertamos o disparador. Congelamos o instante. Um segundo fica para sempre. O menino continua correndo na fotografia. O casal continua se beijando. O velho continua olhando o mar. A luz permanece exatamente onde estava. Mas a vida não. A vida não para pra ninguém. O tempo tem pressa. O Rio, não – perdoe Paulinho -, ou talvez tenha outra velocidade. Porque há cidades que a gente visita. E há cidades que nos visitam para sempre.
O Rio de Janeiro pertence à segunda espécie. Pode-se partir. Morar longe. Conhecer outros mares, outras montanhas, outras luzes. Pode-se trocar de endereço, de hábitos, de paisagem. Pode-se até tentar esquecer. Mas basta uma fotografia do Pão de Açúcar. Um cheiro de maresia. O desenho do Cristo contra o céu. Um fim de tarde em Ipanema. O barulho de uma onda quebrando na pedra do Arpoador. E o Rio volta. Volta inteiro. Talvez porque certas paixões não obedecem ao relógio.
O amor físico tem sua velocidade. Às vezes é tempestade. Às vezes, brisa. O amor platônico pode ser ainda mais veloz: nasce num olhar e permanece décadas sem jamais ter acontecido. Há amores que duram uma noite. Há outros que duram uma vida. E há aqueles que continuam depois da vida. Porque o amor, diferentemente das coisas, não sabe passar. É ele que fica quando tudo o mais desaparece. Ficam as lembranças. Ficam as fotografias. Ficam os lugares. Fica uma voz. Um cheiro. Um gesto. Um sorriso perdido no tempo. Fica o Rio. Fica aquele amor. Fica aquilo que, por alguma razão que nem a fotografia consegue explicar, o coração decidiu tornar indelével.
Todas as coisas têm sua velocidade específica. A manhã passa. A tarde passa. A noite passa. A juventude passa. O tempo passa. Até nós passamos. Só o amor parece ter descoberto o segredo de ficar. E talvez seja por isso que o amor pela Cidade Maravilhosa tenha uma velocidade diferente de todas as outras coisas. Ele não corre. Não envelhece. Não termina. O Rio passa diante dos nossos olhos. Mas nunca passa dentro de nós.


















