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Liberdade e Conservadorismo na Sociedade Carioca dos Anos Cinquenta

Alex Varela Gonçalves 26 de fevereiro de 2025 5 minutes read
Liberdade e Conservadorismo na Sociedade Carioca dos Anos Cinquenta
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Um clássico do teatro brasileiro, a comédia Toda Donzela Tem Um Pai que é Uma Fera, de Gláucio Gill (1932-1965), estreou no teatro Gláucio Gill.

 

A dramaturgia é de Gláucio Gill, que nos apresenta a cidade do Rio de Janeiro nos anos cinquenta, no bairro de Copacabana, com sua juventude inquieta e sagas. 

 

O texto apresenta Dayse (Carol Pismel), filha de um coronel linha dura (Bruce Gomlevsky), que vai morar com o namorado Joãozinho (Lucas Sampaio ). O pai, quando descobre, fica uma fera e vai armado atrás do rapaz. Desesperado, o moço pede ao amigo e vizinho Porfírio (Danilo Maia), um libertino, que receba Dayse por alguns minutos. 

 

Contudo, o coronel descobre a trama. Acreditando que a filha não é mais virgem, ele obriga Porfírio a se casar com a mesma. Enquanto o coronel prepara os papeis do casamento, os dois amigos pedem para a vizinha Loló (Leticia Isnard) fingir ser casada com Porfírio, na esperança de melar a união.

 

Mas a moça se atrapalha, o Coronel descobre a farsa e obriga Porfírio a assinar os papéis.

 

Tenso, Porfírio abre o jogo e conta ao Coronel que sua filha morava com Joãozinho, afirmando que ele é um rapaz respeitador e que Dayse ainda é virgem. 

 

O coronel vai falar com o verdadeiro namorado, Joaozinho, mas um mal entendido se instala: Joãozinho pensa que ele está falando da vizinha Loló; confessa que ela não é mais virgem e que vai se casar com ela. Que confusão!

 

Esclarecidos os fatos, Dayse se prepara para retornar à casa do pai. Vai ao apartamento do ex-namorado apanhar os seus pertences e desaba a chorar por causa da separação. Joãozinho a consola e o inevitável acontece. Ele entra em desespero: vai ter que encarar a fera. O coronel!

 

Enquanto isso, Porfírio tenta seduzir Loló. Ofendida, a moça sai do apartamento aos prantos.

 

No meio do caminho, Loló encontra o coronel, que consola a jovem, e por ela se apaixona. 

 

Joãozinho e o coronel se encontram, e chegam a um acordo de paz.

 

Os dois casais (Joãozinho e Dayse; Loló e o Coronel) decidem se casar no mesmo dia.

 

Por sua vez, Porfírio, o libertino, aquele que não quer ter compromissos conjugais, que leva uma vida entregue aos prazeres sexuais, faz as malas e volta a morar com a mãe. Com a mamãe!

 

O texto é cômico, lúdico, divertido,  de época, e crítico em relação aos valores morais vigentes na sociedade brasileira da primeira metade do século vinte. Nos apresenta as atitudes e comportamentos dos chamados anos dourados, quando os valores conservadores se faziam presentes, a figura paterna era dominante e as filhas ao pai deveriam se submeter. A virgindade, um tabu da época, era uma regra a ser cumprida. Para o universo feminino, sexo era visto como pecado. A mulher só poderia praticar o sexo depois de casada, para satisfazer os maridos. E as donzelas que não seguissem a risca poderiam cair nas garras ferozes dos seus pais e serem repreendidas.  Um forte discurso conservador e moralista ainda se fazia presente naqueles anos, defendendo a bandeira da família e da religião.

 

Bruce Gomlevsky faz um coronel conservador e tradicionalista preocupado em preservar a honra da sua filha. Por sua vez, Carol Pismel faz Dayse, a filha do coronel, que quer experimentar a sua liberdade e se envolve sentimentalmente com Joaozinho. Este é interpretado por Lucas Sampaio, que faz o assustado personagem, e faz de tudo para manter o namoro com a donzela. Por sua vez, Danilo Maia interpreta Porfírio, o libertino, que não quer compromissos. E, por fim, Leticia Isnard faz Loló, a vizinha alegre, com tranças louras, que para ajudar os dois amigos se envolve na trama, e acaba se casando com o coronel.

 

O elenco tem uma atuação correta e adequada. Eles estão divertidos, bem humorados, e fazem a plateia rir. Tudo é tratado de forma cómica. Portanto, eles interpretam e emocionam, ao fazer todos dar boas gargalhadas. Apresentam um bom domínio do texto e do palco, e uma intensa movimentação pela ribalta. Apresentam uma boa comunicação com o público, com uma boa retórica, e uma linguagem simples e acessível. 

 

O elenco é acompanhado pelos músicos Pedro Nêgo e Dom Yuri.

 

A direção e de Debora Lamm que focou no texto, e deixou os atores a vontade para interpretar os seus respectivos personagens. 

 

Os figurinos criados por Fernanda Garcia são roupas do quotidiano, e adequadas aos personagens.

 

A cenografia criada por Marieta Spada é mínima, simples e adequada, constituindo-se por duas molduras de porta, por onde os atores entram e saem, e um tapete.

 

A iluminação criada por Paulo Cesar Medeiros apresenta um bonito desenho de luz, predomina o tom branco, e realça a interpretação dos atores em seus respectivos papeis.

 

A direção de movimento è de Denise Stutz, que criou movimentos intensos e coreografias criativas.

 

Toda Donzela Tem Um Pai que é Uma Fera é uma excelente comédia que tem como pano de fundo a cidade do Rio de Janeiro nos anos cinquenta; trata temas sérios, como a questão da honra das moças, de forma cômica, leve, e descontraída; e, apresenta um elenco de qualidade e que faz o público rir.

 

Excelente produção cênica!

 

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