Passeio Completo: Fim de Partida e uma chegada no Locanda São José
O tempo invernal parece ter sido feito para alguns clássicos. E nada melhor do que uma noite mais fria para encontrar Samuel Beckett, um dos grandes autores do teatro moderno, em Fim de Partida, no Teatro Total Energies. Um clássico que continua a revelar novos significados e a falar de solidão, dependência, poder, memória e de um mundo em ruínas.
A montagem reúne Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França, sob direção de Rodrigo Portella. Nanini vive Hamm, preso à cadeira de rodas; Weber é Clov, seu criado e filho adotivo. A relação entre os dois é o centro de uma peça minimalista, em que cada gesto, cada silêncio e cada palavra ganham peso.
Guilherme Weber, ator e diretor, tem uma trajetória construída sobretudo no teatro, mas também no cinema e na televisão. Começou nos palcos em 1991 e, em 1993, fundou com Felipe Hirsch a Sutil Companhia de Teatro. Sua carreira transita entre trabalhos experimentais e personagens populares, mantendo uma presença constante no teatro brasileiro.
Em Fim de Partida, Weber enfrenta ainda um extraordinário desafio físico: passa boa parte do espetáculo curvado, empurrando a cadeira de rodas de Nanini. É uma postura que permanece por cerca de uma hora e meia e que exige preparação corporal específica. Na entrevista que publico a seguir, ele conta como intensificou o treinamento de core para sustentar o personagem.
A ideia de montar Fim de Partida partiu do próprio Weber, admirador de Beckett desde garoto e especialmente dessa peça, que considera sua favorita. A escolha ganhou outro sentido ao reencontrar Marco Nanini, parceiro de trabalhos anteriores, justamente quando o ator se aproximava dos 60 anos de carreira. Para Aqui a nossa conversa com Guilherme Weber, artista que está entre um dos maiores do Brasil.
1. Como surgiu essa ideia de montar fim de Partida. O que fez você olhar e pensar: é essa peça que quero fazer agora?
Beckett sempre foi um dos meus dramaturgos favoritos, desde garoto. Sempre admirei o “nonsense” violento do seu humor, seus bufões no limite da sobrevivência, a adorável tradição de escrever para duplas. E Fim de Partida é minha peça favorita do autor, sempre quis encená-la. Como Nanini é, além de um dos meus atores favoritos, um parceiro que tinha vontade de reencontrar, pensei que o momento tinha chegado ao me dar conta que ele estava prestes a comemorar 60 anos de carreira e que estava na idade certa para encontrar o Hamm, um personagem que é uma espécie de Rei Lear do teatro moderno. Achei que seria um belo presente para ele, para mim e para os amantes de teatro no Brasil. E eu estava certo! E como clássico que é, a peça segue ganhando novas camadas. A pandemia acrescentou mais um contorno para a história destes personagens sozinhos em uma espécie de bunker em um mundo pós-apocalíptico.
2. Você já trabalhou três vezes com Marco Nanini. Como é contracenar diretamente com ele e o que se aprende nessa convivência? Fim de Partida parece ser a mais simples na forma: dois atores, um espaço, uma situação aparentemente mínima. Como foi construir essa simplicidade com Nanini?
Na nossa profissão a memória é uma grande mestra. É sempre um ator, que viu um ator, que viu um ator… Ter visto, como espectador, o Nanini nos palcos e nas telas tantas vezes me ajudou a construir minha personalidade cênica. Estar em cena com ele é um grande exercício de jogo em tempo real. Nanini altera sua composição dentro de um escopo grande; a plateia, o teatro, novas descobertas, então é a experiência de jogar com o mestre. Neste jogo eu aprendo, observo, me afino como instrumento e com orgulho devolvo a ele tudo que ganho diariamente nesta parceria. E sim, é uma peça bastante minimalista. Construímos esta simplicidade buscando o máximo de humanidade nestes bufões em decomposição. Nanini está sempre vigiando para a forma não ultrapassar a humanidade.
3. Você passa boa parte do espetáculo curvado. Como aguenta fisicamente? Existe treinamento específico, preparação, fisioterapia ou algum cuidado para sustentar esse corpo durante toda a temporada?
Desde o início dos ensaios, quando decidimos que esta seria a postura do Clov, meu personagem, intensifiquei o treino de “core” para fortalecer a região central do corpo e melhorar a estabilidade, equilíbrio e sustentar a posição curvada por uma hora e meia. E é realmente fascinante como o corpo reage ao treino. Estamos no sexto mês de apresentações e sigo sem dores. Também me ajuda muito um alongamento em várias etapas para a lombar, feito nos dias de apresentação, antes de dormir.
4. Você é ator e diretor e, ao mesmo tempo, faz personagens absolutamente populares na televisão, inclusive em novelas. Quando percebeu que poderia transitar por universos tão diferentes e fazer de tudo um pouco?
A percepção desta possibilidade esteve intimamente ligada a necessidade e a oportunidade. Todos os convites me chegaram pelo meu trabalho no teatro. E então, por amor ao novo, imensa curiosidade e contas a pagar disse sim para a televisão, cinema, séries e fui percebendo que não só era capaz de trabalhar nestes veículos como gostava imensamente de o fazer. Hoje não tenho nenhum preconceito contra o que é popular, encontro prazer em tudo. Meu mestre é a disponibilidade! Mas sempre decoro meus textos com o boleto de IPTU como régua. Rapidinho ele espanta qualquer crise ou insegurança, ou preconceito rs…
5. Depois de tantos caminhos — ator, diretor, teatro, televisão, personagens populares e trabalhos mais experimentais — o que ainda falta para o Gui Weber fazer? Existe algum território artístico que você ainda queira experimentar
Sim, tenho muita vontade de dirigir uma ópera!

Locanda: o prazer de comer. Ponto.
Depois de Beckett, a Locanda é o relaxamento merecido. Cozinha e serviço de primeira linha, ótimo atendimento de Gutemberg e um ambiente em que se pode conversar — não há gritos. É uma casa para comer bem e ficar à mesa sem pressa, com os clássicos italianos fazendo o que sabem fazer melhor: agradar.
Pedimos o couvert: pãezinhos, torradas, uma telha de parmesão maravilhosa, patê de fígado na medida, manteiga de trufa e mousse de queijo parmesão. Os três se combinam, preparam o palato e permitem que a conversa comece devagar.
Ivan, aquele que me acompanha desde os quatro anos em todo tipo de merenda, sugeriu a entrada Brie Crocante: queijo brie folhado, presunto de Parma e mel trufado. Um acerto. Folhado crocante, brie derretido na medida, sem se espalhar, e o Parma, cru, como deve ser, preservando todo o seu sabor e sua delicadeza. Nada de cozinhar o que não precisa ser cozinhado — uma intervenção a mais pode justamente estragar o sabor de um bom ingrediente.
Ivan é o rei da família camarão — e foi direto para o Tagliolini com molho de camarão, com folhas de espinafre e farofa cítrica de panko. O tagliolini é uma massa longa, em fitas muito finas e delicadas, tradicional da culinária italiana, especialmente do Piemonte e da Emília-Romagna, e preparada com muitos ovos. É daquelas receitas em que a massa termina o cozimento dentro do molho, absorvendo seus sabores. Os camarões, de ótimo tamanho e em grande quantidade, fazem bonito no prato, enquanto o espinafre junto à farofa crocante e cítrica dá uma graça especial ao conjunto.
A rabada, uma das minhas proteínas favoritas, é a base do Risoto de Tomate com Ragu de Rabada. E aqui uma observação importante: era risoto de verdade, cremoso e com o grão preservado — nada daquele arroz caldoso que às vezes aparece disfarçado de risoto. O ragu, do italiano ragù, é um molho de carne cozido lentamente com vegetais e temperos. No caso da rabada, o osso é retirado e a carne, rica em colágeno e gelatina, absorve os sabores do longo cozimento e chega desfiada ao centro do prato.
A comida da Locanda parte de um conceito clássico e é também uma bela comfort food. Mas não é comida de avó: são receitas bem executadas, sem invenções gratuitas nem misturas improváveis. É o prazer de reconhecer o que se está comendo — e encontrar sabor justamente nessa simplicidade.
Depois de tantas delícias, pulamos a sobremesa. Havia ainda muito a discutir sobre Fim de Partida. Afinal, Clov, personagem de Weber, é apenas um vassalo ou um criado que não consegue ter voz própria? Resolvemos deixar as respostas para um próximo encontro — porque algumas conversas, como alguns espetáculos, não terminam quando as luzes se apagam.
Serviço:
Teatro Total Energies
Quinta e Sexta 20h00
Sábado às 19h00
Domingo às 17h00.
Locanda São José
Terça a domingo: 12:00 às 22:00
Segunda: fechado













