Diálogos da Papudinha
-Por favor, meu amigo. Esta cama está meio dura. Estou acostumado a dormir em lençóis de seda ou egípcios de 1000 fios.
– Sinto muito. Aqui a cama é essa e dê-se por satisfeito de o senhor ter cama. Melhor que dormir no chão.
– Já fiz senador transar no chão, mas dormir, nunca. Só no chão do meu iate na costa da Grécia. Mas foi um cochilo.
– O senhor não dorme?
– Eu vigio. Nas festas com as meninas eu organizava. Sabe flanelinha de suruba? Você entra aqui, você sai pra lá. Eu adorava planejar as festas. E as pessoas adoravam que eu organizasse e sobretudo pagasse as meninas. É uma espécie de poder.
Policial pega a tigela no chão da cela.
– Estou vendo que o senhor não comeu sua ração. Não gostou?
– Pois é… difícil pra mim, mas eu acabo comendo. Para quem viveu se alimentando de caviar, filé de ouro, salmão e outras iguarias é complicado se alimentar de arroz e feijão. Mas o feijão daqui até que é bom. Me lembra meus dias de pobre.
– Nesse setor aqui só tem rico. Senador, deputado, influencer, lobbista…o senhor é o quê?
– Eu sou ou fui o rei do Brasil. Ia comprar o país todo até que veio um infeliz que trouxe a PF e me colocou em cana. Mas meu plano era transformar isso aqui num paraíso fiscal, num lugar maravilhoso papa os ricos, numa grande suruba política que favorecesse só os amigos. Todo mundo me respeitava, puxava meu saco. Boa parte desses políticos que estão aqui estavam na minha lista. Comprei todos a preço de banana.
– Aliás, a banana também ficou no prato. O senhor não gosta?
– Comi muita, hoje evito.
– Acho bom o senhor se preparar para depor. O pessoal da PF vem aqui buscar o senhor.
– Espero que seja um carro importado e que vocês tenham mandado passar meu terno que fiz no Vasco. Custou 50 mil.
– Acho que não vai ser preciso e o carro importado é feito no Brasil mesmo. Serve?
– Que seja. Vai ser bom encontrar meus amigos ministros. Devem estar todos preocupados com a minha delação.
-Vai ter delação? A terceira que o senhor promete.
– Depende do prêmio. Queria poder devolver parte do meu dinheiro…
– Seu dinheiro? Mas o senhor tinha dinheiro ou era dos aposentados?
– Isso não vem ao caso. Se o prêmio for bom eu delato. A turma que se cuide.
– O Flávio tá nessa?
– Claro que não. Flávio é irmãozinho. Tá aqui no meu coração isso sim.
– Também depois da grana que você emprestou pra ele fazer o filme.
– Que fazer o filme? A grana foi investida no Texas. Tá lá sendo cuidada pelo Eduardo. Gente fina. Faz um hambúrguer como ninguém. O filme é uma bosta.
– Mas se não vai delatar o Flávio e o Dark Horse vai delatar quem?
– Gente não falta. Basta escolher um ilibado, honesto que esteja fazendo o trabalho direito, tipo o Andrei, que a gente queima. Os irmãozinhos a gente poupa. Vai que ele ganha a eleição. Tenho que estar preparado, dinheiro salvo e relações preservadas.
– E se ele não ganhar?
– Aí vai ser danado. Vou ter que abrir a caixa de pandora e escolher quem vai me ajudar. O dinheiro é tentador. Compra todo mundo, qualquer ideologia, ninguém escapa.
– Olha que não é bem assim. Tem gente que não se vende.
– Quem? Me diz, que eu tento comprar.
Chega outro policial
– O prisioneiro já está arrumado para depor?
– Esse aí, por exemplo, é um.
– Será? Diz ai amigo, tem jeito de eu evitar essas sanções todas que vão ser impostas pra mim tipo a tornozeleira eletrônica, o passaporte apreendido, proibição de conversar com os outros envolvidos, nada de rede social…uísque então, nem pensar. Tem?
– Bem, depende. Quanto o senhor oferece?













