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O crescimento da economia de guerra na Rússia e na Europa

Arlindenor Pedro 14 de dezembro de 2025 8 minutes read
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Por Arlindenor Pedro –  Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal Utopias Pós Capitalistas.
  ” Já estamos na Terceira Guerra Mundial, só que ela está se realizando aos poucos”.
 Papa Leão XIV.
    A frase, dita por Leão XIV durante visita oficial à Turquia em 27 de novembro de 2025, não foi uma advertência exagerada, mas uma descrição precisa do atual estágio da política global. A guerra, que já não se apresenta como episódio localizado, tornou-se o eixo de reorganização de economias inteiras, tanto no Leste quanto no Ocidente europeu. O que antes era considerado uma exceção, agora começa a operar como regra. A lógica bélica se espalha, infiltrando-se nas finanças, na indústria, na gestão estatal e nos mercados de trabalho.
    A Rússia é, nesse sentido, o caso mais avançado dessa mutação. Desde o início da guerra contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022, o país reorientou sua base produtiva para um esforço militar permanente. Em 2024, os gastos com defesa superaram os 40% do orçamento federal, e em 2025 o país deve destinar mais de 6% de seu PIB à área militar. Trata-se de um volume inédito desde a Guerra Fria.
   A indústria se concentrou na fabricação de armamentos, veículos e munições. Setores civis foram marginalizados. A economia passou a operar com prioridade bélica, enquanto bens de consumo, infraestrutura social e tecnologia civil enfrentam retração ou estagnação.
A chamada economia de guerra, embora pareça apenas uma reorganização produtiva voltada para fins militares, constitui, na realidade, um sintoma agudo da crise estrutural do capitalismo. Quando a reprodução econômica passa a depender da produção de destruição, como armas, munições, sistemas bélicos, etc, estamos diante de uma forma de valorização que não gera valor social real: Não produz bens que aumentem a vida social, mas mercadorias cujo valor de uso é a violência. Trata-se, portanto, de um desvio radical da função social do trabalho e de uma evidência de incapacidade estrutural do capital de se renovar pela produção socialmente útil.
A recusa recente de Vladimir Putin em aceitar o fim do conflito com a Ucrânia confirma essa dinâmica. Em novembro de 2025, o Kremlin rejeitou as propostas de paz formuladas pela Europa e pelos Estados Unidos, afirmando que elas não atendem aos interesses da Rússia. Poucos dias depois, Putin declarou que, caso a Europa deseje a guerra, a Rússia está pronta. Ao mesmo tempo, sinalizou o desejo de estender o conflito e alcançar objetivos estratégicos mais amplos, como o controle total do Mar Negro.
   As declarações deixam claro: a guerra não é mais uma contingência, mas um projeto de longo prazo. Para Moscou, a guerra prolongada serve não apenas a fins militares, mas também à consolidação de uma nova forma de economia nacional, baseada na destruição como fonte de lucro e estabilidade interna.
Mesmo diante da desaceleração econômica, com crescimento previsto abaixo de 1,5%, o setor militar russo continua em expansão. Empresas de defesa operam com contratos garantidos, acesso privilegiado a crédito, subsídios estatais e prioridade logística.
   A cadeia produtiva militar sustenta rendas, empregos e exportações, mesmo sob sanções. A população, por outro lado, enfrenta inflação, escassez e precarização. A economia se mantém em funcionamento, mas às custas da compressão da vida civil e do aprofundamento do autoritarismo.
Já na Europa Ocidental, o rearmamento segue ritmo acelerado. Em 2024, os países da União Europeia atingiram um recorde de 343 bilhões de euros em gastos militares. Em 2025, a cifra pode ultrapassar 380 bilhões, com vários países anunciando aumentos superiores à meta de 2% do PIB estabelecida pela OTAN. A Alemanha decidiu expandir sua base industrial bélica. França, Polônia, Suécia e até Estados tradicionalmente neutros, como a Áustria, seguem no mesmo caminho.
Esse movimento não se reduz à conjuntura da guerra na Ucrânia. Ele expressa uma reconfiguração profunda da função econômica da defesa no capitalismo europeu. A produção de armas passa a ocupar o lugar antes reservado a setores industriais estratégicos. A indústria bélica é apresentada como motor de inovação, geradora de empregos qualificados e vetor de soberania econômica. Estados direcionam recursos orçamentários, incentivos fiscais, linhas de crédito e parcerias público-privadas para apoiar empresas como Rheinmetall, Leonardo, Thales e Saab. O complexo militar-industrial europeu se expande com apoio estatal e financiamento privado.
O impacto sobre o mercado de trabalho é visível. Na Rússia, há crescimento acelerado em setores como metalurgia pesada, química industrial, eletrônica bélica, engenharia e logística. A demanda por técnicos, engenheiros e programadores de sistemas de defesa cresce em ritmo constante. Mas isso não ocorre de forma equitativa: enquanto setores militares avançam, áreas civis como educação, cultura e indústrias leves , sofrem cortes, abandono e desinvestimento.
Na Europa, o padrão se repete. O crescimento militar cria empregos técnicos bem remunerados, mas concentra renda e exclui trabalhadores menos qualificados. Empresas de tecnologia civil passam a depender de contratos militares. A militarização amplia a segmentação do trabalho e reforça desigualdades sociais. A guerra, ao reconfigurar o mercado, também transforma a estrutura social do trabalho e desloca o foco do desenvolvimento humano para a eficiência bélica.
O setor financeiro ocupa posição estratégica nesse novo arranjo. Na Rússia, bancos públicos e privados como Sberbank, VTB e Gazprombank operam como intermediários do esforço militar, garantindo crédito, financiamento e liquidez para as empresas de defesa. Na Europa, grandes bancos comerciais e de investimento retomam sua vinculação com o setor armamentista, que havia sido limitada por diretrizes éticas após a Segunda Guerra Mundial.
   Títulos públicos para defesa, fundos de investimento temáticos, flexibilização de critérios de sustentabilidade e reclassificação de ativos militares como estratégicos ou defensivos formam o novo vocabulário financeiro da guerra. A guerra, nesse modelo, é rentável e bancável.
Esse redirecionamento da economia implica, inevitavelmente, um recuo em políticas voltadas à qualidade de vida. O meio ambiente foi o primeiro a perder espaço nas agendas governamentais. Planos de transição energética foram postergados ou redimensionados. A Alemanha reduziu investimentos em transporte verde e adiou metas climáticas. A França reorientou verbas ambientais para logística militar. Iniciativas de habitação social, saúde pública e programas para juventude sofrem contenções. O discurso da austeridade retorna, agora legitimado pela necessidade de segurança. A guerra, mais uma vez, ocupa o lugar da vida.
No plano teórico, a guerra como vetor econômico expressa a falência da acumulação civil. O capital, sem poder expandir-se com base na produção socialmente útil, encontra na destruição organizada, disciplinada, rentável uma saída para sua crise interna. A militarização da economia não representa progresso, mas sobrevida. O Estado, ao assumir a função de sustentação artificial do capital, organiza a reprodução com base na coerção, na tecnologia da violência e na supressão de finalidades sociais. A paz, nesse cenário, torna-se disfuncional. Para os setores que lucram com a guerra, o fim do conflito é um risco. A guerra precisa continuar para manter o sistema em movimento.
Para compreender essa dinâmica do capitalismo, o da guerra como forma de economia, tal realidade tem sido nos últimos tempos objeto de estudo de diversos intelectuais, notadamente os da crítica radical do valor como o professor Marildo Menegat, especialmente em sua obra Crítica do Capitalismo em Tempos de Catástrofe (Rio de Janeiro: Consequência, 2019).         Menegat chama a atenção para o fato de que o capitalismo não deve ser compreendido apenas como sistema produtor de mercadorias, mas como uma forma histórica de destruição sistemática das bases da vida. A guerra, nessa leitura, não é uma exceção ou patologia, mas a expressão mais nítida da lógica do capital em sua fase terminal, quando a valorização já não pode mais se realizar no plano da produção civil.
    A violência armada aparece, então, como vetor de prolongamento da autovalorização por meio da negação ativa da vida. A consolidação atual de uma economia de guerra que mobiliza recursos, ciência e instituições para sustentar destruição em escala industrial confirma essa crítica radical: o capital em colapso sobrevive matando, e a guerra é sua forma mais direta de persistência.
A declaração de Leão XIV, feita na Turquia, assume então um caráter ainda mais denso. A terceira guerra mundial não virá — ela já começou. E ela não se organiza por um confronto generalizado, mas por uma multiplicidade de frentes locais, setores industriais, mecanismos financeiros e discursos de segurança que naturalizam a violência e a integram à gestão da economia. A guerra tornou-se aceitável, desejável e, em muitos casos, bem-vinda.

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