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Um dia de cão no Rio de Janeiro

Arlindenor Pedro 29 de outubro de 2025 5 minutes read
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Redes Sociais
           
Por Arlindenor Pedro – Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog Utopias Pós Capitalistas.

Na manhã de 28 de outubro de 2025, os complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, foram palco da maior operação policial das últimas décadas. Iniciava-se assim um dia de cão, onde a prática diária da população foi totalmente subvertida naquela cidade. Com mais de 2.500 agentes mobilizados contra o Comando Vermelho, a ação resultou em mais de 60 mortos, entre policiais, civis e membros da facção.

   A operação extrapolou os limites daquelas comunidades e a população ficou durante todo o dia refém do tiroteio entre o tráfico e as forças policiais. Expôs,  não somente a escalada da violência, mas a própria falência da capacidade estatal de manter a ordem,  revelando um cenário de guerra interna em que o Estado disputa com forças paraestatais o controle de territórios urbanos.
A reação do tráfico, com armamento pesado e ataques coordenados, evidenciou o despreparo das autoridades. A mídia, embora crítica ao amadorismo da operação, limitou-se a análises técnico-operacionais, sem tocar nas causas estruturais da crise. A ausência de saídas institucionais revela um impasse profundo: É impossível enfrentar a violência sem reconhecer o colapso das mediações sociais promovido pela crise global do capitalismo. Fica mais do que evidente que esta guerra não é somente contra o crime, mas contra a falência das formas sociais modernas. Este não é um problema afeto somente ao Rio de Janeiro. Trata-se de um fenômeno global e, como tal, deve ser encarado.
Como aponta Moisés Naím em seu livro Ilícitos, mais de 25 por cento da economia mundial já opera fora da legalidade, sob redes transnacionais que conectam tráfico, armas, corrupção e lavagem de dinheiro. E, no Brasil, essa lógica se torna estrutural. O narcotráfico infiltra-se nas instituições, financia campanhas eleitorais e controla territórios. O Estado, longe de combatê-lo, age como gestor funcional desses interesses, associado ao agronegócio, ao capital financeiro e a redes de clientelismo político. O resultado é um capitalismo de compadres, onde crime e legalidade se entrelaçam sob a aparência de normalidade institucional.
Nas periferias urbanas, esse colapso assume forma concreta. Milícias e facções substituem o Estado na gestão do cotidiano.
    No Rio, esse controle já atinge áreas da classe média, revelando a ampliação da lógica da exceção. Na área rural, por exemplo, como na Amazônia, o narcotráfico atua como soberania paralela, articulado ao garimpo ilegal, à grilagem de terras e à devastação ambiental. A barbárie não é ausência de ordem, mas presença de uma nova ordem violenta, extrativista e militarizada, expressão de um capitalismo em decomposição que transforma territórios em zonas de extermínio e controle privado. Todo o território brasileiro sofre hoje a pressão do tráfico de drogas e das milícias.
Nesse contexto, os ilícitos não são mais desvios. São parte central da engrenagem do poder vigente. A PEC da Blindagem, as emendas secretas, o foro privilegiado das cúpulas partidárias e o controle dos fundos eleitorais demonstram que o Estado opera como infraestrutura jurídica do crime. A legalidade transforma-se em técnica de blindagem e o crime em instrumento de governo. O Estado brasileiro não somente convive com a ilegalidade, ele a regula, a protege e a incorpora como modo funcional de reprodução do capital em crise.
Ao nível mundial, o processo de autonomização do capital fictício é acompanhado pela corrosão dos mecanismos históricos de regulação. A falência dos tribunais, a captura das agências, a dissolução de convenções internacionais e o enfraquecimento das instituições multilaterais revelam que a legalidade moderna criada pela ordem liberal está sendo desativada. Fraudes, evasões, lavagem de dinheiro e manipulações financeiras não são mais escândalos, mas práticas normalizadas.
   O capital se reorganiza por fora do Estado e, ao mesmo tempo, utiliza o próprio Estado para legalizar o ilegal. A política atua como escudo das redes ilícitas. Assim, o crime não é antítese do capital: é sua forma avançada de sobrevivência num sistema que já não pode se autorreproduzir sem violar suas próprias bases jurídicas e sociais. O modelo dos Estados Nacionais, criado pela burguesia liberal, não tem mais futuro.
Há tempos, reafirmamos que não há mais saídas possíveis no interior da forma social capitalista em franca decomposição. Essa crise que atravessamos não é conjuntural, mas estrutural, enraizada na lógica esgotada da valorização do valor.
    A financeirização, a violência sistêmica e a fusão entre legalidade e crime são sintomas de um sistema em decomposição. O quadro tende a se agravar: Mais falência estatal, mais degradação social, mais barbárie. A única perspectiva realista está em reconhecer esse esgotamento histórico e criar condições para novas formas de vida social. Isso exige o surgimento de gerações dispostas a confrontar diretamente a forma social capitalista, recusando seus fundamentos globais. Este episódio que viveu o Rio de Janeiro é somente um pequeno exemplo do que temos pela frente e da tarefa que a história nos impõe.

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